RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A inflação foi menor para as famílias mais pobres e maior para as mais ricas no país em 2025, indica o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
No ano passado, os preços da cesta de consumo dos brasileiros com renda considerada muito baixa acumularam alta de 3,81%. Foi o avanço menos intenso (e o único abaixo de 4%) dos seis grupos da população analisados pelo Ipea.
No outro extremo, formado pelas famílias de renda alta, a inflação alcançou 4,72% em 2025. Foi a maior da pesquisa.
Pelo menos dois fatores explicam a diferença de 0,91 ponto percentual nas duas taxas, conforme o Ipea.
De um lado, a inflação dos mais pobres foi puxada para baixo pela trégua dos alimentos com a supersafra de grãos e a queda do dólar.
Conforme a pesquisadora Maria Andreia Parente Lameiras, responsável pelo levantamento do Ipea, os gastos com comida respondem por cerca de 30% da cesta de consumo dos mais pobres.
De outro lado, a inflação das famílias de renda alta foi pressionada pela carestia dos serviços, que impactam mais essa camada da população, aponta Maria Andreia.
Houve reajustes em itens como passagens aéreas (7,85%), transporte por aplicativo (56,08%) e recreação (6,7%).
CENÁRIO DE 2026
Em 2026, as taxas de inflação de pobres e ricos caminham para ficar mais “um pouco mais parecidas”, diz a pesquisadora do Ipea.
Isso porque os alimentos tendem a subir mais, enquanto os serviços devem desacelerar com a persistência dos juros elevados e do endividamento de parte das famílias, segundo a técnica.
Assim, a expectativa dela é de que a inflação acelere para os mais pobres e diminua o ritmo para os mais ricos. A projeção de momento é de taxas próximas a 4% no acumulado do ano, afirma Maria Andreia.
“A gente deve ter, em 2026, inflações muito próximas dentro de todas as faixas. Não vai ter a discrepância que teve dessa vez [2025]. A inflação dos mais pobres tem um viés de ser um pouco maior em 2026, e a dos mais ricos, um viés de ser um pouco menor.”
Newsletter Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. *** Para calcular a variação dos preços por faixa de rendimento, o Ipea utiliza dados do IPCA, divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A cesta de cada grupo é adaptada a cada realidade de consumo. Em termos gerais, o IPCA fechou 2025 em 4,26%.
Nas famílias de renda muito baixa, o rendimento por domicílio é inferior a R$ 2.202,02 por mês. No caso dos consumidores de renda alta, o valor mensal supera R$ 22.020,22.
FAIXAS DE RENDA DO INDICADOR DE INFLAÇÃO
**Valor mensal domiciliar**
– Renda muito baixa: menor que R$ 2.202,02
– Renda baixa: entre R$ 2.202,02 e R$ 3.303,03
– Renda média-baixa: entre R$ 3.303,03 e R$ 5.505,06
– Renda média: entre R$ 5.505,06 e R$ 11.010,11
– Renda média-alta: entre R$ 11.010,11 e R$ 22.020,22
– Renda alta: maior que R$ 22.020,22
_Fonte: Ipea_
INFLAÇÃO AFETA POPULAÇÃO DE FORMAS DIFERENTES
Embora a projeção do Ipea indique taxas de inflação similares para pobres e ricos em 2026, o aumento dos preços é sentido de formas diferentes pelos grupos.
“As camadas mais pobres são aquelas que, de fato, sofrem mais com a inflação, porque têm um orçamento muito menor”, afirma Maria Andreia.
A parcela mais rica consegue se proteger por meio de investimentos no mercado financeiro, além de contar com a renda bem superior, acrescenta a pesquisadora.
O ano de 2026 terá eleições presidenciais no Brasil, e o preço da alimentação é um elemento sensível para o bolso dos consumidores.
No início de 2025, antes de a inflação da comida ceder, o presidente Lula (PT) fez reiteradas críticas aos valores praticados no país.
Em 2026, a produção de grãos deve ser um “pouquinho menor” do que a supersafra de 2025, segundo Maria Andreia.
De acordo com ela, o cenário atual indica que o dólar não tende a “atrapalhar”, mas também não deve contribuir para baixar os preços como no ano passado. A moeda americana teve queda de 11,19% em 2025, reduzindo a pressão sobre o custo dos alimentos.
Além disso, conforme a pesquisadora, as carnes tendem a subir mais em 2026. A alta da proteína animal desacelerou a 1,22% no IPCA de 2025.
Na soma desses fatores, a inflação da alimentação no domicílio deve fechar 2026 em um patamar próximo de 4,5%, acima da taxa registrada em 2025 (1,43%), aponta Maria Andreia.
“O ano passado foi muito bom para as carnes. Teve uma produção muito grande. Neste ano, os próprios produtores já avisaram que o número de abates vai ser menor. Então, vai ter uma pressão maior dos preços”, diz a pesquisadora.
Ela pondera que as estimativas podem ter mudanças ao longo dos meses. Alterações no dólar durante a corrida eleitoral ou uma safra menor ou maior do que a prevista inicialmente podem influenciar os números de inflação.