BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A disputa eleitoral no Distrito Federal levou governo e oposição a trocarem acusações sobre a responsabilidade pela crise no BRB (Banco de Brasília) e sobre como deve ser dividida a conta a ser paga para a solução, após o banco se envolver em uma negociação com o Banco Master.
Autoridades que acompanham o caso Master temem que o embate político arraste o banco estatal de Brasília a perdas ainda maiores e dificulte a recuperação financeira da instituição, cujo principal acionista é o governo do Distrito Federal.
Aliados do governador acusam a oposição de jogo sujo e afirmam que boatos tem sido disseminados -como o de que o BRB pode quebrar antes do fim deste ano, o que o presidente atual, Nelson Antônio de Souza, nega categoricamente.
Funcionários do banco, no entanto, avaliam que é preciso uma solução rápida. A instituição tem que se capitalizar para responder à determinação do Banco Central em até 180 dias. Além disso, é necessário fechar o plano até 31 de março, para que a capitalização não fique descasada da publicação do balanço de 2025.
Como mostrou a Folha de S. Paulo, o BC exigiu que o BRB faça um provisionamento (reserva financeira) de R$ 2,6 bilhões para fazer frente a eventuais perdas com a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras fraudulentas de crédito do Master.
No ano passado, o banco estatal de Brasília informou que havia recuperado parcialmente os valores (cerca de R$ 10 bilhões). No entanto, em depoimento à PF, o diretor do BC, Aílton de Aquino, disse que a necessidade de provisionamento para cobrir as perdas é ainda maior e pode chegar a R$ 5 bilhões, em razão do uso de ativos de baixa qualidade na substituição dos ativos podres.
O BC então comunicou o governo do DF sobre a necessidade de injetar recursos no banco. Mas a possibilidade de o aporte reduzir recursos para políticas públicas irritou a oposição, que promete ser contra, e virou munição contra o governo Ibaneis Rocha (MDB).
“Quem destruiu a imagem do banco, que é patrimônio do povo, tem nome e sobrenome: Ibaneis Rocha. O que a oposição está fazendo é impedir que a conta da fraude seja empurrada pelo Ibaneis para a população. Se alguém vai pagar pela fraude, que seja Ibaneis e Paulo Henrique Costa [ex-presidente do BRB]”, diz Ricardo Cappelli, presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial) e principal adversário governista.
Ele é pré-candidato a governador e hoje um dos principais adversários da vice-governadora Celina Leão (PP), também pré-candidata.
Ex-assessor do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino, Cappelli ganhou espaço na política brasiliense após assumir o governo temporariamente após o ataque de 8 de janeiro de 2023.
Os partidos Cidadania e PSB apresentaram um dos pedidos de impeachment contra Ibaneis. Cappelli afirma defender o afastamento do governador justamente para preservar o banco.
Reservadamente, porém, atuação de Cappelli tem incomodado também parte da oposição. É consenso no grupo que o governador seria culpado por patrocinar uma operação suspeita com o Master, por motivos ainda não esclarecidos. Mesmo assim, parlamentares dizem estar em “uma sinuca de bico”.
Deputados distritais consideram ser absurdo aprovar um projeto de lei para salvar o BRB usando ativos públicos -como a estatal de iluminação pública Ceb Ipes ou terrenos em Brasília. Ao mesmo tempo, reconhecem a importância do BRB, por fatores como a folha de pagamentos do funcionalismo e a forte presença no crédito imobiliário, e dizem que é preciso cautela no enfrentamento político.
No governo do DF, a possibilidade considerada mais provável para a capitalização do BRB é um empréstimo do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) usando ativos da capital federal como garantia. A medida exigirá aprovação da Câmara Legislativa do Distrito Federal, onde o governo acredita ter o apoio da maioria dos parlamentares.
Integrantes do Banco Central também veem com temor a contaminação política sobre o resgate do BRB.
Segundo relatos, a preocupação com uma crise de imagem sobre o banco foi colocada pelo próprio presidente do BC, Gabriel Galípolo, a parlamentares no ano passado. Na ocasião, segundo um participante da reunião, o presidente da autoridade monetária afirmou que o histórico do sistema bancário já demonstrou que um dos grandes problemas é o de credibilidade. Assim, uma instituição pode ruir, se tiver sua reputação atacada.
A informação publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, de que o governo do Distrito Federal teria recebido um ultimato do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para fazer um aporte de R$ 4 bilhões no BRB aumentou a tensão política e levou o banco a atravessar dias de turbulência, com movimentos atípicos de saques. A assessoria do ministro negou a informação.
No último dia 19, os saques superaram em R$ 3,6 bilhões as entradas de recursos. Aquela semana terminou com a situação normalizada, com a entrada líquida de recursos superior em mais de R$ 2 bilhões aos saques, e apoio dos bancos privados e da Caixa Econômica Federal.
A direção do BRB também tem tentado alertar os parlamentares para os riscos para a economia do Distrito Federal de uma eventual liquidação ou intervenção do BRB pelo BC. Na última segunda-feira (28), entidades que representam a construção civil e o mercado imobiliário de Brasília divulgaram uma nota em apoio ao banco.
“Ninguém tem interesse que o BRB quebre. A economia do Distrito Federal levaria dez anos para se recuperar disso. Muitos prédios virariam esqueletos”, diz o deputado distrital Chico Vigilante (PT).
O secretário de Economia do DF, Daniel Izaías de Carvalho, afirma que o BRB cumpre um papel social importante e que o Governo do Distrito Federal tem disposição e patrimônio para ajudar a instituição, se for preciso.
“O Distrito Federal tem ativos suficientes para fazer frente a uma necessidade de aporte de capital”, diz. “Tem condições de se organizar para socorrer o banco em um determinado momento, se for necessário.”
Sob a gestão de Paulo Henrique, o BRB passou a participar cada vez mais do governo do DF: assumiu desde a gestão da Torre de TV, um dos cartões postais da cidade, até a operação do sistema de bilhetagem do transporte público.