SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em audiência convocada pelo Partido Democrata nesta terça-feira (3), três cidadãos americanos relataram ao Congresso dos Estados Unidos como foram atacados e tiveram seus direitos violados por agentes federais de imigração do governo Donald Trump, que conduz uma campanha em massa de deportação em todo o país.
Os irmãos de Renee Good, americana morta por agentes do ICE em Minneapolis em janeiro, também testemunharam ao Congresso. Luke e Brent Ganger elogiaram a irmã, criticaram a forma como o governo Trump se referiu a ela após sua morte e lamentaram que a campanha de deportação continue acontecendo.
A professora Marimar Martínez, baleada cinco vezes por agentes de imigração, testemunha ao Congresso americano em Washington, nos EUA Robert Schmidt AFP Mulher de cabelos pretos e lisos fala em audiência pública sentada atrás de mesa com microfone. Placa com nome ‘Ms. Marimar Martinez’ está à sua frente, ao lado de caixa de lenços e garrafa de água.
“Nas últimas semanas, nossa família buscou conforto na esperança de que a morte de Renee traria alguma mudança para o nosso país. Isso não aconteceu”, disse Luke, visivelmente emocionado enquanto falava aos deputados e senadores democratas.
Depois deles, os políticos ouviram Marimar Martínez. Professora de 30 anos de idade, ela foi baleada cinco vezes por agentes do CBP, a agência de proteção das fronteiras dos EUA, enquanto protestava contra uma operação em Chicago em outubro de 2025. Martínez, que nasceu no México e é cidadã naturalizada, sobreviveu aos tiros.
“Eu sou Renee Good, Alex Pretti e Silvério González”, disse Martínez na audiência, em referência aos dois americanos e também ao cidadão mexicano morto pelo ICE em Chicago em outubro. “Eles deveriam estar aqui, e tenho certeza que aceitariam na mesma hora uma vida de dores e sequelas de cinco tiros para estar com seus entes queridos novamente.”
Martínez foi baleada depois de protestar contra uma operação do CBP. Ela seguiu os agentes pelas ruas do bairro onde morava até que, segundo ela, seu carro foi fechado por uma viatura. Em seguida, ainda de acordo com Martínez, um agente fortemente armado desceu do veículo e a provocou, dizendo: “Faça alguma coisa!”. Quando ela tentou dirigir para longe, o agente atirou contra o carro, baleando Martínez cinco vezes.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) inicialmente classificou Martínez de terrorista doméstica (da mesma forma que fez com Renee Good e Alex Pretti) e disse que ela tentou atropelar o agente (mesma acusação feita contra Good). A professora chegou a ser denunciada, mas a Justiça arquivou o caso.
“Meu próprio governo me chamou de terrorista”, disse Martínez na audiência. “Em alguns momentos, eu achava que isso não era real, mas bastava tocar nos ferimentos a bala para me lembrar”, afirmou a professora perante os parlamentares. “O governo [Trump] diz que está atrás só dos piores criminosos, mas suas ações mostram outra coisa. Eles estão mirando pessoas não brancas e com sotaque”, disse.
O agente que baleou Martínez, Charles Exum, se gabou de ter disparado cinco tiros, mas deixado a professora com sete ferimentos a bala (dois dos projéteis entraram e saíram de seu corpo). “Cinco tiros, mas sete buracos. Lembrem-se dessa, pessoal”, escreveu Exum em mensagens a outros agentes reveladas mais tarde pela imprensa americana.
Em seguida, a cidadã americana de ascendência bangladense Aliya Rahman contou como foi agredida e retirada à força de seu carro em Minneapolis em janeiro. Segundo Rahman, ela estava dirigindo em direção a um centro de tratamento -ela tem uma deficiência motora e autismo- quando se deparou com uma rua fechada por agentes federais de imigração.
De acordo com Rahman, que é engenheira, agentes ordenaram que ela tirasse o carro do local e, quando ela não fez isso rápido o bastante, quebraram seu vidro e a retiraram do veículo. Ela teria dito “tenho uma deficiência”, ao que os agentes teriam respondido: “Tarde demais”. Ela foi jogada no chão, imobilizada e levada a um centro de detenção, onde permaneceu por uma hora sem cuidados médicos até desmaiar de dor e ser levada a um hospital.
“Ninguém pediu meus documentos, ninguém me disse que eu estava presa, ninguém leu meus direitos, ninguém me acusou de um crime. Os agentes riram de mim e se recusaram a me devolver minha bengala”, disse Rahman. “Eles só se referiam a nós [ela e os outros detidos] como ‘corpos’.”
Por fim, os democratas ouviram Daniel Rascón, de San Bernardino, na Califórnia. Operador de empilhadeira, ele estava em um carro com o cunhado e o sogro, Francisco Longoria -todos cidadãos americanos– quando foram abordados por agentes de imigração e tiveram as janelas do carro quebradas.
De acordo com Rascón, Longoria, temendo que os agentes os matassem, fugiu do local. Os agentes reagiram atirando contra o carro, mas ninguém foi ferido. Nas horas e dias seguintes, membros do DHS vigiaram a casa da família e a invadiram duas vezes –em uma delas, vários agentes, fortemente armados e com óculos de visão noturna, entraram na residência no meio da noite para prender Longoria.
Newsletter Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo *** O homem passou três meses detido sob acusação de agredir um agente federal antes que a Justiça arquivasse o caso. “Eles apontaram armas para a minha noiva, que estava grávida”, disse Rascón. “Homens mascarados que não queriam se identificar. Eles tentaram nos matar.”
Richard Blumenthal, senador por Connecticut e um dos democratas que convocou a audiência, disse que as histórias provam que o DHS precisa ser “completamente reformulado”. ” Câmeras corporais, nada de máscaras, treinamento rigoroso e investigações independentes quando houver uso da força. Precisamos de uma comissão da verdade”, afirmou.
Já o deputado Robert Garcia, da Califórnia, disse: “Posso prometer a vocês que os responsáveis pelas violações que vocês sofreram serão responsabilizados”, citando Trump e a secretária do DHS, Kristi Noem.