Véspera de prisão de Vorcaro teve viagem a Brasília, anúncios antecipados e mudança em fundo

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO E BRASÍLIA, None (FOLHAPRESS) – O domingo 16 de novembro, dia que antecedeu a prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, foi agitado. O avião do banqueiro —um jatinho que está em nome de sua holding patrimonial, Viking— partiu de Belo Horizonte rumo a Brasília, aonde chegou às 17h30. A aeronave deixou o Distrito Federal três horas depois, às 20h30, rumo a São Paulo.

Os advogados de defesa de Vorcaro não quiseram comentar a passagem relâmpago pela capital federal, num domingo em que outras peças ligadas ao caso também se moveram.

Na tarde daquele mesmo domingo, Vorcaro também decidiu antecipar o dia em que faria o anúncio público de que a Fictor Holding Financeira iria comprar o Master em parceria com investidores internacionais, de acordo com inúmeras pessoas que acompanharam os preparativos. Até então, tudo estava organizado para o anúncio ocorrer na sexta-feira seguinte, dia 21, após o feriado da Consciência Negra. A notícia foi divulgada aos jornalistas na tarde de segunda-feira (17).

Para integrantes do grupo que acompanhava a finalização dos trâmites, a necessidade de adiantar o cronograma foi atribuída ao vazamento do negócio. Na manhã daquele domingo, o colunista Lauro Jardim, de O Globo, publicou uma nota contando que Vorcaro apresentaria a diretores do BC, até a quarta-feira (19), propostas de venda de seus principais ativos a investidores estrangeiros.

Nesse mesmo domingo, Vorcaro também decidiu antecipar a sua viagem ao exterior, de quarta-feira para segunda. A Folha teve acesso aos planos de voo da aeronave e suas alterações.

Reportagem da Folha mostrou que também naquele 16 de novembro ocorreu, às 15h, uma assembleia de cotistas que reformulou o regulamento de um fundo ligado a Vorcaro e ao Master, o Termópilas (naquela ocasião, o fundo tinha um único cotista). Foram alteradas regras de amortização e resgate de recursos. Dados divulgados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) em janeiro apontam que o patrimônio líquido do fundo despencou cerca de R$ 1 bilhão.

O fundo Termópilas é o principal acionista da Super Empreendimentos e Participações SA, uma empresa com capital acima de R$ 2,5 bilhões que teve o pastor e cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, como diretor entre 2021 e 2024. Em nota enviada à Folha em dezembro, a assessoria de imprensa de Vorcaro confirmou que o cunhado Zettel é um dos sócios da Super, mas destacou que a relação entre Vorcaro e a Super é meramente comercial.

O dia 16 de novembro também foi importante para as investigações sobre as suspeitas de venda de carteiras fraudadas do Master para o BRB (Banco de Brasília). Às 20h55 daquele domingo, o juiz da 10ª Vara Criminal do Distrito Federal autorizou busca e apreensão nos endereços dos principais suspeitos, entre eles, Vorcaro.

Pelo dia e pela hora da decisão, o indicativo, segundo especialistas em segurança, é que a operação ocorreria nos próximos dias. O magistrado, no entanto, não avaliou o pedido de prisão, entendendo que era melhor separar as análises, conforme mostra a decisão judicial.

Com a alteração da data de divulgação do negócio, a equipe de executivos e advogados envolvidos nos trâmites finais da venda do Master para a Fictor começou a chegar logo cedo à sede do Master na manhã de segunda-feira (17).

De 13h30 a 14h10, Vorcaro fez uma videochamada com representantes do BC. Segundo registro na agenda oficial da autarquia, participaram o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino Santos, bem como o chefe e o adjunto do departamento de supervisão bancária, respectivamente Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza.

O banqueiro informou sobre a assinatura do acordo para a venda do Master, disse que a documentação formalizando o negócio seria protocolada ainda naquela data e que viajaria na noite de segunda para Dubai, onde se encontraria com investidores estrangeiros.

Pessoas próximas ao banqueiro afirmam que ele já havia mencionado essa viagem ao exterior numa outra videoconferência com Aquino Santos, realizada em 11 de novembro —terça-feira da semana anterior à prisão.

O grupo ainda estava na sede do Master se preparando para dar as primeiras entrevistas que tornariam o negócio público, quando o juiz, às 15h29, autorizou as prisões dos suspeitos.

Vorcaro deixou o banco no início da noite comentando aos presentes que passaria em casa para terminar de fazer as malas e seguiria para Dubai. Foi preso pelos agentes da Operação Compliance Zero quando chegou ao aeroporto de Guarulhos, pouco antes das 23h —hora incomum para esse tipo de procedimento. Normalmente, a PF atua de manhã cedo.

O voo de Vorcaro iria para Malta, mas o seu destino final era Dubai, nos Emirados Árabes. Como a Folha revelou, Vorcaro tinha pelo menos três planos de voo diferentes. Os investigadores avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria a acusação de que o ex-banqueiro tentava fugir do país, e não apenas ir a Dubai para fechar a venda do Master.

Pessoas que acompanham o banco contaram à reportagem, com a condição de não terem o nome revelado, que o banqueiro viajava com frequência ao exterior e, se quisesse fugir, já teria saído do país. A viagem mais recente ocorreu para a mesma cidade de Dubai, entre 3 e 9 de novembro, com desembarque no Brasil no dia 10 –uma semana antes da prisão. A Folha teve acesso aos itinerários.

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