Stahl, Sebrae, sobre internacionalização: “O Brasil não precisa ter os melhores produtos. Precisa atender à demanda”

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Para Marcos Stahl, atuar no mercado externo é menos complicado do que os pequenos empresários pensam
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • Setores como cosméticos, alimentos e vestuário partem na frente e exigem ajustes pontuais para atender padrões técnicos e sanitários da UE
  • Estrutura logística paulista e mercado exigente dá vantagem às PMEs locais na corrida pelo mercado europeu
Por Letícia Cassiano

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Mesmo sem previsão de implementação integral, o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia — que reúne economias equivalentes a cerca de 20% do PIB global — já abre uma janela de oportunidades para pequenas e médias empresas (PMEs) brasileiras que pretendem acessar o mercado externo. Em entrevista à AGÊNCIA DC NEWS,  Marcos Stahl, especialista em comércio exterior do Sebrae-SP, afirmou que o momento é de antecipação estratégica, com foco em adequação de produto, entendimento da demanda europeia e estruturação logística e financeira. “Muitas dessas oportunidades surgem imediatamente, pois o mercado já fica mais aberto e otimista”, afirmou. O avanço institucional do tratado tende a reduzir tarifas e barreiras, disse ele, mas também exige adaptação a padrões técnicos, sanitários e de precificação mais complexos, além de ganhos de produtividade. “O Brasil não precisa ter os melhores produtos. Precisa atender à demanda” 

Na prática, essa preparação passa por desmistificar barreiras que historicamente afastam pequenos empresários do comércio exterior. Segundo Stahl, ainda há uma percepção equivocada de que exportar exige escala elevada, alto capital inicial e estruturas complexas de logística, quando, na realidade, existem soluções que permitem uma entrada gradual nesse mercado. “Quando se fala em exportar, logo vem na cabeça aqueles navios de carga lotados de containers. Mas existem inúmeras soluções logísticas”, afirmou. O desafio, disse, está menos no porte da empresa e mais na capacidade de compreender exigências regulatórias, ajustar a oferta ao padrão europeu e estruturar corretamente custos e preços diante de variáveis como câmbio, frete e tributação. Nesse cenário, a internacionalização deixa de ser uma etapa distante e passa a integrar a estratégia de crescimento das PMEs brasileiras.

Alguns segmentos da cadeia produtiva brasileira já partem de uma posição mais favorável nesse processo. Segundo Stahl, áreas como cosméticos, alimentos, bebidas e vestuário têm maior potencial de adaptação ao mercado europeu, seja pela similaridade regulatória, seja por atributos de diferenciação. “As regras sanitárias europeias são tão rigorosas quanto as do Brasil, e às vezes uma mudança no rótulo já resolve”, afirmou. No caso de alimentos, a variedade de insumos tropicais e produtos que não são cultivados na Europa amplia o espaço para inserção, enquanto nichos como moda praia e cosméticos combinam qualidade percebida e competitividade de preço. “A primeira coisa necessária nesse cenário é a compreensão de que todos podem internacionalizar.” Confira a entrevista. 

AGÊNCIA DC NEWS – Como você resumiria, em termos práticos, o impacto do acordo Mercosul-UE para uma PME brasileira hoje?
MARCOS STAHL – As regras não foram todas definidas ainda, porque cada país de ambos os blocos precisam se organizar internamente. Só devemos ver o acordo totalmente concluído em 2028. Mas muitas dessas oportunidades surgem imediatamente, pois o mercado já fica mais aberto e otimista. Então, se o seu produto já está adequado, se o pequeno empresário já está preparado, muito provavelmente ele já pode começar imediatamente. O que, quando falamos de comércio exterior, nunca é de fato imediatamente.

AGÊNCIA DC NEWS – E o que é necessário para as PMEs se prepararem?
MARCOS STAHL – Diria que a primeira coisa necessária nesse cenário é a compreensão de que todos podem internacionalizar. Desmistificar certas barreiras e investir em conhecimento para, então, se adequar. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais barreiras não-tarifárias são essas?
MARCOS STAHL – São dois mitos principais e algumas problemáticas. O primeiro é o medo dos pequenos empresários de não conseguir atender o mercado europeu por falta de produtividade e qualidade. O segundo é o receio de não ter dinheiro suficiente para exportar, de receber um pedido grande e não ter como pagar o frete, por exemplo. Também existe o perigo de não saber precificar frente os gastos e o câmbio da exportação. O bônus é o medo de outro idioma.

AGÊNCIA DC NEWS – Por que essas preocupações são mitos?
MARCOS STAHL – Vou começar pela qualidade. O Brasil não precisa ter os melhores produtos do mundo, só precisa atender à demanda. Por exemplo, não se vende uma Ferrari pelo preço de um Kwid, mas há pessoas que só precisam de um Kwid e só recebem oferta de Ferrari. Uma das coisas mais importantes é o pequeno empresário entender o que falta no mercado europeu que ele pode oferecer. E a Europa está muito interessada no mercado brasileiro. A PME deve saber utilizar a exportação como ferramenta até de marketing. Saber especificar produtos para atender o mercado Europeu e que podem gerar competitividade no mercado nacional. 

AGÊNCIA DC NEWS – E sobre a barreira financeira?
MARCOS STAHL – Quando se fala em exportar, logo vem na cabeça aqueles navios de carga lotados de containers. Mas existem inúmeras soluções logísticas quando falamos de exportação. Pequenas empresas trabalham com coisas menores, com realidades menores, então podem se unir para pagar um contêiner com esses produtos, por exemplo. Outro aspecto que muitos não levam em consideração são os investimentos estrangeiros que as PMEs recebem para atender a nova demanda. 

AGÊNCIA DC NEWS – Quais segmentos do varejo você vê como mais preparados para aproveitar o mercado europeu? O varejo está pronto?
MARCOS STAHL – Eu diria que boa parte do varejo está sim. Principalmente o segmento de cosméticos, alimentos, bebidas e vestuário. Pegando a indústria de cosméticos, por exemplo, as regras sanitárias europeias são tão rigorosas quanto as do Brasil, e às vezes uma mudança no rótulo já resolve. A questão alimentar, nós produzimos produtos com frutas que na Europa é impossível cultivar. Nossa moda praia também é tendência no exterior. Tudo isso pode ser explorado. 

AGÊNCIA DC NEWS – Você acredita que as PMEs conseguem competir além das commodities com produtos de maior valor agregado?
MARCOS STAHL – Perfeitamente, e o mercado cosmético entra neste balaio. Os esmaltes brasileiros, por exemplo, são de uma qualidade muito superior aos produtos vendidos lá fora, sem contar o preço que é muito competitivo. 

AGÊNCIA DC NEWS – No cenário de importação, como as PMEs do varejo podem se beneficiar das tarifas menores para insumos europeus, como maquinário?
MARCOS STAHL – A tecnologia europeia vai ajudar muito as PMEs brasileiras. Se uma empresa precisa de uma máquina que já existe no Brasil, ela é muito cara porque, em geral, é importada. Então essas empresas não conseguem melhorar a qualidade dos produtos porque não possuem o equipamento necessário. Mas existe o ex-tarifário, que reduz os impostos de importação quando não há maquinário similar no Brasil. Se ela conseguir importar equipamentos e tecnologias a um custo inferior, terá condições de melhorar ainda mais a qualidade e a produtividade dos produtos aqui. 

AGÊNCIA DC NEWS – E isso também contribui para a competitividade interna.
MARCOS STAHL – Exato. A importação permite importar produtos em partes e peças, componentes de máquinas, a um custo mais barato, e isso reduz o preço aqui no Brasil também. O que é produzido fora e fica encarecido pelos impostos de importação do produto final, fica viável de ser produzido nacionalmente. Isso aumenta a lucratividade de quem monta e barateia toda a cadeia até o preço do produto final para o consumidor. 

AGÊNCIA DC NEWS – Que políticas públicas ou instrumentos de apoio você vê como essenciais para gerar essas oportunidades de internacionalização?
MARCOS STAHL – As políticas públicas mais importantes são as voltadas para incentivos, ferramentas, qualificação e suporte. Já existe o Programa de Financiamento às Exportações (PROEX) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Esta última não é especificamente estatal, mas é vinculada ao governo federal. Fora o próprio Sistema S, programas de incentivo do Banco do Brasil, do InvestSP e outros do gênero.

AGÊNCIA DC NEWS – Até que ponto o Sebrae já está orientando as PMEs sobre esse acordo? Existem programas específicos?
MARCOS STAHL – Os programas de internacionalização do Sebrae não são de hoje, e sempre orientamos nossos alunos acompanhando tudo o que acontece. Nosso programa mais relevante de internacionalização é o PEIEX, que é uma parceria do Sebrae com a ApexBrasil. Realizamos missões internacionais para os empresários conhecerem outros mercados, facilitamos o acesso a rodadas de negócios e feiras. Além de todas as aulas e outros eventos. 

AGÊNCIA DC NEWS – Na sua leitura, quais características das PMEs paulistas podem acelerar a internacionalização em comparação com outras regiões? Considerando que as cotas iniciais são mais relacionadas à commodities?
MARCOS STAHL – Diferente de outras regiões do país, São Paulo tem muita estrutura. Temos o maior aeroporto internacional do país, aeroportos regionais, como Viracopos, que conectam o resto do estado, temos o maior porto de Santos, que é o maior do Brasil, e uma malha rodoviária extensa. Então a logística é muito mais facilitada e gera oportunidades. Além disso, as PMEs paulistas já estão no maior mercado da América Latina, que é naturalmente mais exigente. 

AGÊNCIA DC NEWS – Esse acordo pode favorecer uma reindustrialização no Brasil ?
MARCOS STAHL – Na minha análise pode sim. Nossa indústria vai ganhar qualidade e investimento. E o governo percebendo que mais empresas estão exportando, deve investir também em estrutura e no comércio exterior até com os países da América Latina. 

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