SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Encarando a maior força deslocada para o Oriente Médio desde a Guerra do Iraque de 2003, o Irã aposta suas fichas dissuasórias contra os Estados Unidos num dos mais famosos gargalos marítimos do mundo, o estreito de Hormuz.
Ligando o golfo Pérsico ao oceano Índico, o estreito tem meros 40 km de largura no trecho em que o Irã está mais próximo da península Arábica. Há ao menos 16 instalações militares do país persa na sua margem e nas ilhas que controla na área, sendo Qeshm a principal.
Com o cerco militar promovido por Donald Trump para forçar a teocracia a abandonar seu programa nuclear, Teerã voltou a propagandear o estrago que pode fazer por lá, rota de 20% da produção mundial de petróleo e gás 90% da exportação da gigante Arábia Saudita é transportada pelo estreito.
O fez em alto estilo, com um exercício militar durante esta semana que incluiu disparos de mísseis de algumas de suas 131 lanchas rápidas e embarcações assemelhadas e o início de uma manobra com navios russos que deverá ser integrada por belonaves chinesas nos próximos dias.
Apesar de ser um exercício anual, o Cinturão de Segurança Marítima-2026 colocar navios de potências nucleares no caminho de qualquer ataque americano: a base das operações é Bandar Abbas, onde fica o quartel-general principal da poderosa Guarda Revolucionária no estreito.
Por evidente, é algo limitado, já que a manobra irá acabar e Trump sinalizou um prazo de duas semanas para decidir o que vai fazer.
Com os treinos desta semana, a Guarda evidenciou o papel de seu principal armamento naval, a corveta furtiva ao radar Shahid Suleimani, ou Mártir Suleimani, em homenagem a seu ex-comandante Qassim Suleimani, morto por Trump num ataque com drones no Iraque em 2020.
São recursos assimétricos, claro, contra dois grupos de porta-aviões e mais de dez navios de guerra, fora a enorme frota de aviões de ataque, controle de espaço aéreo, reabastecimento e de transporte mobilizados pelos EUA com notável aceleração nesta semana.
Contra a ideia de fechar o estreito e causar caos no mercado mundial de petróleo há o fato de que isso prejudicaria a teocracia também. Sob sanções, o Irã exporta mais de 80% de seu petróleo para a China, que tem no país seu terceiro maior fornecedor, ou 13,4% do total comprado em 2025.
E 90% desse produto sai do terminal na ilha de Kargh, no golfo, tendo de passar pelo mesmo Hormuz. Ou seja, transformar o local numa zona de guerra e ativar drones submarinos e minas marítimas parece um cenário de último recurso.
O problema para os iranianos é que talvez seja o que lhes restará no caso de haver um ataque com intenção de destruir o regime, já que suas defesas aéreas se mostraram pífias no ano passado, quando Israel dominou os céus de Tel Aviv até Teerã com pouca oposição.
Não se sabe, claro a natureza do ataque americano. Nesta sexta-feira (20), Trump disse considerar a hipótese de uma ação militar limitada como uma forma de pressionar ainda mais a teocracia, sem dar detalhes.
Seu volumoso contingente militar, 610 mil homens, 190 mil deles da Guarda, de nada servem no conflito que se desenha: nada sugere que os americanos irão invadir o país por terra, como fizeram com o Iraque com consequência funestas no longo prazo.
A temida retaliação com o grande estoque de mísseis balísticos do regime, contados por Israel em 2.000 antes da guerra de 12 dias em junho, também foi relativamente ineficaz. Houve pânico no Estado judeu, 30 mortos e 3.000 feridos, mas 90% dos 600 projeteis lançados foram interceptados.
A conta agora do governo de Binyamin Netanyahu é acerca do quanto o país poderá absorver de eventuais perdas, já que é incerto que o Irã tenha reposto os mísseis usados, assim como não se sabe se Israel também refez seu estoque antiaéreo. É dado como certo que, se Trump atacar, o Estado judeu o seguirá.
Mais vulneráveis, em tese, são as instalações americanas no Oriente Médio, oito bases principais entre quase 20 pontos de presença. Mesmo essas não foram objeto de nada além de uma retaliação simbólica após os EUA atacarem instalações nucleares iranianas.
As unidades centrais receberam proteção de baterias de alta e média altitude, restando o teste prático sob um ataque em saturação, com dezenas de mísseis caindo em sequência.
O Irã tem uma quantidade significativa de mísseis antinavio, muitos deles posicionados na região de Hormuz. Teoricamente, a combinação de um grande ataque com drones Shahed-136, usado em sua versão russa diariamente na Ucrânia, com tais armas pode ameaçar as embarcações americanas.
Mas para danificar ou afundar um porta-aviões, o que seria a joia coroa de uma operação militar dessas, é preciso passar pela proteção de sistemas antimísseis Aegis dos destróieres que acompanham esses gigantes, os caças voando em torno dele e, ao fim, as defesas do próprio navio.
Os houthis do Iêmen, aliados do Irã, tentaram fazer isso no mar Vermelho durante meses em 2024 e 2025, sem sucesso, apesar do alto custo em mísseis antiaéreos para os americanos.
Outro ponto de fragilidade para Teerã é justamente o enfraquecimento de sua rede de prepostos regionais, que nos últimos 20 anos eram vistos como a primeira linha de defesa.
Os houthis ainda estão em boa forma relativa, mas os grupos terroristas palestinos e a milícia libanesa Hezbollah foram fortemente degradados na guerra que sucedeu o atentado do Hamas de 7 de outubro de 2023.
Isso não significa que não haverá apoio desses grupos a Teerã em uma eventual guerra, com ataques retaliatórios contra embarcações americanas e alvos no território israelense. Mas eles já não assustam tanto os planejadores militares.