Grupo português Mota-Engil negocia com governo ferrovia, porto e mina na Bahia rejeitados pela Vale

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A empresa portuguesa Mota-Engil, gigante de infraestrutura que venceu o leilão do túnel Santos-Guarujá, está em reta final em um acordo bilionário com o governo federal para assumir, em um só pacote, a concessão de mais 500 quilômetros da Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), em construção na Bahia, do Porto Sul, previsto para ser erguido em Ilhéus (BA), e de uma mina de minério de ferro em Caetité (BA).

Conforme informações obtidas pela Folha, a negociação foi tema de uma reunião realizada no fim de janeiro entre executivos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto. O governo tem interesse que o negócio seja viabilizado, especialmente o ministro da Casa Civil, Rui Costa, que é da Bahia.

O encontro ocorreu fora da agenda no dia 26 de janeiro e teve participação de Costa, do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e do ministro dos Transportes, Renan Filho.

A reunião contou, ainda, com a participação do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), e do vice-presidente do conselho de administração do Grupo Mota-Engil, Manuel António da Mota.

Após o encontro no Palácio do Planalto, a negociação foi formalizada pela Mota-Engil com o Ministério dos Transportes e, agora, está em estágio avançado de “due diligence”, etapa em que a empresa analisa em detalhes a situação financeira, jurídica e operacional de cada projeto, antes de fechar negócio. Por isso, a transação envolve cláusulas de sigilo.

Neste estágio é feito um balanço sobre os investimentos já realizados, os passivos que precisam ser quitados e a necessidade de prorrogação de prazos das concessões atuais.

Não há uma cifra fechada, mas estimativas apontam que o negócio pode girar em torno de R$ 15 bilhões em investimentos. A expectativa é de que o negócio seja concluído nas próximas semanas.

Por trás da Mota-Engil está a CCCC (China Communications Construction Company), estatal chinesa que é dona de 32,4% da companhia portuguesa e deve se encarregar do financiamento.

O plano dos portugueses é assumir 100% das três concessões, sem a entrada de outros sócios. A participação do BNDES é aventada como uma possibilidade, mas apenas como eventual financiador de parte do negócio, e não como sócio por meio da BNDESPar.

Se confirmada a operação, a companhia luso-chinesa assumirá um trecho ferroviário desenhado para ser o principal corredor de escoamento de produção de minério e grãos do país, previsto para interligar o polo do agronegócio do Mato Grosso ao litoral baiano, cortando o país de um lado a outro, em mais de 2 mil km de trilhos.

Do lado do governo, a venda casada dos três projetos destrava um conjunto de obras paradas há anos por falta de recursos. Hoje, essas concessões estão nas mãos da Bamin, uma mineradora controlada pelo grupo Eurasian Resources Group (ERG), empresa do Cazaquistão que quebrou e deixou tudo parado, sem previsão de retomada.

Procurada pela Folha, a Mota-Engil não se manifestou sobre o assunto. A Casa Civil e o Ministério dos Transportes também não comentaram.

Em 2024 e 2025, a compra do projeto Bamin chegou a ser avaliada pela mineradora Vale, que ficou sob forte pressão do governo federal. Após meses de negociações, a operação não foi adiante porque a Vale não demonstrou interesse no minério da região e preferiu aportar recursos em Carajás, no Pará.

Agora, segundo uma fonte que acompanha o tema, a chance de a empresa portuguesa Mota-Engil fechar o negócio é de “praticamente 100%”.

A Fiol 1, como é chamado o trecho de 537 quilômetros entre Caetité e Ilhéus, está com cerca de 75% de obras executadas, mas completamente paralisada. A ferrovia é crucial porque é ela que levará o minério da mina de Pedra de Ferro, de Caetité, até o litoral.

No fim da ferrovia está o Porto Sul, planejado para ser o ponto de exportação. O terminal privado da Bamin tem investimento estimado em mais de R$ 8,3 bilhões, em valores atualizados. Até o fim do ano passado, cerca de R$ 723 milhões chegaram a ser colocados no projeto, mas ele não saiu do papel.

Pelo cronograma do governo, o porto deveria começar a operar até 2028, mas o projeto está atrasado em pelo menos 20 meses. Apesar do atraso, o empreendimento não tem hoje entraves ambientais ou fundiários, com todas as licenças emitidas e a área regularizada. É esse tipo de ajuste que as negociações em andamento terão de incluir.

O complexo portuário inclui um segundo terminal portuário, do governo da Bahia, com investimento estimado em cerca de R$ 4,3 bilhões, que ainda não deu início às obras e deve apresentar um novo cronograma.

Ao destravar a Fiol 1, o governo amplia o interesse de empresas pelo leilão da Fico-Fiol, um segundo trecho que pretende interligar Caetité, Barreiras e Correntina, dentro da Bahia, até Mara Rosa, em Goiás, e alcançar Água Boa, no Mato Grosso.

São mais 1.650 km de ferrovias que, com os 530 km da Fiol 1, formam o eixo ferroviário de 2.180 quilômetros projetado para criar uma nova rota logística de exportação para grãos e outras commodities do Centro-Oeste.

A própria Mota-Engil, sendo dona da Fiol 1, se cacifa para ser uma das principais interessadas em disputar o leilão destes outros trechos.

O plano do governo federal prevê que o edital da Fico-Fiol seja publicado em maio, com realização do leilão na B3 em agosto. O custo total da obra, que é a maior da carteira de leilões de ferrovias do governo federal, é de R$ 41,8 bilhões.

Em setembro do ano passado, a Mota-Engil, companhia fundada em 1946 em Portugal, venceu o leilão do túnel Santos-Guarujá, que prevê investimentos de R$ 6,7 bilhões.

O grupo também passou a ter participação nas obras da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, com 33% de um consórcio dono de um contrato de R$ 3,7 bilhões. A companhia também adquiriu 100% da ECB (Empresa Construtora Brasil), construtora que tem sede em Belo Horizonte (MG).

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