Se você pulou ou não as sete ondas à meia noite do dia 31 de dezembro, assistiu uma queima de fogos esplendorosa, forte e barulhenta, uma mais politicamente correta feita por drones para não deixar os cães doidos, outra mais ou menos, foi para a Avenida Paulista, estava no baile de réveillon que ainda não tinha pegado fogo em algum clube ou preferiu ficar tranquilamente em casa, acompanhado ou sozinho, oficialmente o ano de 2026 começou para você.
Se conseguiu tirar férias junto com as crianças, se adora as férias coletivas ou as odeia, se teve que ficar trabalhando enquanto todo mundo se divertia, se nem conseguiu pensar no preço e na confusão das estradas e aeroportos ou até se conseguiu fugir de tudo isso no seu aviãozinho particular, o ano de 2026 começou para você.
Por que então no Brasil existe a mania de dizer que o ano só começa depois do Carnaval? E pior, ele já passou, agora não tem mais desculpas, ainda que esse seja um ano de Copa do Mundo e Eleições. Se você conhece aquela música Quando o Carnaval Chegar, do Chico Buarque deixo minha sugestão para ouvir, talvez numa versão diferente. Há uma linda com a Nara Leão, de quem sou fã e descobri um presente nesse início de ano. Foi lançado um novo álbum com gravações inéditas delas que estavam perdidas em fitas na casa ou escritório do produtor, há cinco décadas: Bossa rara de Nara. Ah, o tempo, o que é o tempo? Como diz a letra da música: “Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, Tou me guardando para quando o carnaval chegar”.
A introdução foi tão longa que já nem posso dizer que era desculpa para questionar o tempo lógico de Jacques Lacan e as possíveis implicações dele com o dia a dia do empreendedorismo. Mas era, só que me deixei levar por uma música que adoro, e um período do ano onde as pessoas costumam se soltar.
São Paulo já foi um ponto de fuga durante o carnaval, nos últimos anos virou point, recebe milhões de turistas, antes, durante e depois da semana de festas, numa extensão que não acaba mais na Quarta-Feira de Cinzas. Como o seu negócio pode se beneficiar disso? Como sua equipe ou você podem compensar o início de ano mais tranquilo? Quando eu tinha editora, não se lançava novos livros em janeiro, não se fazia eventos. Mas tudo muda.
No meu mergulho em Lacan não encontrei nenhuma referência a essa questão de no Brasil o ano somente começar depois dessa festa. O que será que ele diria? Uma importante reflexão do psicanalista francês é diferenciar o tempo cronológico do lógico. Todos trabalhamos seguindo o calendário e o relógio, mas internamente, por mais que pressionemos, somos reféns da subjetivação. De fato, somente agimos quando uma conclusão se impõe logicamente, quando somos empurrados a um ato. Tenhamos ou não todas as informações ou todo o entendimento.
Se esse tempo lógico fosse medido por um relógio, hoje tudo é possível ou a tecnologia faz parecer assim, como o painel representaria suas três partes? “O instante de ver”, quando algo aparece, chama nossa atenção, algo não bate ou não fecha, você sabe que ali tem algo, mas não sabe o que fazer. O tempo seguinte é “O tempo para compreender”, é quando duvidamos, queremos saber mais, comparamos, imaginamos, hesitamos, racionalizamos, nos preparamos mentalmente, tem muita gente que fica capturado nessa fase, tomar decisão nunca foi fácil, daí a enorme necessidade de algumas pessoas de simplesmente de receber o que fazer, sem ter que assumir responsabilidades, querendo fugir da angústia. E isso pode representar reuniões e projetos intermináveis, paralisias, frustrações.
E “O momento de concluir” que é quando aparece a verdade da pessoa, uma verdade subjetiva suficiente para agir, nem que tudo esteja esclarecido, mas quando o sujeito se sente implicado, e esse momento é decisivo, quando se deixa de se guardar para o carnaval e se parte para a ação. É o tempo do sujeito, o tempo das nossas relações.
O texto onde ele apresentou esses conceitos é dos pós-guerra, de 1945 e se chamava: “O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada”. Lá está dito, nem tudo é claro nos textos de Lacan, que as certezas não são certezas, que nem tudo é científico e total, mas aparece algo suficiente para o sujeito agir.
E mesmo assim é preciso viver, é preciso se relacionar com os outros, ora em posição de liderança, ora na de liderado, o desafio não é pequeno, mas é preciso viver, como começa a letra do Chico: “Quem me vê sempre parado, distante, Garante que eu não sei sambar, Tou me guardando para quando o carnaval chegar”. Talvez você não se sinta à vontade para ser um mestre-sala ou uma porta-bandeiras, mas uns passinhos serão necessários, mesmo que desengonçados, pode ser divertido, quem dança, seus males espanta. O carnaval de 2027, no tempo cronológico só acontecerá em 9 de fevereiro. Melhor você se implicar. Que tal mergulhar ao som de um samba e se conhecer melhor? Que tal virar sujeito de suas decisões? Por que essa parte da letra não deve ser sobre você: “E quem me vê apanhando da vida, Duvida que eu vá revidar, Tou me guardando para quando o carnaval chegar”. Siga o exemplo de São Paulo: não existe carnaval fora de época!
MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica.