SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar reverteu os ganhos desta terça-feira (24) e passou a operar em queda, com investidores analisando a nova política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A cobrança de sobretaxas de importação de 10% a todos os parceiros comerciais do país entrou em vigor à meia-noite (horário de Washington). A alíquota é diferente dos 15% anunciados por Trump, segundo aviso emitido pela CBP (Alfândega e Proteção de Fronteiras, na sigla em inglês).
Às 14h53, a moeda norte-americana recuava 0,33%, cotada a R$ 5,150, depois de ter marcado R$ 5,184 no pico da sessão. Já a Bolsa subia 1,34%, a 191.400 pontos, testando um novo recorde histórico.
Segundo consta no aviso da CBP, todos os produtos não cobertos por isenções “estarão sujeitos a uma taxa ad valorem adicional de 10%”. Essa é a taxa inicialmente anunciada por Trump na última sexta-feira, e não os 15% prometidos no sábado.
A imposição de uma taxa mais baixa do que a anunciada gerou confusão entre os agentes econômicos, e nenhuma explicação foi fornecida pelas autoridades americanas.
Citando um funcionário da Casa Branca não identificado, o jornal Financial Times afirma que o aumento para 15% ocorrerá posteriormente.
“Lembre-se de que Trump fará o discurso sobre o Estado da União nesta noite, então é possível que tenhamos uma noção melhor dos próximos passos sobre tarifas”, disse o Deutsche Bank em uma nota.
A nova ofensiva comercial é uma reação à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que considerou as tarifas anunciadas no “Dia da Libertação” ilegais. O tarifaço anterior tinha como base jurídica a IEEPA Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, que permitia a aplicação de sobretaxas de importação a todos os países sem aprovação do Congresso.
Os juízes discordaram que a lei, criada em 1977 para situações de emergência, de fato concedia ao presidente esse poder. O placar da decisão foi de 6 votos a 3.
A nova carga tarifária se ampara, dessa vez, em um dispositivo de 1974. A seção 122 dá a Trump poder para impor temporariamente taxas de até 15% sobre importações quando houver déficits significativos na balança de pagamentos.
Nesse caso, a taxação expira em 150 dias, a menos que o Congresso aprove uma extensão. O governo trabalhará na emissão de tarifas “legalmente admissíveis” no paralelo, afirmou Trump.
A cobrança coloca em dúvida os acordos negociados recentemente pelos EUA com parceiros comerciais. Na segunda, Trump advertiu países contra algum recuo nos entendimentos, dizendo que, se o fizerem, ele adotará tarifas muito mais altas sob diferentes leis comerciais.
O Japão disse nesta terça que solicitou aos Estados Unidos que garantam que seu tratamento sob um novo regime tarifário seja tão favorável quanto no acordo existente. Tanto a União Europeia quanto o Reino Unido indicaram que desejam manter os acordos já firmados.
Carsten Brzeski, chefe global de macroeconomia do ING, observou que, mesmo com o limite de 150 dias do atual conjunto de medidas, a incerteza comercial provavelmente não desaparecerá tão cedo.
“Porque teoricamente a próxima coisa que Trump poderia fazer é, com a interrupção de um dia, sempre renovar indefinidamente por mais 150 dias”, disse ele.
A China, por sua vez, instou Washington a abandonar suas “tarifas unilaterais”, sinalizando que está disposta a realizar outra rodada de negociações.
Em meio às dúvidas sobre o cenário, o dólar ganha terreno ante o iene, o euro e a libra. O índice DXY, que o compara a uma cesta de seis moedas fortes, avança 0,1%, a 97,87 pontos. Já para divisas emergentes, o cenário é outro.
“Diante da diminuição da alíquota, temos visto valorizações de moedas e de ações de mercados emergentes. É um cenário de apetite por risco que tende a favorecer, principalmente, economias com juros mais altos e retornos atrativos, como o Brasil”, diz Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX.
No Brasil, o dólar fechou no menor patamar em quase dois anos na véspera, a R$ 5,167, e caminha nesta terça para renovar a mínima. Há a leitura de que as novas tarifas podem ser benéficas ao país, já que são significativamente menores do que a carga que antes incidia sobre alguns produtos brasileiros.
Essa visão aumenta a atratividade do mercado nacional, já beneficiado pelo fluxo de investidores estrangeiros para praças emergentes.
“Sob a ótica técnica, a cotação ainda rompeu o suporte em R$ 5,20, faixa que concentrava posições compradas relevantes. A perda desse nível desencadeou ajustes de portfólio e amplificou o movimento de apreciação do real, com redução tática de exposição à moeda americana”, diz Jaqueline Neo, especialista de câmbio e crédito da be.smart.
Já o Ibovespa se recupera da véspera, cujo pregão foi de realização de lucros após o índice registrar uma nova marca histórica na sexta-feira.
“As tensões envolvendo as negociações entre Estados Unidos e Irã voltaram a puxar o petróleo para cima e Petrobras está acompanhando o ritmo, empurrando o Ibovespa. O setor bancário avança após um pregão de realizações na segunda, e há ainda o fluxo de estrangeiros para o mercado brasileiro, o que colabora para que o dólar siga se desvalorizando”, diz Rodrigo Moliterno, chefe de renda variável da Veedha Investimentos.
Praças europeias fecharam em estabilidade, como o DAX e o STOXX 600, e Wall Street testa recuperação, com os índices embalados por ações de tecnologia. A Anthropic anunciou dez novas ferramentas de inteligência artificial, impulsionando o setor.