Rotatividade de mão de obra e falta de qualificação desafiam empresas na hora de contratar

Uma image de notas de 20 reais
Na indústria, mais de 20% das empresas reclamam de escassez de mão de obra qualificada
(Eduardo Knapp/Folhapress)
  • Empregadores têm procura, mas nem sempre conseguem candidatos com o perfil desejado. Na construção, 41,6% reclamam de "escassez" de pessoal
  • Segundo o Sindilojas SP, o chamado turnover superou 60% no ano passado, nível recorde. Em alguns segmentos, taxa supera 90%
Por Vitor Nuzzi

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Um mês atrás, a BRN Construtora anunciou a abertura de aproximadamente 100 vagas, em nove cidades do interior paulista, entre os 47 municípios onde atua. Desde então, pelo menos 40% das vagas “já foram preenchidas ou estão em processo final de preenchimento”, segundo o diretor jurídico e institucional da incorporadora, Evandro Nobre Cruz. Ele conta que a empresa costuma contratar “em ritmo adequado, com prazo médio entre 30 e 60 dias, dependendo do nível de complexidade e do perfil da vaga”. Mesmo assim, a BRN tem dificuldade em atrair mão de obra considerada adequada, “principalmente pela baixa disponibilidade e profissionais dispostos a atuar em obras”. Desafio adicional para recrutar e sustentar a operação das equipes. “Observamos maior gargalo na contratação para cargos estratégicos”, disse o diretor, citando posições “de liderança” como as de engenheiros, gerentes e coordenadores”.

Em menor ou maior grau, empresas de setores diversos acusam dificuldade em preencher vagas. Nem sempre é por falta de procura. “Mantemos um banco consistente de currículos por meio da plataforma Gupy, o que normalmente resulta em boa disponibilidade de candidatos”, disse Cruz, da BRN. “No entanto, a qualificação e aderência aos requisitos específicos das vagas podem impactar a efetiva ocupação das posições.” Na construção civil, especificamente, pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), retrata essa dificuldade: em fevereiro, 41,6% dos empresários ouvidos pela instituição apontaram a escassez de mão de obra qualificada como “fator limitativo” para a melhoria dos negócios. Foi o maior percentual para fevereiro desde 2011. E é o item mais citado na pesquisa desde maio de 2024.

A falta de mão de obra qualificada é um desafio também para o setor industrial, segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Principalmente depois da pandemia. De 2015 (início da série da Sondagem Industrial) a 2020, esse item tinha 5% das menções. Desde então, cresceu de fora quase ininterrupta e atingiu 23,3% no segundo trimestre do ano passado, percentual recorde. Entre os principais problemas citados pelos empresários, fica em quarto lugar – atrás de carga tributária, juros e demanda interna. Sobe para segundo no ranking das pequenas empresas, com 28,4% de citações. “Sem trabalhador qualificado, as empresas têm dificuldade para aumentar a produtividade” afirmou o diretor de Economia da CNI, Mario Sergio Telles. “Isso afeta tanto a busca pela eficiência quanto a redução de desperdícios.” Na hora de capacitar os trabalhadores, surge outro problema, segundo ele: “As lacunas na formação educacional, que dificultam o aprendizado e desestimulam os trabalhadores”.

EDUCAÇÃO – A entidade cita a “baixa qualidade da educação básica”. Lacunas que “dificultam o aprendizado e desestimulam os trabalhadores a buscar qualificação”. Além disso, transformações tecnológicas e organizacionais exigem requalificação contínua, segundo a CNI. O Mapa do Trabalho Industrial da confederação identifica a necessidade de qualificação de 14 milhões de trabalhadores, tanto para formação inicial (2,3 milhões) como para treinamento e desenvolvimento (11,8 milhões) – sendo 4,3 milhões em São Paulo. “O principal objetivo das capacitações é alinhar as competências dos profissionais recém-contratados às demandas das empresas.”

A BYD Auto do Brasil anunciou na última quinta-feira (12) que a contratação de mais 3 mil trabalhadores para a fábrica de Camaçari (BA), quase dobrando o número de funcionários – o complexo tem 3,2 mil, além de 3,5 mil terceirizados em obras no local, inaugurado em outubro de 2025. Segundo a vice-presidente executiva da BYD e CEO para as Américas e Europa, Stella Li, a medida mostra compromisso com o desenvolvimento econômico, “com a geração de empregos qualificados e com a aceleração da mobilidade elétrica em toda a região”. A empresa opera na unidade onde funcionava uma fábrica da Ford, que encerrou atividades no Brasil em 2021.

O Sindicato do Comércio Varejista de São Paulo (Sindilojas SP) destaca a taxa de rotatividade no setor, na capital, que em 2025 atingiu seu maior nível – 60,3%, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), na série mais recente (a partir de 2020) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Segundo a entidade, o dado “revela um ritmo particularmente intenso de admissões e desligamentos”, o que aponta renovação de mais da metade dos vínculos formais durante o ano. “O resultado representa elevação expressiva frente a 2020, sendo quase 60% superior ao nível observado no início da série.”

Levantamento do Sindilojas SP mostra que esse movimento não é homogêneo entre as atividades. O varejo de artigos usados e as lojas de conveniência, por exemplo, têm rotatividade acima de 90%. No comércio de bebidas, fica em torno de 85%. Nas lojas de variedade e de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal, a taxa fica próxima de 80%. Segundo o sindicato, foram analisados 75 subsetores, que somam 611 mil postos de trabalho. Atividades mais intensivas em mão de obra também têm taxa altas de rotatividade. Casos de minimercados, mercearias e armazéns (77,8%) e vestuário&acessórios (71,8%). Os dois segmentos concentram quase 100 mil vagas formais, “o que amplia os impactos operacionais e econômicos associados ao elevado turnover”.

MOBILIDADE – Para o Sindilojas SP, períodos de maior ofertas de vagas tendem a estimular essa mobilidade. Assim, trabalhadores se sentem mais seguros para procurar oportunidades que ofereçam melhores salários, benefícios e condições de jornada, ampliando o número de desligamentos voluntários. “Esse comportamento é particularmente visível em setores intensivos em mão de obra, como o comércio varejista”, disse a entidade, que aponta ainda fatores estruturais do setor: grande volume de funções operacionais, forte presença de trabalhadores em início de carreira, sazonalidade das vendas e maior incidência de jornadas flexíveis. Mesmo assim, o dado de 2025 é considerado alto.

“O varejo é um dos maiores empregadores urbanos e naturalmente apresenta maior dinamismo na movimentação de mão de obra”, afirmou o presidente do Sindilojas SP, Aldo Nuñez Macri. “Entretanto, quando a rotatividade atinge patamares excessivos, os efeitos deixam de ser apenas estatísticos e passam a gerar impactos concretos sobre custos, produtividade e qualidade do serviço prestado ao consumidor.” Certo grau de rotatividade é “compatível com mercados de trabalho dinâmicos”, mas a entidade acrescenta que “níveis persistentemente elevados tendem a gerar ineficiências, ampliar incertezas e reduzir a competitividade do setor”.

O problema atinge também o setor de transporte rodoviário de cargas, segundo pesquisa da NTC&Logística: 88% das empresas consultadas apontaram dificuldade na contratação de motoristas em 2025. Isso resultou em oito caminhões parados por empresa, em média. Esse é o segundo maior gargalo citado no levantamento, com 28,1% das citações, atrás do item piora do mercado interno (40,7%). Em 24 meses, de acordo com a pesquisa, o custo com mão de obra subiu 13,42%. Em 12 meses, até janeiro deste ano, 7%. Segundo a NTC&Logística, motoristas representam 19,5% do custo operacional do setor.

VAGAS – Também no início de fevereiro, a rede Supermercados Guanabara abriu 270 vagas no Rio de Janeiro – na capital, Baixada Fluminense, Niterói e São Gonçalo. Parte dessas vagas não exigia experiência. A empresa pede ensino fundamental e, em alguns casos, ensino médio. São vagas para operador de caixa, operador de câmara fria, repositor, fiscal de salão, estoquista, pedreiro, eletricista, bombeiro hidráulico e mecânico de refrigeração, incluindo portadores de deficiência. A empresa não retornou o pedido de entrevista e não divulgou balanço sobre a procura e preenchimento das vagas.

Outra empresa que abriu vagas recentemente foi a Burger King: 300, todas no município de São Paulo. Todas para o cargo de atendente, para candidatos com idade mínima de 18 anos e com ensino médio (completo ou em curso), sem exigência de experiência prévia. A rede de fast food promoveu mutirão de recrutamento no Shopping Metrô Tatuapé, na Zona Leste. E ofereceu uma cesta básica – no primeiro dia de trabalho – a todos os aprovados.

Procurada, a assessoria da Burger King disse que não poderia divulgar dados sobre o mutirão, mas afirmou que essa estratégia será mantida. E marcou outro mutirão, realizado na última quinta-feira (12): 100 vagas de atendente de restaurante também na Zona Leste de São Paulo – o processo foi realizado na unidade da avenida Marechal Tito. É o que a rede chama de “admissão expressa”, com exame admissional e entrega de documentos no próprio local.

No campo dos biocombustíveis, a Atvos prorrogou até o próximo domingo (15) o prazo de inscrição para mais de 700 vagas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, para a safra 2026/2027. São postos de trabalho para oito unidades agroindustriais em São Paulo, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul: motorista, auxiliar agrícola, operador de máquina agrícola e mecânico. “As oportunidades contemplam diferentes perfis e níveis de experiência, com prioridade para a contratação de profissionais das próprias regiões”, disse a empresa. É preciso ter 18 anos ou mais e ensino fundamental completo. Com 11 mil funcionários, a Atvos opera em 23 municípios.

Na cidade de São Paulo, a prefeitura, por meio do Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo (Cate), anunciou mais de 2,2 mil vagas. Entre os setores, estão comércio, serviços, construção civil e saúde. Os salários vão de R$ 700 (estágio de auxiliar administrativo) a R$ 4,6 mil. É preciso se cadastrar no portal até quarta-feira (11) ou comparecer a uma das unidades, levando RG, CPF e carteira de trabalho (física ou digital). Do total, 140 são para a área de gastronomia e 20 para motorista, além de 114 na construção, em todas as regiões, com destaque para ajudante de obra, pedreiro, armador de ferro e eletricista.

Escolhas do Editor
Voltar ao topo