Éverton Fernandes, da Fenauto: “O recorde na venda de veículos usados vem do amadurecimento do setor”

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Éverton Fernandes, presidente da Fenauto, credita bom resultado à profissionalização das lojas
(Divulgação)
  • Mercado de usados comercializa 18,5 milhões de veículos em 2025, a maior marca da série histórica, iniciada em 2011
  • Para o presidente da Fenauto, os preços elevados do carro zero quilômetro e maior confiança do consumidor ajudam no desempenho da categoria
Por Mário Sérgio Venditti

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Em 2025, a cada automóvel de passeio, comercial leve ou pesado e motocicleta zero quilômetro emplacado no Brasil, 3,6 veículos usados eram vendidos nas lojas. Segundo a Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto), a entidade responsável pelo segmento de carros e motos de segunda mão, os 48 mil revendedores oficiais do país comercializaram, de janeiro a dezembro, 18,5 milhões de unidades, número que estabeleceu um novo recorde desde o início da série histórica, em 2011. O resultado representa elevação de 17,3% em relação a 2024 (15,7 milhões) e comprova a pujança de um mercado que movimentou entre R$ 825 bilhões e R$ 1,3 trilhão (valor ainda não consolidado), considerando o mix efetivo de vendas por categoria e seus respectivos preços médios, que podem variar de acordo com fatores como ano, estado de conservação e demanda.

Foi nesse cenário positivo que o economista cearense José Éverton Fernandes assumiu a presidência da associação em janeiro passado, para suceder Enilson Sales na gestão que vai até 2029. Para Fernandes, os números não representam mera estatística. As vendas em alta refletem o esforço contínuo do setor na direção da profissionalização e sua importância para a economia nacional, ajudando a viabilizar o acesso ao transporte individual e a gerar milhares de negócios em todo o país. “O recorde não foi conquistado por acaso”, afirmou. Segundo o executivo, ele é fruto de um ciclo de maturação do mercado, “impulsionado pelo trabalho de qualificar as lojas multimarcas e garantir a segurança das transações.”

Apesar da euforia, o executivo mantém os pés no chão, porque sabe que terá pela frente um ano desafiador por conta do calendário atípico. “Copa do Mundo de futebol e as eleições sempre levam o consumidor a pisar um pouco mais no freio na hora de fazer novos investimentos”, disse. Mesmo assim, a expectativa é otimista, a despeito de a entidade ainda não ter uma previsão fechada de crescimento para 2026. No entender de Fernandes, a confiança e a maturidade alcançadas pelo setor dão a segurança de que trajetória de bons resultados seguirá em frente. Veja a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS  A que se deve o recorde de vendas em 2025, superando a marca de 2024?
ÉVERTON FERNANDES – O recorde é resultado de um processo contínuo e não de um fator isolado. O mercado de usados está crescendo de forma consistente há vários anos e, no ano passado, atingiu um novo patamar por três razões principais: demanda estrutural reprimida, acumulada nos anos de crise e que migrou para o usado; dificuldade de acesso ao carro zero quilômetro para grande parte da população e a maior confiança do consumidor, fruto de mais transparência e profissionalização do setor. Os dados da Fenauto mostram que não foi um pico pontual, mas a consolidação de uma tendência. Não podemos negar que foi um crescimento acima das expectativas.

AGÊNCIA DC NEWS  O valor do automóvel novo deixou de ser acessível para o consumidor médio brasileiro?
ÉVERTON FERNANDES  Carros de uma certa faixa de preço que ele conseguia comprar antes, agora não consegue mais. Claro que o aspecto financeiro é relevante, mas não é o único. Existem outros pontos importantes, como os juros elevados para financiamentos longos e a busca por uma relação custo-benefício mais vantajosa. A oferta de usados em 2025 também aumentou muito porque grandes frotistas, principalmente locadoras, renovaram suas frotas, despejando no mercado uma quantidade considerável de boas opções. Além disso, houve mudança de comportamento do consumidor, que deixou de considerar o veículo usado como segunda opção.

AGÊNCIA DC NEWS  A Fenauto revela que viveu um “ciclo de maturação do setor”. O que é isso exatamente?
ÉVERTON FERNANDES  O ciclo de maturação significa que o segmento de veículos usados atingiu um nível mais avançado de organização, previsibilidade e profissionalismo. Envolve processos de digitalização mais confiáveis de compra e venda, gestão de estoque, uso de dados e indicadores e maior padronização comercial. O mercado deixou de ser informal e passou a operar como uma categoria estruturada da cadeia automotiva.

AGÊNCIA DC NEWS – De que maneira lojas e vendedores tiveram de mudar com essa profissionalização? 
ÉVERTON FERNANDES  Houve uma mudança profunda em relação ao antigo comportamento. As empresas passaram a investir em gestão, compliance e capacitação de equipes de vendas. A tecnologia virou aliada para avaliação, precificação e giro de estoque. Tudo para melhorar a experiência do cliente. A equação é simples: quem se profissionalizou, cresceu junto com o mercado. Quem não se adaptou e segue a cartilha antiga, vai ficando pelo caminho. Apesar de tantos avanços, ainda temos muito a evoluir. Precisamos passar uma mensagem mais clara ao consumidor de que o carro de segunda mão vale a pena.

AGÊNCIA DC NEWS – O senhor assumiu a entidade recentemente. Quais metas foram traçadas para a sua gestão?
ÉVERTON FERNANDES  As metas são claras. A atual diretoria pretende representar e fortalecer o setor institucionalmente, defender um ambiente regulatório equilibrado, estimular ainda mais a profissionalização das revendas, reforçar a confiança do consumidor de usados e produzir e divulgar dados confiáveis para o mercado e poder público. A Fenauto quer ser cada vez mais uma referência técnica e institucional.

AGÊNCIA DC NEWS  Comprar um carro usado ou seminovo ainda requer muitas precauções em relação ao passado? O que o consumidor deve observar?
ÉVERTON FERNANDES  Requer cuidados sim, mas hoje o mercado é muito mais transparente, especialmente quando a compra é feita em revendas associadas e estruturadas. De toda forma, o interessado sempre deve levar em conta alguns aspectos para fazer um bom negócio. Verificar a procedência do veículo, o histórico de manutenção, se a documentação está em dia, a reputação da loja e a garantia oferecida são cuidados essenciais. 

AGÊNCIA DC NEWS  Dos 10 modelos mais vendidos, nove são compactos. O sedã Toyota Corolla é a exceção. Os preços explicam essa preferência ?
ÉVERTON FERNANDES  O preço impacta diretamente no ranking. Afinal, os compactos têm valores de entrada mais acessíveis, custo de manutenção inferior e maior liquidez e facilidade de revenda. O Corolla foge à regra por ser visto como um produto aspiracional, com forte reputação de durabilidade. Existe, porém, outro fator determinante entre os usados mais vendidos: a quantidade desses modelos em circulação. O Corolla está há décadas em produção e tem muita oferta. O VW Gol, por sua vez, passou mais de 40 anos em produção e ocupou a liderança de vendas por muitos anos. Portanto, esses carros são facilmente encontrados no mercado de usados.

AGÊNCIA DC NEWS  Por falar em Gol, por que ele segue como fenômeno de vendas?
ÉVERTON FERNANDES  O Gol reúne características raras, como manutenção simples e barata, mecânica confiável, ampla oferta de peças de reposição e alta liquidez em todo o país. Ele se tornou praticamente uma moeda do mercado de usados, funcionando bem tanto para o consumidor quanto para o lojista. 

AGÊNCIA DC NEWS  Qual é a perspectiva da entidade para 2026? O mercado seguirá aquecido?
ÉVERTON FERNANDES  Os dados de janeiro [com 1,34 milhão de unidades vendidas] indicam um início de ano forte. Acreditamos em um mercado aquecido, porém, com crescimento moderado, mais estável e menos eufórico. O recuo de 24,5% em relação a dezembro é natural devido às despesas típicas de início de ano (IPVA, IPTU e matrículas escolares) e ao período de férias. De toda forma, o número é 9,3% superior ao registrado no mesmo mês de 2025. Mesmo com um calendário desafiador em 2026, que inclui Copa do Mundo e eleições, eventos que tradicionalmente alteram o ritmo do comércio, estamos otimistas na continuidade dos bons negócios. O protagonismo dos usados na mobilidade do brasileiro tem tudo para seguir no topo, mas dependemos diretamente do patamar de juros, da renda do trabalhador e do nível de confiança dele. Assim, não trabalhamos, neste momento, com uma projeção fechada para 2026, embora os vetores estruturais que sustentam o mercado de veículos usados e seminovos continuem: preços elevados do zero quilômetro, avanço contínuo da profissionalização e digitalização das revendas, maior eficiência nos sistemas de gestão, crédito e precificação e a expectativa de um ambiente monetário mais favorável, com possível redução da taxa Selic ao longo do ano.

AGÊNCIA DC NEWS  Os carros eletrificados já estão aparecendo no mercado de seminovos? Eles ajudaram a esquentar o setor?
ÉVERTON FERNANDES  Sim, já começam a aparecer, principalmente os modelos com motorização híbrida e os eletrificados leves. Claro que ainda respondem por uma fatia pequena, mas estão ampliando o leque de opções e ajudam a atrair um novo perfil de consumidor, que começa a formar um mercado secundário estruturado. O impacto ainda é gradual, mas irreversível.

AGÊNCIA DC NEWS – Os automóveis de passeio respondem pela maior parcela do faturamento de 2025?
ÉVERTON FERNANDES  Sem dúvida. O faturamento do mercado de usados é composto, basicamente, por 11,5 milhões de automóveis, com preço médio de R$ 50 mil e R$ 70 mil; 2,1 milhões de comerciais leves (de R$ 65 mil a R$ 70 mil); 445 mil veículos pesados (de R$ 150 mil a R$ 200 mil ou mais); quatro milhões de motocicletas (de R$ 10 mil a R$ 12 mil); e outras categorias, que responderam por aproximadamente R$ 2,6 bilhões.

AGÊNCIA DC NEWS – Os carros usados abrangem um espectro muito grande de antiguidade dependendo do ano de fabricação. Como a Fenauto faz essa classificação?
ÉVERTON FERNANDES  A classificação é importante porque ajuda a entender melhor o mercado. O seminovo é o carro com até três anos de vida. O usado jovem vai de quatro a oito anos, ao passo que o usado maduro é de nove a 12 anos. Os chamados velhinhos têm acima de 12 anos. Cada faixa apresenta perfil de comprador distinto, nível de preço diferente e ritmo próprio de giro. O crescimento recente foi bastante equilibrado, mas com destaque para os usados jovens e maduros, que oferecem o melhor custo-benefício.

AGÊNCIA DC NEWS Na sua opinião, qual é a vantagem de comprar um carro usado?
ÉVERTON FERNANDES  É a relação custo-benefício. O consumidor paga menos, evita a maior parte da depreciação inicial, pode comprar um modelo mais completo e ainda encontra opções com garantia e financiamento. Na maioria das vezes comprar um carro usado é uma decisão racional e estratégica.

AGÊNCIA DC NEWS  O senhor tem um automóvel usado?
ÉVERTON FERNANDES  Atualmente, tenho as duas experiências na minha casa: um Jeep Compass seminovo, e dentro do período de garantia de fábrica, e um GWM H9 zero, adquirido em condição de lançamento com desconto. Esse modelo ainda não consta no mercado de usados.

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