SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Dúvidas sobre descontos no salário ou na aposentadoria, dificuldade para acessar contratos e para conseguir atendimento estão entre as queixas de quem contratou o cartão Credcesta, tipo de consignado inicialmente ofertado a funcionários públicos municipais e estaduais e que posteriormente passou a ser usado pelo Banco Master em operações com aposentados e pensionistas do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
Professores e aposentados de diferentes estados ouvidos pela reportagem afirmam que, após contratarem consignados, passaram a identificar descontos adicionais que não reconhecem como valores relacionados a cartões que dizem jamais ter utilizado, seguros ou refinanciamentos que não teriam autorizado.
Há relatos de ligações insistentes com promessas de redução de juros ou liberação de ‘troco’, sem explicar direito como funcionava o refinanciamento.
O Credcesta operava com o “Saque Fácil”: o cliente recebia um empréstimo em dinheiro, a ser pago em parcelas descontadas da folha de pagamento, acrescidas de juros, dentro da margem consignável. Ao contratar esse tipo de saque, era emitido um cartão de crédito: em caso de utilização, o valor mínimo da fatura era descontado em folha, enquanto o restante deveria ser pago por boleto.
O benefício surgiu como um produto de crédito consignado estruturado em parceria com o Master. Posteriormente, parte da operação passou a ser abrigada também no Banco Pleno, liquidado pelo BC (Banco Central) em 18 de fevereiro.
O SAC do Credcesta informou à reportagem que não estão sendo feitos novos empréstimos.
O Credcesta foi procurado por email na sexta-feira (20), por meio da assessoria do Pleno. Na terça (24), a instituição também foi procurada pelo email informado no processo de liquidação. A reportagem tentou contato por telefone, mas foi orientada a tratar o assunto por email e não houve resposta até a publicação deste texto.
A professora Lívia Badaró, 40, de Natividade (RJ), diz que fez um empréstimo em 2025 e passou a ter múltiplos descontos em folha que não reconhece. “Eles começam com mil ligações e mensagens para fisgar a gente. São insistentes. Quando você está em aperto financeiro acaba aceitando uma proposta, acreditando que vai ser bom”, afirma.
Após a contratação inicial, ela diz ter recebido uma ligação com a proposta de refinanciamento e a promessa de redução dos juros e liberação de ‘troco’, o que gerou um novo empréstimo. Lívia diz ter quatro descontos em folha: de R$ 329,35, referente ao primeiro contrato; de R$ 224,49, que acredita estar ligado ao refinanciamento; além de valores de R$ 56,62 e R$ 506,08, que diz não reconhecer. Três descontos aparecem vinculados ao nome do Master e um à Credcesta.
Lívia diz que nunca utilizou o cartão do benefício para compras e que registrou reclamação no portal consumidor.gov. Em resposta enviada em novembro de 2025 via consumidor.gov, o Master dizia que o desconto de R$ 506,08 se referia a um refinanciamento, autorizado por ela após o envio de documentos e assinatura eletrônica.
Ana Paula Maciel, 44, de Brumado (BA), diz que contratou dois empréstimos em 2018, mas nunca conseguiu consultar os contratos. Após a liquidação do Master, a professora conta que foi procurada pelo Banco Pleno pelo WhatsApp, com a oferta de um novo empréstimo. Segundo ela, o banco informou que não se responsabilizava nem tinha informações sobre os contratos anteriores.
Em Curitiba (PR), a professora aposentada Tânia Alba, 59, afirma que, no fim de outubro do ano passado, recebeu por email e WhatsApp uma fatura de um serviço que diz não ter contratado, da empresa VC Pode Saúde. A empresa alegou que a contratação teria ocorrido por telefone, mas não apresentou a gravação.
Após pedir o cancelamento, Tânia diz que foi surpreendida com um desconto de R$ 89 em seu contracheque, vinculado ao Credcesta. Ela afirma que só conseguiu o cancelamento depois de registrar uma queixa no Reclame Aqui, mas ainda assim teve dois descontos em folha.
Tânia afirma ainda que tem dois empréstimos com o Credcesta, que reconhece ter contratado por meio de uma correspondente bancária. A reportagem procurou a VC Pode Saúde, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.
Uma professora de Curitiba que preferiu não se identificar afirma que, inicialmente, as parcelas do consignado eram compatíveis com o combinado, mas, depois, passou a haver a cobrança simultânea do empréstimo e do valor mínimo da fatura do cartão de crédito, sem autorização.
Ela relata que conseguiu suspender os descontos após procurar o RH da prefeitura.
No dia 9 de fevereiro, a SMGP (Secretaria Municipal de Gestão de Pessoal) de Curitiba anunciou a suspensão de todos os descontos do cartão Credcesta contratados por servidores ativos.
Em nota, a secretaria afirmou que a suspensão ocorreu pela falta de informações detalhadas sobre os contratos de cerca de 5.000 servidores municipais, aposentados e pensionistas que aderiram ao cartão.
A prefeitura diz que a decisão foi tomada após manifestações de servidores sobre cobranças em duplicidade e falhas de atendimento.
RECLAMAÇÕES ENTRE APOSENTADOS E PENSIONISTAS DO INSS
Também há queixas semelhantes envolvendo aposentados e pensionistas do INSS nas páginas do Reclame Aqui referentes ao Master e ao Credcesta. Beneficiários relatam descontos que dizem não reconhecer e dificuldades para obter cópia de contratos.
Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro, dono do banco, diz que o Master “sempre atuou em estrita observância às normas e aos procedimentos estabelecidos pelo INSS para a concessão de crédito consignado, incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.
Para o advogado previdenciário e colunista da Folha de S.Paulo Rômulo Saraiva, a combinação de venda por telefone, informações prestadas de forma acelerada e contratos firmados à distância dificulta a compreensão do que está sendo contratado. Para ele, essa dinâmica favorece práticas como venda casada e cobrança de serviços não claramente autorizados.
Procurado, o INSS diz que desde a deflagração da Operação Sem Desconto vem reexaminando seus fluxos internos de fiscalização de instituições financeiras.
“Sem entrar em detalhes particulares do caso do Banco Master, o que o INSS pode indicar neste momento é que a sua principal preocupação é garantir que o desconto decorre de um ato de vontade inequívoco de seu beneficiário, nas condições avençadas entre as partes e que há o respeito à legislação e às regras estipuladas para o crédito consignado”, afirma.
O QUE FAZER EM CASOS DE DESCONTOS INDEVIDOS?
O consumidor deve, inicialmente, procurar o banco, a instituição financeira ou a associação responsável pela cobrança para solicitar o cancelamento do desconto e a devolução dos valores.
Se o problema não for resolvido, é possível registrar uma reclamação no Portal do Consumidor, plataforma mantida pela Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor). Segundo o órgão, as queixas sobre o Credcesta no portal começam a aparecer em 2020, com aumento em 2025, período com 2.285 registros.
No caso de beneficiários do INSS, também é possível procurar a ouvidoria do órgão, por meio da Central 135 ou pelo aplicativo e site Meu INSS.