Incertezas sobre impacto na oferta e duração da guerra limitam disparada do barril de petróleo

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – As projeções sobre o mercado global de petróleo que se desenhavam até sexta-feira (27), às vésperas do início da guerra contra o Irã, mostravam-se mais alarmantes do que o cenário que acabou se concretizando nos dias seguintes ao início do conflito.

Enquanto alguns analistas precificavam uma disparada para além de US$ 100 o barril, o movimento se provou mais contido. A cotação máxima alcançada pelo petróleo Brent, referência global da commodity, foi de US$ 82,37 logo na noite de domingo (1º), alta de 13% em relação aos US$ 72,48 de sexta-feira.

Nesta noite, o preço do barril rondava US$ 78 -ainda uma alta expressiva ante o fechamento anterior, de cerca de 7%, mas distante da máxima registrada e, sobretudo, das projeções iniciais dos analistas.

A disparada relativamente contida do barril reflete, por ora, a perspectiva de que a commodity não passará por um choque de oferta significativo nas próximas semanas e de que o conflito será de curto prazo.

“Os investidores não estão ignorando o risco”, diz Lilian Linhares, sócia e head da Rio Negro Family Office.

“Eles estão esperando por evidências concretas de que os choques vão se traduzir em efeitos duradouros sobre crescimento, inflação ou fluxo de caixa das empresas. Sem esses dados robustos, o que vemos é um prêmio de risco embutido no preço da commodity, não uma mudança estrutural que justifique uma grande saída de risco.”

O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia, ou 3% da produção mundial, mas exerce influência ainda maior sobre o fornecimento de energia devido à sua posição às margens do estreito de Hormuz.

O canal é a via por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e é, em grande parte, controlado pelo país persa. Os ataques dos Estados Unidos e de Israel no fim de semana levaram o Irã a fechar o estreito, enquanto mais de 200 navios, incluindo petroleiros e embarcações de gás natural liquefeito, se ancoravam nas imediações.

A interrupção no fornecimento pelo canal preocupa, mas não inspira, por ora, temores de uma ruptura estrutural no abastecimento. Isso porque o mercado físico -aquele que contabiliza os barris de fato transacionados- vive um cenário de excesso de oferta desde o ano passado, o que estimulou estratégias de armazenamento.

“No começo do ano, chegou a se falar em até 4 milhões de barris diários de excesso de oferta. Depois chegamos em torno de 2 milhões”, diz Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos.

Parte do estoque global foi alocada em navios, os chamados “floating inventories” (estoques flutuantes), enquanto exportadores-chave do Golfo Pérsico, incluindo a Arábia Saudita, anteciparam embarques de barris nas semanas anteriores aos ataques, prevendo uma eventual interrupção no escoamento. Países como Estados Unidos e China também contam com reservas estratégicas de petróleo, acionáveis em situações de emergência.

A isso se soma o aumento de produção acordado pela Opep+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados), o grupo liderado pela Arábia Saudita. A partir de abril, serão adicionados 206 mil barris por dia à oferta global.

“Enquanto o preço de uma ação é uma opinião do mercado sobre o valor dela, o de uma commodity é baseado em ter ou não ter ela em forma física. Os estoques de petróleo no mar estão extremamente elevados, em especial os de origem russa e iraniana. A Opep ainda aumentou as exportações há alguns meses”, diz Ruy Alves, sócio e gestor da Kinea. “Tem muito petróleo no mar.”

A avaliação de que há excesso de oferta de petróleo no mercado é compartilhada por Linhares, da Rio Negro. A tensão geopolítica elevou o prêmio de risco sobre o Brent e trouxe volatilidade, diz ela, mas ainda não se traduziu em uma interrupção clara e duradoura da oferta física.

“Enquanto os mercados avaliam que qualquer descontinuidade de produção pode ser transitória ou compensada por estoques e outras fontes, o impacto econômico real permanece incerto.”

A oferta já em circulação, na avaliação dos especialistas, deve ser suficiente para abastecer os mercados até que o conflito arrefeça -perspectiva dominante mesmo após o presidente Donald Trump projetar uma duração de quatro a cinco semanas para a guerra.

O cenário-base do Citigroup é de que o barril seja negociado entre US$ 80 e US$ 90 pelo menos nos próximos dias, considerando que, após a morte do aiatolá Ali Khamenei, a nova liderança interromperá a guerra dentro de uma a duas semanas.

“Os EUA poderão reduzir a tensão após constatarem uma mudança na liderança e a interrupção do programa nuclear e de mísseis do Irã no mesmo período”, afirmam analistas em nota.

Já o Morgan Stanley elevou sua projeção para o Brent no segundo trimestre de US$ 62,50 para US$ 80 por barril.

Caso o conflito e o estrangulamento do estreito de Hormuz durem mais tempo do que o previsto, os preços do mercado futuro poderão escalar para os US$ 100 alardeados anteriormente.

Mas, para o Brasil, preços de petróleo mais altos costumam ser uma notícia ambígua.

“Por um lado, o preço aumentando em dólares pressiona o custo dos combustíveis; por outro, o Brasil é exportador líquido de commodities e tende a se beneficiar dessa alta”, diz André Valério, economista sênior do Inter.

“Como o real é bastante sensível às variações da cotação, podemos ver uma apreciação da moeda que compense o aumento do preço dos combustíveis. O impacto é dúbio e será preciso esperar para ver qual efeito vai dominar.”

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