SÃO PAULO, SP E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O PSOL não aceitou uma federação com o PT para as eleições deste ano. A ideia, debatida neste sábado (7) em reunião virtual do diretório nacional do partido, foi rechaçada em peso: 47 votos a favor e 15 contra.
Se tivesse embarcado na aliança, PSOL se associaria ao PT como se fossem uma sigla só, sob o mesmo estatuto, ainda que nomes e números de urna próprios fossem preservados. É esse cenário que a legenda descartou, no que participantes do encontro definiram como uma derrota para o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL).
A decisão pode levar a uma saída da ala liderada por Boulos do partido, conforme apurou o Painel. A corrente, chamada Revolução Solidária, reúne algumas das figuras de maior projeção pública do partido.
Na videoconferência, os membros do PSOL também definiram que apoiarão a tentativa do presidente Lula (PT) de buscar um quarto mandato presidencial e, portanto, não apresentarão candidato próprio ao Palácio do Planalto.
A possível entrada do PSOL na federação composta por PT, PC do B e PV provocou rusgas internas no partido. Lideranças como Boulos e a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) defendiam a união como tática necessária para enfrentar a extrema direita e garantir a sobrevivência parlamentar da sigla.
O grupo afirma que, federado ao PT, o PSOL não precisará se preocupar com a cláusula de barreira, que impõe um mínimo de votos para que parlamentares e partidos possam assumir cadeiras na Câmara dos Deputados.
Em contrapartida, figuras históricas e correntes majoritárias da legenda temem a perda da independência política e a obrigação de apoiar candidatos de centro-direita endossados pelos petistas.
Atingir a cláusula de barreira garante aos partidos acesso aos recursos do fundo partidário e à propaganda gratuita no rádio e na televisão. Para 2026, os critérios são a eleição de ao menos 13 deputados federais ou o alcance de 2,5% dos votos válidos para a Câmara. Nos dois cenários, os votos devem ser distribuídos por 9 das 27 unidades federativas.
“Foi uma derrota muito pesada de Boulos”, disse à reportagem o vereador Roberto Robaina, de Porto Alegre, membro do diretório. Ele é aliado de Sâmia Bonfim e segue a mesma trilha argumentativa da deputada: “A federação faria do PSOL um puxadinho do PT, então seria uma derrota do projeto de fundação do partido”.
Segundo Robaina, Boulos não discutiu sua entrada na Esplanada do presidente Lula com a direção do partido, “prometendo essa linha de federação que nada mais seria do que a subordinação do PSOL ao PT”.
A deliberação, contudo, não impede que as duas legendas estejam na mesma plataforma em 2026. “Estamos unidos com o PT para enfrentar a extrema direita.”
Boulos não estava na reunião, por não fazer parte do diretório nacional. Sua mulher, Natalia Szermeta, que deve concorrer à Câmara neste ano, foi a principal porta-voz do movimento pró-federação.
Entusiasta da parceria com o PT, Erika Hilton diz que, embora discorde dela, “obviamente respeita a posição da maioria”. Mas não deixa de lamentar o rumo tomado.
“Acho uma pena que o partido, em vez de mirar em uma tática de ampliação da nossa bancada, em especial no Norte e Nordeste, unir e fortalecer mais a esquerda, tenha optado por concentrar todo os esforços em superar cláusula de barreira. Mas é isso, interesses menores e visões mais estreitas prevaleceram na decisão de hoje.”
O deputado Chico Alencar, que integra o diretório nacional, definiu o debate como “elevadíssimo” e “tranquilo”, sem “adjetivos ofensivos ou tumulto”. Aproveitou para alfinetar colegas de Brasília que, segundo ele, estariam inquietos com o escândalo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e seu potencial de respingar no universo político.
“Foi à altura de um partido doutrinário, que opera com ideias e causas, e ali absolutamente ninguém estava apreensivo com as planilhas e as mensagens de Vorcaro. Isso é um diferencial, não é? No Parlamento Nacional, a quase totalidade dos partidos está com o rabo preso com esse esquema. Nós, absolutamente não.”
Em comunicado à imprensa, o PSOL optou por destacar que sua cúpula apoia “de forma unânime” a reeleição de Lula e que a federação com a Rede continuará válida para o próximo ciclo eleitoral.
Sobre o naufrágio da federação com o PT, Paula Coradi, presidente nacional da sigla, disse que “o tema foi acolhido e, assim como os demais, debatido de modo democrático e amplo, conforme nossa tradição partidária”.