CEO do Pão de Açúcar faz 'corpo a corpo' com fornecedores para explicar crise

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O presidente do GPA (Grupo Pão de Açúcar), Alexandre Santoro, 54, está no “corpo a corpo” com os maiores fornecedores do grupo varejista para explicar que o pedido de recuperação extrajudicial, anunciado nesta terça (10), tem como objetivo renegociar dívidas de R$ 4,5 bilhões, sem atingir as operações da companhia.

“Só hoje já conversei com mais de 20 grandes fornecedores, falo pessoalmente com eles”, disse Santoro à reportagem, em entrevista no meio da tarde de terça. “Estou tirando todas as dúvidas que porventura possam surgir, e eles têm entendido muito bem”, afirmou o executivo baiano, formado em ciência da computação, que assumiu a empresa em janeiro, por indicação dos novos principais acionistas, os Coelho Diniz, que também trocaram o conselho da companhia em outubro.

Diferentemente de uma recuperação judicial, na extrajudicial, nem todos os credores são envolvidos.

“A gente nunca teve problema de atrasar o pagamento [aos fornecedores] e não vamos ter agora”, afirmou Santoro, cuja preocupação número um é deixar claro para os parceiros comerciais que a medida tomada hoje envolve apenas os credores financeiros, especialmente os bancos. Parte deles, que concentram 46% dos créditos sujeitos ao plano (R$ 2,1 bilhões), já aceitaram o plano. São eles Itaú Unibanco, Rabobank, HSBC e BTG Pactual. Agora a missão é convencer os demais.

Questionado se parte dos credores pode transformar sua dívida em participação acionária no grupo, Santoro disse que o assunto ainda não está na mesa de negociação.

“Eu não tenho como dizer que [a conversão de dívidas em ações] é algo totalmente descartado. Isso envolve os próprios acionistas, é muito cedo para afirmar qualquer coisa nesse sentido” afirma. Ou seja, neste primeiro momento, a negociação vai se concentrar em alongamento da dívida.

O Itaú é o principal credor, com R$ 1,16 bilhão. Mas até o momento apenas o banco, e não a sua gestora de recursos (Itaú Unibanco Asset Management), que também é credora da varejista, aceitou negociar.

De acordo com uma fonte próxima ao comando do grupo, os bancos não querem que a empresa quebre, porque a consideram um ativo saudável. O GPA é o quinto maior varejista alimentar do país, com receita de R$ 20,6 bilhões em 2025. As suas 728 lojas estão em 11 estados e no Distrito Federal.

A lista de credores é formada por 14 empresas, com 21 contratos, desde bancos, como Itaú e HSBC, até empresas de saneamento (Aqua Nobile) e logística (Logged Rio e Transportadora Sanzaneze), passando pela Casas Bahia, que no passado pertenceu ao grupo. A maioria das dívidas (incluindo os passivos trabalhistas e tributários que não entraram no pedido) tiveram origem na gestão do Casino, controlador do GPA entre 2012 e 2023. “Não são dívidas feitas de outubro para cá”, diz Santoro, referindo-se à posse do novo conselho de administração.

GRUPO TEM POUCOS ATIVOS; QUASE TODAS AS LOJAS SÃO ALUGADAS

Pela lei, as empresas podem entrar com pedido de recuperação extrajudicial se conseguirem acordo com credores cujas dívidas representem no mínimo um terço dos créditos afetados. Na opinião do advogado Filipe Denki, sócio da Veritas Administradora Judicial, a escolha do GPA foi acertada.

“A via extrajudicial evita o rebaixamento automático do rating bancário da empresa, o que preserva, pelo menos em parte, o acesso ao crédito e a sua reputação perante o mercado e os parceiros comerciais”.

Para Alberto Serrentino, sócio da Varese Retail, a dívida do GPA ganhou uma dimensão ainda maior com os juros, diante da Selic a dois dígitos.

“A renegociação com os principais credores era inevitável”, afirma o consultor, lembrando que a Casas Bahia fez o mesmo ano passado. “O GPA tem dívidas vencendo, sem caixa para pagar. Ou vende ativo, ou injeta dinheiro novo na empresa, ou chama os credores para negociar”, diz Serrentino, reforçando que, caso a medida não fosse tomada, a recuperação judicial se tornaria uma possibilidade real.

Santoro não tinha muitas opções na manga para tentar manter de pé o grupo varejista, que nasceu da doceria criada em 1948 por Valentim dos Santos Diniz. O GPA praticamente não tem ativos —das atuais 728 lojas, apenas 5% têm imóvel próprio.

Em dezembro, já sob nova direção, o GPA vendeu para o Itaú a parte da sociedade que mantinham na financeira FIC. Vai receber R$ 260 milhões.

Questionado pela reportagem se a rede Extra Mercado seria um ativo a negociar, Santoro descartou a ideia. “Não está à venda”, afirmou.

Com passagens por Ambev, Danone, ALL e grupo RBI (dono de Burger King Popeye’s), Santoro comandava a IMC, dona de Frango Assado e Viena, antes de ser chamado para o GPA. Faz parte da sua missão promover uma reestruturação no GPA. Acaba de cortar três diretores -hoje fazem parte do comando apenas o próprio Santoro e Pedro de Albuquerque, vice-presidente de finanças e diretor de relações com investidores.

O CEO não prevê abertura de lojas este ano e diz que os cortes, tanto de pessoal quanto de ponto de venda, devem ser pontuais.

O plano de recuperação extrajudicial prevê a suspensão imediata das dívidas de R$ 4,5 bilhões por 90 dias, a contar da data do pedido. A companhia e os credores vão formar um comitê para avaliar alternativas, como alteração em condições de pagamento e juros, reorganizações societárias ou capitalização.

O GPA possui cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e encerrou dezembro com capital de giro líquido negativo em cerca de R$ 1,2 bilhão.

Além disso, a companhia revelou a existência de R$ 15 bilhões em disputas tributárias classificadas como “perdas possíveis” -valores que não estão provisionados no balanço, mas que representam um risco potencial. Também existe um passivo trabalhista da ordem de R$ 17 bilhões. Mas essas duas dívidas, que somam R$ 32 bilhões, não entraram no pedido de recuperação extrajudicial.

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