Kast toma posse no Chile prometendo moderação, enquanto Boric deixa legado ambíguo

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SANTIAGO, CHILE (FOLHAPRESS) – Gabriel Boric chegou ao poder no Chile prometendo que, se o país um dia havia sido o berço do neoliberalismo, também seria o seu túmulo. Quatro anos depois, após a esquerda no país sofrer uma ampla derrota para José Antonio Kast, o presidente mais jovem da história chilena deixa o cargo com um legado ambíguo.

Com origem no movimento estudantil, o político deixará a Presidência nesta quarta-feira (11) com uma aprovação na casa dos 30%, alguns avanços sociais e trabalhistas e sem ter resolvido a principal preocupação dos chilenos: o aumento da criminalidade.

O esquerdista herdou uma crise social, econômica e política complicada, e a grande derrota do governo foi a rejeição de uma proposta de mudança da Constituição que era a base de seu programa. Isso o levou a demitir aliados e buscar apoio na centro-esquerda tradicional.

O governo da Frente Ampla também amargou a rejeição de uma reforma tributária, embora tenha conseguido aprovar a redução da jornada de trabalho e o aumento do salário mínimo.

Além de um cenário político interno polarizado, com crescimento de candidaturas de ultradireita, Boric enfrentou resistência na própria esquerda chilena, que considera suas posições tíbias.

No exterior, parte de seu reconhecimento veio após críticas a regimes autoritários na América Latina e por suas tentativas de construir uma coalizão com a oposição.

Para Mauro Basaure, professor de sociologia da Universidade Andrés Bello de Santiago, o governo de Boric inevitavelmente será lembrado com ambivalência -não foi um mandato de transformações estruturais profundas, mas também longe de ser um fracasso completo.

“Será lembrado como o governo que encerrou o ciclo político aberto pelos protestos sociais de 2019 e que teve de governar em condições muito diferentes daquelas que deram origem ao seu programa: derrota constitucional, crise de segurança, desaceleração econômica e um Congresso fragmentado”, diz.

Aos desafios estruturais da política chilena, em que direita e esquerda se revezam no poder desde 2011, se somaram erros típicos de um governo de inexperientes, uma geração que chegou ao poder muito rapidamente e teve que aprender a governar na prática.

Nesse contexto, o governo esquerdista acabou por se desviar de uma ambição transformadora para um reformismo mais pragmático.

Segundo Basaure, Boric poderia voltar a ser uma figura relevante na esquerda, até mesmo se candidatando novamente à Presidência -no Chile, um presidente não pode pleitear mandatos consecutivos, mas é liberado para tentar o cargo novamente, como fizeram Michelle Bachelet e Sebastián Piñera.

Após um desentendimento em que Kast encerrou o processo de transição e acusou Boric de não compartilhar informações com a sua equipe, os dois políticos voltaram a se reunir e prometeram uma cerimônia sem atritos entre esquerda e direita nesta quarta, em Valparaíso.

O evento marcaria o pragmatismo para além das fronteiras do Chile, com a possibilidade de encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu provável principal adversário nas eleições brasileiras, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O petista, entretanto, cancelou nesta terça (10) sua presença na posse de Kast. O Brasil será representado pelo chanceler Mauro Vieira.

Os próximos quatro anos de Kast devem tentar começar com um tom moderado, mas governando sob a lógica de um “governo de emergência”, que foi o slogan de sua campanha: ordem, segurança, migração e autoridade, lembra Basaure.

“Essa estrutura permitiria que ele endurecesse as políticas sem abandonar completamente a retórica moderada de sua campanha. O problema é que ele enfrentaria pressão constante da direita, especialmente do Partido Nacional Libertário, do ultradireitista Johannes Kaiser, que disputariam seus eleitores mais radicais e o pressionariam a se radicalizar para não parecer fraco.”

Kast, que havia sido derrotado por Boric nas eleições anteriores, em 2025, venceu a governista Jeannette Jara ao moderar seu discurso, evitando temas sensíveis, como seu apoio à ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Os analistas sugerem que, em vez de um retorno do regime de Pinochet, Poderia haver uma consolidação do pinochetismo como uma cultura política. Isso serviria para resgatar a memória, legitimar um regime autoritário e normalizar uma direita mais radical, em comparação com a que se estabeleceu nas últimas décadas como contrária à ditadura.

Um dos lemas de campanha de Kast, a deportação em massa de imigrantes em situação irregular e que atingiria especialmente venezuelanos que vivem no país, poderia ser moderado após a prisão de Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

“O mais provável é uma repressão seletiva, sob a lógica de um governo de emergência: maior controle de fronteiras, expulsões direcionadas e pressão administrativa. No segundo turno das eleições, Kast já havia moderado sua promessa, disse que não expulsaria imigrantes, mas que buscaria saídas voluntárias”, afirma Basaure.

Na política externa, o relacionamento de Kast com o presidente americano, Donald Trump, e com o argentino Javier Milei pode melhorar, especialmente em temas de segurança e migração, ainda que não se espere um alinhamento incondicional aos Estados Unidos, como o de Milei.

Já com Lula, a relação tende a ser mais pragmática, com projetos de cooperação entre os dois países, em setores como a mineração, apesar das diferenças ideológicas.

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