BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O caso Master levou ao isolamento do governador Ibaneis Rocha (MDB), que perdeu qualquer chance de apoio do PL para concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.
O partido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), até então seu aliado, viu na divulgação de um contrato milionário do escritório do emedebista com a Reag, investigada no contexto das fraudes no banco, o momento ideal para desembarcar da base.
Por ora, o governador tem dito que manterá sua candidatura ao Senado mesmo sem apoios considerados chave. Mas seus próprios aliados não descartam que talvez ele tenha que recorrer a um plano B, como se candidatar a deputado federal, para garantir uma eleição e evitar perder o foro especial, que eventualmente o protegeria de investigações no caso Master.
Pessoas próximas ao governador dizem que também não está descartado que ele decida ficar até o final do ano no cargo, justamente para manter seu foro.
Ibaneis foi eleito em 2018 e reeleito quatro anos depois com apoio de Bolsonaro. Para a eleição de 2026, seu plano era concorrer ao Senado numa aliança com o PL, dando a segunda vaga de senador na sua chapa a um candidato ou candidata bolsonarista. Nesse desenho, a vice-governadora Celina Leão (PP) foi escolhida para disputar o Governo do Distrito Federal.
Agora, o PL rompeu de vez com Ibaneis e caminha para lançar duas candidatas ao Senado: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e a deputada federal Bia Kicis.
Apesar do rompimento, o partido pretende manter o apoio para Celina concorrer ao governo, numa das poucas convergências com Ibaneis. O atual governador indicaria o vice nessa composição, seu secretário da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha.
A avaliação é que Ibaneis ficou numa encruzilhada. O PL escolheu duas candidatas consideradas fortes e com amplo reconhecimento na base bolsonarista e dobrou a aposta, apoiando a criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) na Câmara Legislativa do DF para investigar a fraude que envolve o BRB (Banco de Brasília).
Na esquerda, as portas também estão fechadas para Ibaneis. O PT pretende lançar o presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Leandro Grass, ao governo. O PSB, por sua vez, tem como pré-candidato Ricardo Cappelli, presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), que foi interventor do Distrito Federal logo após 8 de Janeiro.
Se, de um lado, o PL pede uma CPI contra Ibaneis, do outro PSB e PSOL acionaram o STF (Supremo Tribunal Federal) cobrando investigação do emedebista e seu afastamento do cargo. A despeito do cerco, aliados no MDB afirmam que o governador tem repetido que pretende concorrer ao Senado, mesmo sem o apoio dos bolsonaristas.
No PL, o apoio a Celina está encaminhado, mas lideranças do partido condicionam a manutenção da aliança ao desenrolar do caso Master. Há um temor de que a aliança com ela vincule o partido a personagens envolvidos no escândalo.
No PL, a ordem é pressionar pela CPI. “Não dá mais para esperar. Quando aparecem indícios graves de desvio de recursos, temos obrigação de agir. CPI é instrumento de fiscalização, e esta se tornou inevitável”, afirmou Bia Kicis, que também é presidente do partido no Distrito Federal.
O PL já avaliava rifar Ibaneis na eleição, pois preferia ter as candidatas identificadas com o chamado bolsonarismo raiz. Nesse cenário, a crise envolvendo a tentativa de compra do Master pelo BRB deu munição à ala que não pretendia dar espaço ao atual governador.
A crise entre o bolsonarismo e Ibaneis escalou na última semana, quando a Câmara Legislativa aprovou autorização para o Governo do Distrito Federal fazer um aporte no BRB. A medida tem como objetivo cobrir prejuízos relacionados às operações com o Master.
Na Câmara Legislativa, a base de Ibaneis tem 17 dos 24 deputados distritais. Mas três nomes até então governistas votaram contra o projeto: Thiago Manzoni (PL), que agora lidera a articulação pela CPI, Rogério Morro da Cruz (PRD) e João Cardoso (Avante).
CONTRATO COM A REAG
A Folha de S. Paulo teve acesso ao documento que comprova que o escritório de advocacia de Ibaneis vendeu para o fundo Reag Legal Claims os direitos sobre o recebimento de honorários no valor de R$ 38,13 milhões -equivalente a 10% da condenação-, com data-base de dezembro de 2021. A informação foi antecipada pelo jornal O Globo.
Segundo investigações da Polícia Federal, a Reag estava envolvida na teia de fraudes financeiras encabeçada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Ibaneis diz que desconhece a negociação com a Reag. “Ele está afastado do escritório de advocacia desde 2018, de modo que não possui informações sobre negociações realizadas quase seis anos após seu afastamento”, diz sua defesa, em nota.