Protestos para limitar IA na cultura reúnem de ex-Malhação a autor de Game of Thrones

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ao redor do mundo, há pelo menos 107 mobilizações de profissionais criativos reivindicando limites e justiça no desenvolvimento de inteligência artificial, segundo levantamento inédito da Universidade de Toronto divulgado na terça-feira (10).

O estudo inclui jornalistas, designers e artistas. No Brasil, uma das referências é o ator Fábio Azevedo, que protagonizou Malhação em 2000 e deu voz a personagens do cinema, como as versões brasileiras do Dr. Estranho e da Fera, de A Bela e a Fera. Ele é o atual presidente da Associação Brasileira de Dubladores (Dublar.BR), que já reuniu 100 mil assinaturas para pedir restrições no uso de IA na tradução de filmes sob o slogan “Dublagem Viva”.

Entre as mobilizações estão campanhas como a Dublagem Viva, formação de entidades, greves, boicotes e até processos judiciais contra empresas que lideram o campo da IA generativa -o principal exemplo é o litígio dos escritores contra a Anthropic, a desenvolvedora do Claude.

A finalidade desses movimentos é diversa. A Dublagem Viva pede para proibir o uso de IA em diálogos em outros idiomas que são traduzidos para o português com a voz original.

“Hoje, as propostas de usar IA na dublagem, seja para fazer o que a gente chama de paisagem sonora, seja para traduzir vozes, já está na mesa dos estúdios -e o preço é outro, inviabiliza nosso trabalho”, diz Azevedo. A qualidade, diz ele, tem uma queda indiscutível.

“É essencial preservar a expressão vocal, emoção e interpretação artística que os profissionais trazem para o processo de dublagem. A tecnologia deve ser vista como uma ferramenta complementar, não como um substituto”, diz o manifesto assinado por mais de 100 mil pessoas.

Outro grupo brasileiro na lista é a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), que milita pela aprovação do PL 2338/2023, que propõe um arcabouço regulatório para a tecnologia, incluindo um sistema de microrremuneração pelo uso de obras protegidas por direito autoral no desenvolvimento de IA.

Representando os ilustradores, a União Democrática dos Artistas Digitais levanta reivindicações similares desde 2022.

As empresas de IA americanas têm argumentado que pegar materiais protegidos da internet para desenvolver chatbots é “uso justo”, quando não é preciso pagar; elas defendem que os robôs não reproduzem conteúdo das obras e sim entregam algo transformado, como um humano faria. Elas também pleiteiam uma leitura dos direitos autorais mais permissiva, que não freie a inovação no setor.

“Desde que estourou a greve dos roteiristas de Hollywood, eu digo que os trabalhadores da cultura, das artes e da comunicação estão na linha de frente dessa batalha da IA generativa”, diz Rafael Grohmann, professor de estudos de mídia da Universidade de Toronto que coordenou a pesquisa.

No Brasil, audiências públicas do Congresso sobre o tema colocaram, de um lado, empresas de tecnologia e, de outro, artistas conhecidos como Marisa Monte, Frejat e Denise Fraga.

Nos Estados Unidos, trabalhadores também confrontam empresas de tecnologia. Uma das 18 mobilizações citadas no estudo é uma ação coletiva de escritores contra a criadora do ChatGPT. O autor da saga “Game of Thrones”, George R.R. Martin é um dos litigantes contra a empresa de IA.

Grohmann diz que os grupos ligados à dublagem e à produção audiovisual devem estar superrepresentados no resultado. Isso porque a pesquisa dele tem foco em dublagem. A orientanda dele, por sua vez, pesquisa como a IA muda a rotina dos trabalhadores de cinema e televisão. É ela, Helena Wright, que assina como principal autora do trabalho.

A base de dados até agora lista grupos ligados a artes visuais, música, videogames, dublagem, cinema, televisão, jornalismo e mercado editorial. No total, 30 países estão representados.

O levantamento é parte de uma pesquisa mais ampla sobre a influência que os trabalhadores têm no controle e na governança da inteligência artificial. “Ainda estamos no escuro, quase não há informação sobre o assunto”, afirma o professor.

Os grupos foram identificados “na unha”, como diz Grohmann, iniciando em buscas no Google. Helena fez testes em vários idiomas. Caso encontrasse notícias, procurava representantes do movimento e pedia evidências sobre a mobilização.

O método tem limitações, reconhece Grohmann. Na África, por exemplo, onde se concentram importantes sindicatos ligados ao trabalho e à inteligência artificial por causa da exploração de trabalho barato na análise braçal de dados, houve poucos resultados. “Não sabemos se foi por uma limitação linguística.”

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