SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os preços do petróleo voltaram a subir nesta quinta-feira (12) e encerraram a sessão cotados acima de US$ 100 pela primeira vez desde 2022, após nova onda de ataques contra as infraestruturas petrolíferas dos países do golfo Pérsico.
O barril Brent, referência internacional, chegou a reduzir a alta de preço ao longo do dia, mas fechou acima dos três dígitos, cotado a US$ 101,75, uma alta diária de 10,6%. Nesta semana, a commodity chegou a bater US$ 119,46 na segunda-feira (9), mas recuou abaixo dos US$ 100 na mesma sessão.
O aumento ocorre mesmo após a AIE (Agência Internacional de Energia) ter aprovado a liberação de 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas, o maior movimento na sua história. Apesar disso, os navios-petroleiros continuam evitando a passagem pelo estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás.
O novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que o tráfego em Hormuz deve continuar praticamente fechado. Em seu primeiro pronunciamento após assumir o lugar do pai, Ali Khamenei, ele disse que a medida é uma forma “de manter pressão sobre o inimigo”.
O Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse à CNBC nesta quinta que a Marinha dos EUA não poderia escoltar navios pelo estreito no momento, mas era “bastante provável” que isso pudesse acontecer até o final do mês.
Wright também disse ser improvável que os preços globais do petróleo atinjam US$ 200 por barril, mesmo com o Irã continuando a atacar navios.
Além disso, a medida da AIE deve demorar quase um mês para ser executada, de acordo com o presidente francês, Emmanuel Macron, e é vista por especialistas como um paliativo.
“Na linguagem das mesas de operações, a liberação da AIE é o equivalente a apontar uma mangueira de jardim para um incêndio em uma refinaria”, comentou Stephen Innes, da SPI Asset Management.
Para os analistas do ING, a “única maneira de ver os preços do petróleo serem negociados em baixa de forma sustentada é fazendo com que o petróleo flua pelo estreito de Hormuz. Se isso não for feito, significa que as altas do mercado ainda estão à nossa frente”.
Além do Brent, o barril WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, também subiu nesta quinta e estava cotado a US$ 97,40 no fechamento, uma alta de 11,6%.
BOLSAS EM QUEDA
Com os novos ataques, os investidores voltaram a evitar os ativos de risco e Bolsas pelo mundo caíram. O índice Euro STOXX 600, referência na União Europeia, fechou em queda de 0,6%. As principais Bolsas do continente seguiam a mesma tendência em Frankfurt (-0,21%), Londres (-0,47%), Paris (-0,71%), Madri (-1,22%) e Milão (-0,71%).
As três Bolsas dos EUA também fecharam em queda. Nasdaq perdeu 1,79%, Dow Jones caiu 1,57%, e S&P 500 recuou 1,53%.
Os principais índices da Ásia fecharam em queda, com destaque para Tóquio (-1,04%), Taiwan (-1,56%) e Seul (-0,48%). Na China, o índice CSI300, que reúne as maiores companhias listadas em Xangai e Shenzhen, retrocedeu 0,36%, e o índice SSEC, de Xangai, perdeu 0,10%.
O ouro é outro ativo que estava em baixa no fim da tarde desta quinta, com queda de 1,60%, cotado a US$ 5.096,36 por onça.
ATAQUES A NAVIOS E DEPÓSITOS EM VÁRIOS PAÍSES
A guerra, iniciada em 28 de fevereiro com os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, adquiriu uma dimensão regional e ameaça o abastecimento mundial de petróleo, já que o tráfego foi paralisado no estratégico estreito de Hormuz.
O bloqueio do estreito de Hormuz tem implicações significativas para o comércio de petróleo e gás natural. Do canal, saem cerca de 20% do óleo bruto produzido em todo o mundo, e um bloqueio de longo prazo pode afetar em massa o fornecimento de combustíveis vitais para a economia mundial.
Contudo, no 13º dia do conflito, os danos às infraestruturas petrolíferas são cada vez maiores. Ao menos dois navios-petroleiros foram incendiados no mar do Iraque após supostos ataques vindos do Irã na madrugada de quinta-feira (noite de quarta no Brasil).
Segundo autoridades iraquianas, as embarcações foram alvos de navios carregados de explosivos e os ataques causaram a morte de uma pessoa. A Vitol, uma das maiores empresas de energia do mundo, disse que é a proprietária das duas embarcações e que o tripulante que morreu estava no navio Safesea Vishnu.
Horas antes, três outros navios haviam sido atingidos no Golfo: um navio de bandeira tailandesa, um navio porta-contêineres na costa dos Emirados Árabes Unidos e uma embarcação no Bahrein. A Guarda Revolucionária do Irã reivindicou a responsabilidade pelo ataque ao navio da Tailândia e alegou que o ataque foi motivado pelo não cumprimento de uma ordem.
O porta-contêineres que pegou fogo pertence à empresa Hapag-Lloyd, uma das maiores de transporte marítimo, e teria sido atingido por fragmentos de projéteis. Segundo a empresa, todos os tripulantes a bordo estão seguros.
Houve também ataques a depósitos de combustíveis relatados por Bahrein e Omã, e a um campo de petróleo em Shaybah, no leste da Arábia Saudita, que foram confirmados pelos países atingidos. Drones causaram danos novamente no aeroporto internacional do Kuwait e explosões foram ouvidas no centro de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Uma alta autoridade militar iraniana alertou na quarta-feira que o país poderia travar uma guerra prolongada que “destruiria” a economia mundial, enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, insistiu que o Irã estava enfrentando uma derrota iminente.
AGÊNCIA FALA EM MAIOR CHOQUE DE OFERTA DA HISTÓRIA
A AIE (Agência Internacional de Energia) afirmou que a guerra no Oriente Médio está criando o maior choque de oferta de petróleo da história. Segundo a entidade, os países do golfo Pérsico reduziram a produção de petróleo em pelo menos 10 milhões de barris diários com o bloqueio do estreito de Hormuz.
“A produção de petróleo bruto foi reduzida em pelo menos 8 milhões de barris por dia (mb/d), em conjunto com 2 mb/d” relacionados a derivados de petróleo (incluindo os condensados), que foram “paralisados”, destacou a AIE em relatório.
Em particular, segundo a agência, foram registradas “importantes reduções da oferta” no Iraque, Qatar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que foram atacados pela represália do Irã aos ataques que sofreu dos EUA e de Israel.
A situação pode representar uma oportunidade para vários produtores da América Latina, como Brasil, Venezuela e México, porém com valores de frete elevados. Distribuidoras de combustíveis na França e na Coreia do Sul anunciaram que vão estipular teto para o preço do combustível para tentar conter a alta do petróleo.
O conflito já fez com que mais de três milhões de pessoas se deslocassem dentro do Irã para fugir dos confrontos, segundo a agência de refugiados da ONU.
A IMPORTÂNCIA DE HORMUZ
O estreito de Hormuz fica próximo ao Irã e tem apenas 54 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito.
Teerã prometeu que nem um litro de petróleo será exportado do golfo Pérsico enquanto os ataques dos EUA e de Israel continuarem, embora dados da indústria sugiram que suas próprias exportações, afetadas por sanções, continuam passando.
Forças americanas disseram ter atingido 28 embarcações iranianas de colocação de minas na quarta-feira, em meio a temores de que Teerã pudesse tornar o estreito de Hormuz inavegável.
Os novos ataques do Irã nesta quinta-feira vieram depois que Trump insistiu que Teerã estava “praticamente no fim da linha”. “Não significa que vamos acabar com isso imediatamente, mas eles estão”, disse o presidente dos EUA.
Ele também ameaçou que Washington poderia atacar infraestruturas que levariam uma geração para serem reconstruídas, ao mesmo tempo em que indicou que preferiria mostrar contenção.
“Se a Casa Branca imagina que o conflito vai parar quando Donald Trump decidir… estão cometendo um erro e ignorando as lições da história”, afirmou Pierre Razoux, diretor de estudos da Fundação Mediterrânea de Estudos Estratégicos, à agência de notícias AFP.
“O regime iraniano, que não tem mais nada a perder, vai travar uma guerra de desgaste contra os Estados Unidos e Israel para puni-los por sua agressão”, avaliou.
O Exército de Israel disse nesta quinta-feira que iniciou uma nova onda de ataques “em larga escala”, incluindo um que, segundo afirmou, teve como alvo um local usado para o desenvolvimento de armas nucleares.