RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – A Petrobras anunciou nesta sexta-feira (13) aumento de R$ 0,38 por litro no preço do diesel vendido em suas refinarias. A alta foi divulgada um dia depois do anúncio de pacote do governo federal para enfrentar a escalada das cotações internacionais do petróleo após o início da guerra no Irã.
O aumento é superior aos R$ 0,32 por litro de isenção de PIS/Cofins anunciados pelo governo. Isso significa que o repasse final às distribuidoras será de R$ 0,06 por litro. “É um aumento residual”, afirmou nesta sexta a presidente da Petrobras, Magda Chambriard.
Segundo a Petrobras, o diesel sairá de suas refinarias a R$ 3,65 por litro a partir deste sábado (14). Foi a primeira mudança no preço do diesel desde maio de 2025, quando a companhia promoveu um corte de R$ 0,16 por litro.
O valor final ao consumidor, porém, inclui impostos, biodiesel e a margem de distribuidoras e postos. Na semana passada, o preço médio do combustível nas bombas era de R$ 6,15 por litro.
Distribuidoras ressaltam que a alta no preço final é maior do que os R$ 0,06 por litro estimados pela Petrobras, já que o impacto da isenção de PIS/Cofins nas bombas é de R$ 0,29, e não R$ 0,32 por litro (o corte incide apenas sobre o diesel de petróleo e não sobre os outros componentes).
Assim, o repasse ao consumidor ficaria em torno de R$ 0,10 por litro.
“Esperamos, diante desse momento difícil, que haja sensibilidade suficiente de todos os agentes da cadeia para que não haja aumento abusivo”, afirmou a presidente da Petrobras em entrevista coletiva para explicar o aumento nesta sexta.
Refinadoras e importadores privados já vinham aumentando seus preços para repassar a alta de custos. Segundo levantamento Edenred Ticket Log, o preço médio do diesel nas bombas já havia subido 7% em março.
Além do aumento no preço do diesel, a Petrobras espera outros R$ 0,32 por litro de receita extra com a subvenção criada pelo governo no pacote anunciado nesta quinta.
O subsídio ainda depende de regulamentação da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis), mas a estatal entende que permitirá sua participação. Assim, a empresa terá a partir de sábado um aumento de R$ 0,70 na receita com cada litro de diesel.
O reajuste da Petrobras foi considerado insuficiente pelo mercado, que teme problemas de abastecimento de diesel com a redução de importações privadas do produto. Cerca de um quarto do mercado brasileiro é abastecido com diesel importado.
Na abertura do mercado desta sexta, o litro do diesel nas refinarias da estatal custava R$ 2,34 abaixo da paridade de importação calculada pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). Com o reajuste, portanto, a diferença permanecerá perto de R$ 2 por litro.
Na manhã desta sexta, distribuidoras e postos já começavam a repassar a isenção do PIS/Cofins, segundo a reportagem apurou com executivos do setor. O alívio, porém, terá vida curta com o reajuste anunciado pela estatal.
O mercado reclama ainda que a própria Petrobras vem realizando leilões de diesel com preços maiores do que os anunciados em suas refinarias, o que reduz o impacto das medidas anunciadas pelo governo. Nos leilões já realizados, os prêmios variam entre R$ 1,75 e R$ 2,05 por litro acima do preço normal.
Empresas importadoras afirmam ainda ver incertezas no programa de subvenção do governo. Primeiro, porque os preços de referência não foram definidos, o que dificulta a tomada de decisão por novas importações.
E, segundo, porque ainda há ações judiciais discutindo a subvenção de 2018, no governo Michel Temer. As grandes distribuidoras cobram na Justiça promessa do governo de ressarcimento pela venda sem impostos de produtos que haviam sido comprados com impostos.
Para analistas do mercado financeiro, o pacote do diesel trouxe recados mistos, principalmente por conta do imposto de 12% sobre a exportação do petróleo, que segundo o governo federal deve servir como forma de compensação às subvenções.
Em relatório, o banco BTG Pactual afirma que as isenções sobre o diesel devem trazer impacto líquido positivo para a Petrobras e ajudar a limitar os preços nas bombas. Por outro lado, diz o banco, a taxação das exportações de petróleo introduz incerteza em relação à estabilidade regulatória do setor e provavelmente será contestada por exportadores como Prio, Brava e Shell.
“Acreditamos que a indústria também pode se articular com outros setores exportadores -como o agronegócio- no Congresso para tentar barrar a medida, o que poderia levar à caducidade da MP dentro do prazo de 120 dias”, afirma o relatório.
Avaliação semelhante é feita por Regis Cardoso, head de óleo, gás e petroquímicos da XP Investimentos, em relatório divulgado nesta sexta. Na visão dele, o pacote do diesel ajuda a mitigar o impacto no preço ao consumidor, mas tem efeitos limitados.
O imposto de exportação, contudo, é alvo de críticas. “A medida é negativa para as produtoras de petróleo, como, por exemplo, a Prio. Deve afetar o preço do petróleo bruto vendido no mercado interno, uma vez que a formação de preços segue a paridade de exportação. A medida também forçará as refinarias nacionais de diesel a manter o produto no mercado local, já que torna as exportações economicamente inviáveis.”
Para Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, o imposto de 12% sobre a exportação de petróleo bruto gera risco regulatório para investidores internacionais. “Pode afetar o setor petrolífero brasileiro e a rentabilidade da cadeia como um todo.”
Ele também afirma que as medidas geraram temores de intervenção no mercado de combustíveis. “A Petrobras costuma sofrer desconto quando há aumento do risco político”, diz.
Os papéis da estatal encerraram o pregão com recuos entre 0,54% e 0,73%, enquanto Prio e Brava caíram 2,85% e 2,23%, respectivamente. O Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, fechou o dia com queda de 0,9%, a 177.653 pontos.
ENTENDA A MEDIDA DO GOVERNO PARA O DIESEL
– Decreto zera as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel, o que representa um valor de R$ 0,32 por litro
– Medida provisória também prevê o pagamento de uma subvenção (incentivo) a produtores e importadores de diesel no valor de R$ 0,32 por litro
– Subvenção terá validade até 31 de dezembro e ficará limitada a R$ 10 bilhões
– Impacto das medidas somadas será de R$ 0,64 por litro, segundo o governo
– Repasse ao consumidor final será fiscalizado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis)
– Em outro ato, o governo irá elevar o imposto de exportação sobre petróleo de zero para 12%