SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O grupo 3 Corações anunciou nesta terça-feira (17) a compra das operações da General Mills no Brasil por R$ 800 milhões, em um movimento que amplia sua presença para além do café.
A transação inclui as marcas Yoki e Kitano, conhecidas em categorias de produtos como farofa, pipoca de micro-ondas, batata palha e temperos. O negócio ainda depende de aprovação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e outras condições, com expectativa de conclusão até o fim deste ano.
“Com a aquisição, o grupo avança em sua estratégia de crescimento por meio da diversificação e complementaridade de portfólio. A integração dos novos produtos permite que a companhia atenda a todas as ocasiões de consumo do brasileiro, do café da manhã ao jantar”, afirma a 3 Corações, em comunicado ao mercado.
Phillipe Mari, sócio executivo da Acorn Advisory e especialista em fusões e aquisições, diz que a venda faz parte de uma estratégia global de grandes conglomerados que estão se desfazendo de divisões regionais que não fazem parte do negócio principal e não geram receita direta. O objetivo é se concentrar em produtos com escala mundial.
Em comunicado, a General Mills afirma que a operação está alinhada a uma estratégia que prioriza categorias com maior margem e escala internacional, como sorvetes premium (Häagen-Dazs), comida mexicana, barras de cereais e alimentos para pets.
As operações da multinacional no Brasil geraram cerca de US$ 350 milhões (aproximadamente R$ 1,7 bilhão) em receita líquida no ano fiscal de 2025. Com a transação, a companhia afirma que terá renovado quase um terço de seu portfólio desde 2018, entre aquisições e desinvestimentos.
Para o advogado Victor Amorim, especialista em direito societário e M&A do Caputo, Bastos e Serra Advogados, a aquisição da Yoki e da Kitano pela 3 Corações é um movimento estratégico relevante para o setor de alimentos. “Do ponto de vista concorrencial, a operação apresenta perfil favorável à aprovação pelo Cade”, afirma.
“O ponto mais interessante da operação, no entanto, está no que vem depois do fechamento. A 3 Corações tem uma rede de distribuição extremamente capilar no varejo brasileiro, e levar Yoki e Kitano por esse canal pode acelerar muito o crescimento dessas marcas”, diz Amorim.
Mari afirma que, para o consumidor a compra vai significar mais produtos no mercado. “Além disso, sendo uma empresa brasileira, há uma liberdade maior para adaptar fórmulas ao gosto local, sem a necessidade de seguir padrões de suavização de temperos exigidos por multinacionais”, diz.
A venda vinha sendo negociada desde 2025, quando a General Mills contratou assessores para buscar interessados. O negócio envolve toda a operação brasileira, incluindo fábricas e a cadeia de suprimentos, com unidades em Pouso Alegre (MG) e Campo Novo do Parecis (MT).
Cecília Troiano, diretora da empresa de gestão de marcas TroianoBranding, diz que o aspecto mais crítico da fusão é garantir que o vínculo de confiança com o consumidor não seja quebrado. Ela afirma, porém, que a 3 Corações pode usar sua linguagem e conexões brasileiras para ampliar o vínculo emocional dessas marcas com o público nacional.
Forte no mercado de café, o grupo 3 Corações busca reduzir a dependência de uma única categoria. Fundado em 1959, reúne mais de 30 marcas e está presente em cerca de 600 mil pontos de venda no país. Nos últimos anos, avançou em outros segmentos de alimentos, como achocolatados, refrescos em pó e derivados de milho.
No comunicado, o presidente da empresa, Pedro Lima, afirmou que a operação faz parte do plano de crescimento no setor de alimentos e amplia a presença da companhia “em diferentes ocasiões de consumo”.
A aquisição inclui também a estrutura operacional da General Mills no Brasil, com fábricas e distribuição já estabelecidas. Para a 3 Corações, isso significa ganho imediato de escala e capilaridade em novas categorias. O grupo diz que irá manter os funcionários da multinacional.
“Esta é uma compra claramente oportunística. A General Mills pagou cerca de R$ 1,95 bilhão por essa empresa. Agora, está vendendo por R$ 800 milhões, ou seja, 40% do valor original, mesmo com a empresa tendo dobrado o faturamento de R$ 800 milhões para R$ 1,8 bilhão no período”, diz Mari.
O especialista afirma que isso não significa que a empresa perdeu o valor, mas que a General Mills precisava sair do ativo para se concentrar em suas marcas globais e não havia muitos compradores focados nesse segmento.
“Comprou com dólar forte e juros baixos no passado, e está saindo agora com dólar mais fraco e juros altos, entregando ativos para brasileiros que estão barganhando esses negócios”, resume Mari.
A operação foi assessorada financeiramente pelo Deutsche Bank e teve consultoria jurídica do escritório Miguel Neto Advogados. Pelo lado da General Mills, o assessor financeiro foi o Goldman Sachs, com assessoria jurídica do KLA Advogados e do Miguel Neto Advogados.
A General Mills entrou no país em 2012, com a compra da Yoki. A aquisição ocorreu no mesmo período em que o caso envolvendo Elize Matsunaga ganhou repercussão nacional. O desaparecimento e assassinato de Marcos Kitano Matsunaga, então executivo da empresa, vieram a público dias após o anúncio do negócio.
No início das investigações, chegou a ser levantada a hipótese de que o sumiço pudesse ter relação com a transação -possibilidade posteriormente descartada pela polícia.
RAIO-X | 3 Corações
Fundação: 1959
Funcionários: cerca de 9.000
Principais concorrentes no Brasil: JDE Peet’s (marcas Pilão, L’OR), Melitta, Nestlé (Nescafé, Nespresso) e Camil (marcas Bom Dia, Seleto)