Selic em 14,75% mantém renda fixa pós-fixada atrativa

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, ao patamar de 14,75% ao ano, continua favorecendo a renda fixa, em especial títulos pós-fixados e indexados à inflação, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Apesar da redução, a primeira desde maio de 2024, investimentos atrelados à Selic ou ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário), seu equivalente no mercado privado, seguem atrativos.

O mesmo é dito por analistas sobre ativos que acompanham os índices inflacionários, cujas taxas permanecem em patamar elevado.

“Não é porque a taxa de juros começou a cair que o investidor deva sair do pós-fixado e migrar para outros ativos”, diz Rafael Winalda, especialista em renda fixa do Banco Inter.

Os pós-fixados acompanham a própria Selic ou o CDI (equivalente da taxa na renda privada), o que reduz a sensibilidade às oscilações de curto prazo da taxa básica.

Para Winalda, mesmo com a redução da taxa de juros, a taxa média de retorno da classe é elevada e deve continuar assim. Pelas projeções do último Boletim Focus, a Selic deve encerrar o próximo ano em 12,25%.

Segundo levantamento do C6 Bank, o Tesouro Selic com vencimento em 2028 deve oferecer retorno líquido real (já descontados o Imposto de Renda e a inflação projetada) de 7,33%, considerando uma alocação de um ano.

“Os pós-fixados continuam tendo espaço na carteira de qualquer investidor, justamente por ajudarem a reduzir a volatilidade e aumentarem a liquidez. O cenário continua bastante favorável”, afirma Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

Os analistas também veem espaço para investimentos atrelados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), métrica oficial da inflação brasileira. O ativo acompanha a inflação medida pelo índice, mais uma taxa prefixada de juros.

O Tesouro Direto ofertava, nesta quarta, títulos do IPCA com juro real acima de 6,9%. O prazo para 2032, por exemplo, prometia a variação da inflação mais 7,72%.

“Os juros reais seguem em patamar elevado. Para investidores com maior apetite a risco e horizonte de investimento mais longo, é possível travar taxas elevadas e, caso a curva de juros reais caia, há potencial de ganho”, afirma Winalda.

No caso dos títulos IPCA, porém, o prazo escolhido altera o risco do investimento. Vencimentos mais longos ficam mais expostos à marcação a mercado (diferença entre o valor pago pelo título na contratação e o preço pelo qual ele é negociado no momento do resgate), caso haja resgate antes do prazo.

Para investidores arrojados, Almeida, da Suno, também recomenda ações em Bolsa. Segundo ele, a queda da taxa básica deve valorizar empresas alavancadas. “Em um cenário de juros elevados e restritivos, o custo da dívida comprime o fluxo de caixa. Com a redução dos juros, o custo financeiro diminui e essas empresas passam a ter maior folga.”

Ele, contudo, adverte contra aportes na renda fixa privada, como debêntures, CRI e CRAs (Certificados de Recebíveis Imobiliários ou do Agronegócio). “Percepção é de que o risco ainda é elevado para o nível de retorno oferecido. Neste cenário, aumenta a necessidade de análise e seleção por parte do investidor”, diz.

CENÁRIO EXTERNO TAMBÉM IMPULSIONA VALORIZAÇÃO DE RENDA FIXA

Os analistas também veem a guerra no Oriente Médio como fator de valorização da renda fixa. Para eles, entretanto, ainda há incerteza sobre a duração do conflito e seus impactos na curva de juros brasileira.

“A guerra pode se encerrar rapidamente ou se prolongar, como vimos em outros conflitos recentes. Em um cenário de petróleo elevado e maior aversão a risco global, poderíamos ter impactos relevantes na inflação brasileira”, diz Felipe Izac, sócio da Nexgen Capital.

Ele afirma, porém, que, em um cenário de estabilização do conflito e do petróleo, o Banco Central poderia ter espaço para promover cortes de forma mais gradual e consistente ao longo do ano.

“A expectativa para a reunião do Copom sempre foi de um corte de juros, mas a magnitude desse movimento oscilou. Essa mudança reflete, principalmente, os impactos inflacionários esperados para os próximos períodos no Brasil”, diz Marcelo Freller, estrategista de investimentos do C6 Bank.

Para Winalda, do Inter, tanto investidores quanto o Banco Central devem levar o conflito em consideração, dado que o petróleo é um componente extremamente relevante e sensível na dinâmica da inflação.

Ele, contudo, ressalta que o mercado ainda precifica um conflito de curta duração. “Nesse caso, nem o Banco Central nem os investidores, de forma estrutural, deveriam promover mudanças relevantes em suas estratégias por enquanto”.

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