SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O corte de juros de 0,25 ponto percentual na Selic, a taxa básica de juros da economia, foi mais comedido do que seria sem o conflito no Oriente Médio, e esse deverá ser o ritmo do ciclo de queda, afirmam analistas do mercado financeiro.
O Copom (Comitê de Política Monetária) diminuiu nesta quarta-feira (18) a taxa de 15% para 14,75% ao ano. Antes dos ataques dos Estados Unidos ao Irã, havia apostas de que o Banco Central faria cortes de 0,5 ponto percentual a cada reunião.
A taxa de juros real, levando em conta a curva de juros futuros, é de cerca de 9,51% ao ano, a segunda maior do mundo.
Alex Agostini, economista chefe da Austin Rating, chama a atenção para o texto do comunicado do Copom, que começa citando o conflito no Oriente Médio. “Quanto mais transparente for o Banco Central, melhor ele vai conseguir conduzir as expectativas”, diz.
Ele afirma que a decisão foi moderada, já que uma parte significativa do mercado financeiro considerava que haveria redução de 0,5 ponto percentual. O comitê afirmou em janeiro que começaria a cortar a taxa de juros a partir da reunião deste mês.
Também nesta quarta-feira, o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) decidiu manter a taxa de juros do entre 3,5% e 3,75%, também citando incertezas em relação às consequências econômicas da guerra no Irã.
O corte de 0,25 ponto nesta quarta foi o primeiro desde maio de 2024 -também o primeiro na gestão de Gabriel Galípolo, que assumiu o comando da autarquia no início de 2025. A Selic estava em 15% desde 20 de junho do ano passado.
Caio Megale, economista-chefe da XP, diz que o ritmo de cortes deverá ser de 0,25 ponto percentual ou mais de agora em diante.
Sobre o comunicado, ele diz que o Copom manteve a projeção para inflação em patamar semelhante. Ele também notou que houve referência aos eventos recentes (incluindo o conflito no Oriente Médio) e à possibilidade de que a evolução do cenário pode criar condições para mudança do ritmo nos cortes.
Marcelo Fonseca, economista-chefe do grupo CVPAR, chama a atenção para a mudança na expecativa de inflação de 3,4% para 3,9% no terceiro trimestre de 2027. Tanto ele como Agostini afirmam que na próxima reunião deve haver uma nova redução de 0,25 ponto percentual.
Danilo Passos, economista da WHG, também afirma que o ciclo de cortes deve continuar, mas diz que pelo texto do comunicado fica claro que dificilmente o ritmo de redução da taxa básica de juros será maior do que o atual.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval, diz que com o conflito no Oriente Médio, o preço de petróleo deve se manter alto, e por isso o Banco Central seguir com o ritmo de 0,25 ponto percentual de corte.
“Se tiver uma melhora do cenário, se o preço de petróleo voltar a cair para patamares anteriores ao conflito, eventualmente o Banco Central pode vir com corte de 0,50”, afirma.
CORTE É INSUFICIENTE, DIZEM ENTIDADES DA INDÚSTRIA
A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e a Fiemg (de Minas Gerais) divulgaram notas afirmando que o corte foi tímido.
“Não há euforia de demanda que justifique tal rigor, independentemente de aspectos externos. Ao contrário, o que se observa é uma punição ao investimento e à inovação em favor da inércia da renda fixa”, afirmou a Fiesp, que pede cortes nos gastos do governo.
A Fiemg afirmou que a diminuição de 15% para 14,75% é insuficiente para melhorar a competitividade da indústria e que o anúncio “não atendeu às expectativas do setor produtivo, que esperava um corte mais expressivo após quase dois anos sem reduções”.