BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou nesta quarta-feira (18) o ciclo de corte de juros e reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano. Os dias que antecederam a decisão foram marcados por mudanças nas expectativas do mercado e forte estresse nos juros futuros.
Apesar da turbulência provocada pela guerra no Irã, o colegiado do Banco Central confirmou o plano traçado no encontro anterior, em janeiro, quando sinalizou a intenção de iniciar a redução de juros em março. Foi a primeira queda sob a gestão de Gabriel Galípolo.
Mas o comitê não antecipou quais serão os seus passos futuros e deixou a próxima decisão em aberto, citando “forte aumento da incerteza”. Evitou até mesmo palavras como “redução” ou “cortes” e optou por mencionar ciclo de “calibração” da política de juros. A ideia do Copom é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito no Oriente Médio antes de definir os movimentos seguintes.
Votaram 7 dos 9 membros em decisão unânime. Ainda não foram indicados os substitutos dos diretores Diogo Guillen (Política Econômica) e Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro e de Resolução), cujos mandatos terminaram em 31 de dezembro de 2025.
Cautela (usado três vezes) e incerteza (quatro vezes) foram termos que nortearam a decisão do comitê e deram o tom do comunicado divulgado ao término da reunião.
“No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, disse.
Às vésperas do encontro, cresceu no mercado financeiro a aposta de uma redução menor de juros no primeiro movimento, de 0,25 ponto percentual, diante da disparada dos preços do petróleo. Antes da escalada do conflito no Oriente Médio, o consenso era de corte de 0,5 ponto percentual.
Levantamento feito pela Bloomberg mostrava que, dentre 30 instituições consultadas, 19 previam queda da Selic para 14,75%, dez projetavam redução para 14,5% e uma acreditava na manutenção da taxa básica em 15% ao ano pela sexta vez seguida.
A mudança na expectativa provocou volatilidade no mercado, com alta na curva de juros futuros. O Tesouro Nacional teve de realizar recompras de títulos para conter a escalada, na maior intervenção em mais de uma década.
Diante da incerteza no ambiente global, o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) decidiu manter os juros entre 3,5% e 3,75%, pela segunda reunião consecutiva. Agora, a diferença entre os juros dos EUA e do Brasil está em 11 pontos percentuais.
O Copom disse olhar para os impactos futuros do conflito no Oriente Médio, sobretudo os efeitos provocados sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities, que afetam a inflação no Brasil de forma direta e indireta.
De acordo com o colegiado do BC, houve distanciamento adicional das projeções de inflação em relação à meta de 3%. Em seu cenário de referência, a estimativa para este ano saltou de 3,4% para 3,9%. Para o terceiro trimestre de 2027, a estimativa subiu de 3,2% para 3,3% -acima do alvo. Esse é o prazo na mira do Copom devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.
O comitê, contudo, reconheceu que a incerteza em relação a suas próprias projeções aumentou consideravelmente, diante da falta de clareza sobre a duração da guerra e de seus impactos.
A tensão global pesou na escolha do BC por um primeiro passo conservador, apesar da pressão crescente do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e dos setores produtivos pela queda dos juros.
“O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais”, ressaltou. Além disso, afirmou que o cenário exige cautela por parte de países emergentes, com é o caso do Brasil, pela maior volatilidade dos preços de commodities.
Ao justificar a decisão desta quarta, o Copom disse ver evidências dos efeitos dos juros altos por longo período sobre a desaceleração da atividade econômica e que, por isso, julgou que seria apropriado dar início ao ciclo de queda da Selic.
Segundo o colegiado, foram criadas condições para que “ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.”
Esse foi o primeiro corte da Selic em quase dois anos. A última queda tinha sido registrada em maio de 2024, quando Roberto Campos Neto ainda era presidente do Banco Central.
O alívio naquela época durou pouco e, na sequência, foi executado um ciclo de alta que alçou, em junho de 2025, a taxa básica de juros ao nível de 15% ao ano. Desde então, a Selic tinha ficado estacionada no mesmo patamar.
No comunicado, o Copom ressaltou a trajetória de queda da inflação, destacando “algum arrefecimento”. Mas disse também que o indicador se manteve acima da meta. No acumulado de 12 meses até fevereiro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) chegou a 3,81%.
O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).
Nas últimas semanas, cresceram os riscos sobre os preços no curto prazo. O barril do petróleo chegou a ultrapassar os US$ 110 nesta quarta. Para conter a alta de preços de combustíveis, o governo Lula zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, ao custo de R$ 20 bilhões. Também autorizou um subsídio de até R$ 10 bilhões para bancar parte do preço do diesel.
Em relação à política fiscal, o Copom manteve o tom usado em comunicados anteriores. Ele disse seguir acompanhando seus desdobramentos sobre a política de juros e sobre os ativos financeiros.
Desde a reunião anterior, o câmbio apresentou melhora. A cotação do dólar usada pelo comitê em seus cálculos foi de R$ 5,20 -ante R$ 5,35 no encontro de janeiro.
Para o colegiado do BC, o cenário doméstico continua marcado por expectativas de inflação distantes da meta, projeções elevadas e pressões no mercado de trabalho, que ainda mostra sinais de resiliência.
Segundo os dados coletados pelo boletim Focus, divulgado na última segunda (16), os analistas projetam que o IPCA feche 2027 e 2028 em 3,8% e 3,5%, respectivamente.
O comitê ressaltou que fatores que podem afetar a inflação, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio. Apesar disso, não alterou os elementos listados em seu balanço de riscos.
Entre os vetores que puxariam os preços para cima, destacou a possibilidade de as expectativas de inflação seguirem distantes da meta por período mais prolongado do que o esperado e possíveis impactos provocados por políticas econômicas dentro e fora do Brasil, como um câmbio depreciado de forma mais persistente.
Nessa mesma direção, repetiu a chance de a inflação de serviços se mostrar mais perseverante em função de um hiato do produto mais positivo (quando a economia opera acima do seu potencial e sujeita a pressões inflacionárias).
Entre os fatores que afetariam os preços para baixo, o Copom repetiu o risco de a economia doméstica perder força de forma acentuada e a chance de haver uma desaceleração global mais forte em função de um choque de comércio ou do próprio cenário de incerteza. Além disso, mencionou eventual queda nos preços das commodities.
O colegiado voltará a se reunir nos dias 28 e 29 de abril, no terceiro dos oito encontros previstos para o ano.