Desaceleração do comércio global em 2026 pode ser mais forte com o conflito no Oriente Médio, diz a OMC

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"Resiliência" do comércio global está sob pressão do conflito, diz a diretora-geral da OMC
(Samy Adghirni/Folhapress)
  • Por enquanto, projeção da entidade é de crescimento de 1,9% no comércio de mercadorias, ante 4,6% no ano passado (e 2,6% em 2027)
  • Documento aponta impacto em relação a energia, combustíveis, fertilizantes (incluindo o Brasil) e alimentos
Por Vitor Nuzzi

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A Organização Mundial do Comércio (OMC), que já previa desaceleração global neste ano, agora avalia que o conflito no Oriente Médio pode reduzir ainda mais a atividade. Isso pode acontecer se os custos com energia permanecerem elevados, o que também “pressionaria o comércio de alimentos e serviços, devido a interrupções nas viagens e no transporte”. No documento Global Trade Outlook and Statistics, divulgado nesta quinta-feira (19), a estimativa é de que o comércio de mercadorias – excluídos possíveis “choques” no preço da energia – cresça 1,9% neste ano, ante 4,6% em 2025. Para 2027, a estimativa é de alta de 2,6%. Outra projeção é do PIB, com leve variação: de 2,9% em 2025 para 2,8% tanto neste ano como no próximo.

No entanto, caso os preços do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) sigam pressionados, a previsão para o PIB deste ano cairia para 2,5%. O que reduziria em meio ponto percentual a projeção para o comércio. E em até um ponto “para regiões dependentes de importações de energia”. Por outro, economistas da OMC veem potencial de crescimento se o conflito for de curta duração “e se os gastos relacionados à IA [inteligência artificial] permanecerem fortes durante 2026 e início de 2027”. Nesse caso, o comércio poderia crescer até 2,4% neste ano e 2,7% no próximo.

Segundo a diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, as estimativas refletem “resiliência” do comércio global, impulsionada por produtos de alta tecnologia e adaptações nas cadeias de suprimentos, desde que não haja retaliação contra sanções tarifárias. “No entanto, essa previsão básica está sob pressão do conflito no Oriente Médio”, afirmou. “Aumentos sustentados nos preços da energia podem aumentar os riscos, com possíveis efeitos negativos para a segurança alimentar.” Além de pressões de custos sobre consumidores e empresas, acrescentou. Para ela, os países membros podem amortecer esse impacto “mantendo políticas comerciais previsíveis e fortalecendo a resiliência da cadeia de suprimentos”. 

IMPACTOS – De acordo com a OMC, o bloqueio do Estreito de Ormuz, na região do conflito, atingiu o fornecimento de fertilizantes importantes para a agricultura global. “Cerca de um terço das exportações mundiais de fertilizantes normalmente passam por essa via navegável”, afirmou a organização, citando o Brasil como um dos países atingidos. ” Grandes produtores agrícolas como Índia, Tailândia e Brasil dependem do Golfo para 40%, 70% e 35% de suas importações de ureia, respectivamente.” Além de combustíveis e fertilizantes, países da região veem ameaças à segurança alimentar. Em média, eles têm dependência de importação de 75% para o arroz e mais de 90% para milho, soja e óleo vegetal. “Commodities que enfrentariam custos mais altos por rotas alternativas.”

A alta de 4,6% no comércio mundial em 2025 está sujeita a revisões. A projeção era de alta de 2,4%. Segundo a OMC, o impacto negativo do tarifaço norte-americano foi menor do que o esperado, devido à suspensão dessas novas sanções até agosto. E também a menos retaliações e várias isenções aplicadas. A entidade afirma ainda que o aumento na demanda por bens que permitem IA “compensa o impacto negativo no comércio global”. Esse comércio cresceu 21,9% de 2024 para 2025, somando US$ 4,2 trilhões. “Esses produtos representaram 42% do crescimento total do comércio global, apesar de representarem apenas um sexto do comércio.” Bens como chips, semicondutores e equipamentos de transmissão de dados estão isentos da maioria das tarifas adicionais.

Entre as regiões, a OMC espera crescimento de 3,3% de importações de mercadorias na Ásia, de 3,2% na África, de 2,5% na América do Sul, de 1,3% na Europa e de 1% no Oriente Médio. Permaneceriam estáveis (0,3%) na América do Norte. Já as exportações cresceriam 3,5% tanto na Ásia como na América do Sul, ante 1,4% na América do Norte e 1,2% na África. Além disso, devem desacelerar no Oriente Médio (0,6%) e ficar estagnadas na Europa (0,5%).

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