A mudança de status — de guerra de atrito para mobilização militar contra o regime do Irã — começou enquanto eu fechava um livro sobre a ascensão de Atenas. Era março de 2024. As manchetes falavam em ataques cirúrgicos, dissuasão, escalada controlada. No meu colo, porém, as páginas me levavam a outro março — o de 490 a.C., quando os persas desembarcaram em Maratona acreditando que a superioridade imperial dispensava explicações.
Não foi a primeira vez que procurei refúgio em livros fora do eixo principal. Há anos desconfio de narrativas lineares demais. Gosto de desmontar o encadeamento oficial dos fatos, observar os eventos não como progressão inevitável, mas como escolhas feitas sob pressão. O risco existe: reescrever o passado à imagem do presente, ou moldá-lo às próprias preferências. Mas há risco maior em aceitar que o passado não tem nada a dizer quando o mundo começa a ranger.
E ele está rangendo.
Os conflitos na Ucrânia (desde 2014, e em guerra aberta desde 24 de fevereiro de 2022) e no Irã não são episódios isolados. São manifestações de um deslocamento estrutural. Viajar 2.500 anos no passado ajuda a entender por quê. Além da surpreendente constância da lógica profunda do sistema internacional, é possível identificar, nos eventos passados, os sinais da emergência de uma nova ordem. Essa é a proposta do texto abaixo.
Entre 499 e 449 a.C., as Guerras Greco-Pérsicas colocaram frente a frente cidades-Estado e um império continental. Em 490 a.C., Maratona. Em 480 a.C., Termópilas e Salamina. Em 479 a.C., Plateia encerra a campanha terrestre persa na Grécia. Não se tratava apenas de territórios, mas de quem definiria as regras do comércio no Egeu, a liberdade de navegação e a autonomia política — além, claro, de um dos momentos fundadores do que mais tarde seria chamado de civilização ocidental.
Naquele mesmo período, a China caminhava para sua primeira unificação, que se consumaria em 221 a.C., sob a dinastia Qin. Dois mundos, duas respostas para o mesmo dilema: como organizar poder em larga escala sem implodir por dentro.
Sérgio Wasserstein | Colunista
Os objetivos dessas disputas — controle de rotas, acesso a riquezas, projeção de poder — atravessaram séculos quase intactos. Os métodos mudam, mas os dilemas retornam: quem sustenta o tempo, quem aceita perdas, quem confunde superioridade material com vitória garantida.
Roma herdou o mundo grego e, entre 146 a.C. e 117 d.C., construiu um império que conectava o Atlântico à Mesopotâmia. Pela Rota da Seda, ativa desde o século II a.C., mercadorias, ideias e doenças cruzavam continentes. A globalização é antiga; apenas mudou de velocidade.
Com a queda de Roma em 476, o equilíbrio migrou. Bizâncio sobreviveria até 1453. A Pérsia ressurgiria sob os sassânidas (224–651). Esse sistema foi progressivamente transformado a partir de 622, com a expansão islâmica, que redirecionou fluxos comerciais e redes de poder por séculos — contribuindo também para a preservação e circulação de conhecimentos clássicos que, mais tarde, influenciariam o renascimento intelectual europeu.
O Irã nunca deixou de ser um ponto de fricção. Do rival otomano ao “Grande Jogo” do século XIX (1813–1907). Do golpe de 1953 à Revolução Islâmica de 1979. Do trauma da guerra Irã-Iraque (1980–1988) à condição atual de potência regional ideológica.
Mas é entre 2001 e 2022 que o pano de fundo do mundo contemporâneo se forma — e, silenciosamente, se distorce. Os parágrafos seguintes explicam a presença de um ‘pacto implícito’ entre Russia, China e Irã.
A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, foi tratada como um ponto de convergência histórica. A premissa era clara: integrar Pequim às regras do comércio global produziria, no tempo, convergência institucional. Cadeias de produção seriam distribuídas, interdependentes, eficientes — e, por isso mesmo, estabilizadoras.
O que se construiu foi algo diferente.
Ao longo de duas décadas, a China consolidou posições dominantes — em alguns casos, quase monopólios funcionais — em segmentos críticos: terras raras, refino de minerais estratégicos, painéis solares, insumos farmacêuticos, componentes eletrônicos e etapas centrais da manufatura em larga escala. A lógica da eficiência empurrou o mundo para uma concentração produtiva sem precedentes recentes.
As cadeias globais não se tornaram verdadeiramente “compartilhadas”. Tornaram-se, em muitos pontos, dependentes.
Essa dependência permaneceu relativamente invisível enquanto o sistema funcionava sem fricção. Mas crises começaram a expô-la: a crise financeira de 2008 revelou vulnerabilidades sistêmicas; a pandemia de 2020 escancarou gargalos logísticos e industriais; e, progressivamente, a geopolítica voltou a interferir onde antes prevalecia a economia.
O erro de leitura foi assumir que interdependência econômica neutraliza rivalidade estratégica. A história sugere o oposto: ela frequentemente a reorganiza.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que 2022 não é apenas mais um episódio — é uma ruptura.
A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, não é apenas uma guerra regional. Ela rompe explicitamente a premissa de estabilidade territorial que sustentava a ordem pós-1991 e força uma reconfiguração das cadeias de energia, alimentos e segurança na Europa e além.
Quase em paralelo, o ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023 — conduzido por um ator não estatal, mas profundamente conectado ao eixo de influência iraniano — recoloca o Oriente Médio no centro de uma disputa que nunca foi apenas regional.
Esses eventos não são independentes. Eles revelam um padrão emergente de alinhamento.
China, Rússia e Irã não formam uma aliança formal nos moldes clássicos. Mas operam em um vetor convergente: testar limites, explorar assimetrias e gerar atrito contínuo com as democracias ocidentais.
Pequim não precisa replicar as ações de Moscou ou Teerã para se beneficiar delas. Basta manter o sistema em estado de tensão: cadeias produtivas pressionadas, rotas energéticas instáveis, instituições multilaterais tensionadas. Nesse ambiente, escala industrial, controle de insumos críticos e centralização decisória tornam-se vantagens estratégicas — não apenas econômicas.
É um tipo novo de equilíbrio: não baseado em estabilidade, mas em fricção administrada.
Esse é o ponto em que a história volta a fazer sentido.
Assim como Atenas não lutava apenas por território, mas por um modelo de ordem no Egeu, e como Roma não expandia apenas por glória, mas por controle de fluxos e previsibilidade, o mundo atual não disputa apenas fronteiras — disputa a arquitetura que define como fluxos de energia, bens, capital e informação serão organizados.
E essa arquitetura está em disputa aberta. O noticiário trata tais combates como isolados, mas a lógica internacional é clara e estabelece interligações claras.
O erro mais recorrente deste momento é insistir em analisar essa realidade com categorias de um mundo que já terminou. Cadeias “globais” que não admitem ruptura, interdependência como garantia de paz, instituições como árbitros neutros — tudo isso pertence a um arranjo que funcionou por um período específico.
Esse período acabou.
E quanto ao futuro? Ao nosso ver, o vetor convergente entre China, Rússia e Irã deveriam influir e ajudar a moldar a nova ordem internacional.
Se a história ensina algo, é que transições de ordem raramente são administradas com clareza ou consenso. Elas se impõem. O que chamamos hoje de instabilidade é, muitas vezes, o processo pelo qual um novo equilíbrio tenta nascer.
Mas há uma diferença relevante desta vez: o grau de interdependência acumulado torna o custo da ruptura mais alto — e, paradoxalmente, mais provável. É neste contexto que poderemos observar novas ‘guerras’ onde de um lado teremos o ‘ocidente’ e de outro os novos parceiros (China, Russia e Irã).
O futuro provavelmente não será definido por uma vitória final, mas por zonas prolongadas de tensão, cadeias produtivas redesenhadas, fronteiras ambíguas e regras negociadas no atrito. Não mais eficiência máxima — mas resiliência estratégica.
Quem entender isso antes — governos, sociedades, mercados — sofrerá menos. Quem insistir em tratar o mundo como estático descobrirá, tarde demais, que a História não avisa quando muda de marcha.
Ela apenas segue.
E cobra.
SÉRGIO WASSERSTEIN
É empresário, investidor de capital de risco (angelinvestor) e filantropo brasileiro. Após sua graduação e pós em Ciências da Computação pela USP teve uma bem-sucedida carreira no Banco Garantia em São Paulo. Entre outras posições foi head trader da mesa de juros do banco. Co-Fundou em seguida a Coomex energia, uma importante comercializadora de energia no Brasil que foi adquirida pelo BTG Pactual em 2010. Possui vasta experiência em mercado financeiro, com interesse especial em derivativos. É membro fundador do Astra e escreve sobre geopolítica, derivativos, mercados e macro.