BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Um relatório de diligências, elaborado por um cliente do Master, registra que o banco captou mais de R$ 5 bilhões por meio de letras financeiras nos últimos anos. O documento reúne dados colhidos em visitas presenciais para certificação sobre a segurança financeira de investimentos feitos. O dado sobre as letras financeiras foi compartilhado durante uma reunião com o Master, feita menos de seis meses antes da liquidação pelo Banco Central.
O valor, que aparece no documento que descreve o conteúdo da reunião, é mais do que o dobro do detectado em investigação da PF (Polícia Federal): R$ 2,3 bilhões.
Em 28 de maio de 2025, gestores da Amazonprev -órgão do governo do Amazonas que faz a gestão da previdência de servidores e pensionistas no estado- fizeram uma visita ao Master para verificação de garantia financeira (lastro) e da capacidade de o banco honrar seus compromissos.
A Amazonprev investiu R$ 50 milhões em letras financeiras emitidas pelo banco de Daniel Vorcaro, negócio concretizado no ano anterior, em 6 de junho de 2024.
No momento da diligência, em maio de 2025, o Master já enfrentava uma crise de credibilidade, em razão das informações sobre o passivo acumulado e de suspeitas sobre irregularidades em suas operações financeiras.
O BRB (Banco de Brasília), uma instituição pública do DF, tentava comprar parte do Master, o que foi vetado pelo Banco Central em setembro. A liquidação pelo BC (Banco Central) se deu em novembro.
Entre os gestores da Amazonprev que participaram da reunião estava o presidente da fundação, Francisco Evilasio. Ele havia sido nomeado três semanas antes para o cargo pelo governador do Amazonas, Wilson Lima (União Brasil).
Evilasio é irmão do ex-senador Alfredo Nascimento, que preside o PL no Amazonas, segundo reportagens publicadas pela imprensa no estado.
“A reunião teve início com uma apresentação da estrutura do Banco Master, incluindo sua evolução no segmento institucional e os avanços na governança e atendimento aos RPPS”, registra o relatório da diligência feita pela Amazonprev, um documento que está publicado no site da fundação. RPPS é regime próprio de previdência, como no caso de servidores municipais e estaduais.
As letras financeiras do Master -títulos de renda fixa, a longo prazo, sem cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos)- miraram especialmente fundações públicas que administram a aposentadoria de servidores em estados e municípios. Essas letras não eram atrativas a investidores privados, segundo a PF, o que levantou suspeitas sobre riscos e liquidez, conforme a polícia.
Dos R$ 2,3 bilhões em letras financeiras emitidas pelo Master e descritas em relatório da PF, R$ 1,87 bilhão foi adquirido por fundos de regimes próprios de previdência, conforme a polícia.
Na reunião com a Amazonprev, o valor citado é bem superior. “A equipe do banco respondeu a questionamentos sobre a estrutura do passivo e governança: captação superior a R$ 5 bilhões via LFs [letras financeiras] nos últimos anos.”
Não há uma explicação para a discrepância de valores, se a menção pode ter sido de um dado inflado ou se há ativos que não foram detectados pela PF até novembro, quando houve a liquidação do banco.
“O Banco Master apresentou a letra financeira como um instrumento de captação de longo prazo, voltado para investidores institucionais, especialmente RPPS”, registra o relatório de diligência, que não informa quais representantes do Master estavam presentes. O pedido feito foi para que estivessem presentes na reunião representantes de áreas de gestão e de compliance.
Aportes de R$ 390 milhões da Amazonprev em letras financeiras do Master e de mais três instituições privadas são investigados pela PF.
Segundo a polícia, há suspeita de pagamento de propina a três gestores da Amazonprev -no valor total de R$ 620,1 mil, no mesmo período dos aportes feitos nas letras financeiras- e de desrespeito a determinações do comitê de investimentos.
No último dia 6, a PF fez uma operação para aprofundamento das investigações, com o cumprimento de sete mandados de busca e apreensão. Servidores da Amazonprev foram afastados do cargo por, pelo menos, 90 dias.
A defesa de Vorcaro afirmou que não se manifestará sobre o relatório de diligência elaborado pela Amazonprev. A defesa do ex-banqueiro, que foi preso pela segunda vez no último dia 4, também disse que não se manifestará sobre as suspeitas relacionadas aos aportes feitos pela Amazonprev.
O Banco Central, responsável pela liquidação do Master, não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem, por email, na segunda-feira (16), às 18h43.
A Amazonprev também não respondeu aos questionamentos, enviados por email nesta segunda, às 18h54, e reiterados nesta quinta (19), às 12h02. O presidente da fundação não respondeu a mensagens enviadas por WhatsApp na tarde desta quinta nem atendeu às ligações.
Sobre a investigação da PF, a fundação do governo do Amazonas já havia dito que colabora com a polícia e que houve afastamento de dois servidores efetivos que são investigados; o terceiro citado era comissionado e não integra mais os quadros da fundação, segundo o órgão.
O Master apresentou detalhes sobre as letras financeiras ofertadas, como prazo mínimo de cinco anos, “forte aderência entre investidores institucionais” e “taxas competitivas”. Segundo o banco, existia naquele momento um “passivo bem gerenciado” e uma captação total de R$ 20 bilhões em 2024.
O relatório aponta que o banco tinha expectativa de rápida aprovação da compra pelo BRB, o que garantiria “reforço reputacional e de caixa”. “Processo bem-visto pelo Banco Central e reguladores”, anota o documento, em relação a posições expressas pelo Master.
“Espera-se que o banco honre com os compromissos de curto prazo”, afirma a Amazonprev no relatório. “O nível de risco de crédito elevado é preocupação de todo o mercado financeiro, dado o risco sistemático das operações.”
A PF, na investigação que resultou na primeira prisão de Vorcaro, em novembro, usou dados do Ministério da Previdência Social e de análise de balanços do Master -o recorte foi até 2024- para chegar ao volume de letras financeiras emitidas pelo banco.
A polícia citou os aportes feitos pela Rioprevidência, do governo do Rio, que fez investimentos de R$ 970 milhões em letras do Master, e pela Amprev (Amapá Previdência), que adquiriu títulos no valor de R$ 400 milhões. Os dois aportes são investigados em inquéritos distintos pela PF e foram alvos de operações policiais neste ano.
“Quando praticamente toda a emissão de letras financeiras de um banco de médio porte é absorvida por um mesmo tipo de um investidor institucional, isso pode indicar que outros agentes de mercado rejeitaram a operação por considerarem o risco excessivo”, disse a PF.
“Em caso de quebra, os detentores de letras financeiras subordinadas só seriam ressarcidos após o pagamento dos demais credores”, completou.
Conforme dados estatísticos tornados públicos pelo Banco Central, o estoque no Master de letras financeiras e de letras financeiras subordinadas -que são jogadas para o final da fila em caso de dissolução do banco- era de R$ 3,1 bilhões em 2024.