O que é 'moharebeh', motivo do Irã para executar atleta por enforcamento

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SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS) – O Irã executou nesta quinta-feira (19), na cidade de Qom, três homens acusados de “moharebeh”, delito previsto na legislação iraniana. Entre os mortos está o lutador Saleh Mohammadi, 19, integrante da seleção nacional de wrestling do país.

Mohammadi foi enforcado junto com Mehdi Ghasemi e Saeed Davoudi após serem condenados pelo crime de “guerra contra Deus”. As execuções estão ligadas ao suposto envolvimento deles na morte de policiais durante protestos ocorridos no início do ano.

Delito é conhecido no sistema jurídico iraniano como moharebeh. Na legislação iraniana baseada na sharia (lei islâmica), moharebeh significa literalmente “guerra contra Deus”.

O crime é aberto à interpretação. “A acusação depende de um juiz acreditar que uma guerra está sendo travada contra Deus”, explicou Amir Azimi, editor-chefe do serviço persa da BBC, em uma reportagem do veículo britânico de 2022. A reportagem explica que moharebeh pode significar sacar uma arma com a intenção de atentar contra a vida, a propriedade ou a honra de pessoas ou intimidá-las, de modo a causar insegurança no ambiente, segundo o artigo 279 do Código Penal Islâmico.

O Irã começou a aplicar a lei após a Revolução Iraniana de 1979. Com a revolução, a lei iraniana começou a mudar de sua base secular para a sharia (lei islâmica). A regra funciona como um código de conduta para os muçulmanos, disse Azimi, à BBC.

A acusação é aplicada a pessoas que, segundo as autoridades, usam violência ou armas para intimidar a população ou ameaçar a segurança pública. Por ser um conceito amplo, críticos afirmam que o crime tem sido usado pelo regime contra manifestantes e opositores políticos. A punição pode incluir a pena de morte.

AS CONDENAÇÕES

Grupos de direitos humanos afirmam que os três foram condenados em processos considerados injustos. “Os três foram condenados à morte após um julgamento injusto, baseado em confissões obtidas sob tortura”, afirmou a ONG Iran Human Rights, em nota.

Caso do jovem lutador chama atenção internacional. A execução de Saleh Mohammadi gerou preocupação especial por envolver um atleta jovem que já havia representado o país em competições internacionais. O lutador completou 19 anos enquanto estava preso.

De acordo com a Anistia Internacional, o atleta teria sido privado de defesa adequada durante o processo. A organização afirmou que ele foi forçado a fazer “confissões” em procedimentos acelerados que “não se assemelhavam a um julgamento significativo”.

Ativistas também denunciaram que o processo ignorou alegações de tortura. Segundo o Centro para Direitos Humanos do Irã, Mohammadi disse ao tribunal que suas confissões foram extraídas sob tortura. Mesmo assim, a corte determinou a execução pública.

O Centro para Direitos Humanos no Irã criticou duramente a decisão das autoridades. “Executar esses jovens manifestantes em público, após julgamentos simulados baseados em tortura e confissões forçadas, é um assassinato sancionado pelo Estado projetado para aterrorizar a população e enviar uma mensagem clara: qualquer ato de dissidência será punido com a morte”, afirmou a organização.

PRESSÃO INTERNACIONAL E CRÍTICAS AO REGIME

A morte do atleta também provocou reação de ativistas e especialistas ligados ao esporte. Para o ativista de direitos humanos e atleta iraniano Nima Far, a execução tem forte motivação política.

“Essa execução foi um assassinato político flagrante, parte do padrão da República Islâmica de atacar atletas para esmagar a dissidência e aterrorizar a sociedade”, disse Nima Far, ativista e atleta, à Fox News.

Far defendeu que organizações esportivas internacionais adotem medidas mais duras contra o país. Segundo ele, o Comitê Olímpico Internacional e entidades do wrestling deveriam ter adotado uma postura mais firme diante do caso.

Especialistas também defendem um boicote esportivo ao regime iraniano. Alizreza Nader, analista da situação política do país, afirmou que o governo precisa sofrer consequências internacionais. “Deveria haver um boicote ao regime quando se trata de esportes internacionais. Mas o regime precisa pagar um preço alto por executar jovens como esse. É preciso haver um efeito dissuasório”, disse à Fox News.

Temor de novas execuções. Organizações de direitos humanos alertam que a execução dos três manifestantes pode marcar o início de uma nova onda de mortes ligadas aos protestos. Segundo o Centro para Direitos Humanos no Irã, dezenas de outros manifestantes já receberam sentenças de morte e correm risco de execução. Entre eles estão inclusive adolescentes.

Entidade afirma que a situação pode se agravar devido ao contexto de guerra e repressão política. “O Irã enfrenta o risco de uma crise catastrófica de direitos humanos: milhares de pessoas presas durante os protestos de janeiro e no contexto da guerra correm sério risco de receber sentenças de morte, e dezenas que já foram condenadas podem ser executadas a qualquer momento”, alertou a organização.

Relatórios de entidades de direitos humanos apontam que o Irã ocupa a segunda posição global em número de execuções, ficando atrás apenas da China. Levantamento da organização Iran Human Rights indica que pelo menos 1.500 pessoas foram enforcadas no país em 2025.

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