Importação de combustível despenca, e ANP vê 'situação excepcional de risco'

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Em nota técnica que justificou medidas para aumentar a oferta de combustíveis no país, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis) diz que o mercado brasileiro passa hoje por “situação excepcional de risco”.

O cenário é fruto, principalmente, da retração das importações após o início da guerra no Irã, que jogou pressão sobre os estoques existentes no país e sobre a Petrobras, principal fornecedora do mercado interno.

Nos primeiros 17 dias de março, diz a agência, o volume de combustíveis importado caiu quase 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. O Brasil depende de importações para abastecer cerca de 30% do consumo de diesel e cerca de 10% do consumo de gasolina.

“O aumento do preço internacional, associado ao risco logístico na região do golfo, reduziu a competitividade econômica do diesel importado e deslocou maior pressão de demanda para o produto nacional”, diz o texto.

Com menor importação, empresas que tinham estoques de produtos passaram a perceber grande elevação nos pedidos de postos que dependiam de combustível importado.

Essas empresas decidiram privilegiar seus clientes com contratos estabelecidos, gerando percepção de falta de combustíveis em algumas regiões. A escassez levou também a aumento de preços dos produtos, mesmo antes de reajuste da Petrobras.

A Petrobras, por sua vez, já vinha adotando uma estratégia de reduzir aprovações de pedidos de distribuidoras, direcionando diesel e gasolina importados para leilões com preços maiores, o que teve impacto nos estoques do setor privado.

Os dados da ANP apontam que, no primeiro trimestre, a estatal aprovou volumes menores de gasolina e diesel em relação ao mesmo período do ano anterior. A exceção é o diesel S-10, que teve volume maior durante os três primeiros meses do ano.

A ANP destaca, porém, que os volumes que não foram vendidos em contratos passaram a ser oferecidos ao mercado em leilões. A estratégia tem impacto sobre o preço final do produto, mas não necessariamente sobre a oferta.

Nesta semana, a estatal cancelou leilões de gasolina e diesel para entrega em abril, o que levou distribuidoras a enviar cartas ao governo alertando para o risco de falta de produtos.

Para a ANP, o mercado passa por um momento de desequilíbrio de estoques, com pouco volume na ponta (distribuidoras e postos) e maiores volumes com produtores. “A Petrobras manteve estoques acima do estoque regulatório ao mesmo tempo em que praticamente todos os grandes clientes demandavam volume adicional”, diz a nota técnica.

O cenário de risco, conclui o texto, é provocado por retração relevante da oferta importada, pressão sobre a demanda interna, desequilíbrio entre os estoques, expansão geográfica dos relatos de dificuldade de acesso ao produto e início de pressão também sobre a gasolina.

Nesta quinta-feira (20), a ANP determinou que a Petrobras realize os leilões e implementou medidas de monitoramento do abastecimento, solicitando de grandes empresas do setor informações sobre estoques e programação de importações.

Autorizou ainda o uso de estoques regulatórios que estão em mãos de refinarias e distribuidoras para suprir o mercado.

As medidas se somam ao pacote do governo para tentar minimizar o impacto ao consumidor, com isenção de impostos federais sobre o diesel e uma subvenção de R$ 0,32 para empresas que venderem o produto com preço menor do que um valor estipulado pelo próprio governo.

Distribuidoras e importadores privados, porém, defendem que a normalização do abastecimento depende de aproximação entre os preços internos e as cotações internacionais, hoje inflacionadas pelo conflito no Oriente Médio.

O preço do diesel nas refinarias da Petrobras custa hoje R$ 2,68 por litro a menos do que a paridade de importação medida pela Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis). O valor é muito maior do que a subvenção de R$ 0,32 por litro criada pelo governo para compensar prejuízos com a importação.

Em nota divulgada nesta sexta, seis entidades que representam empresas do setor reforçaram que as incertezas sobre os preços geram riscos de desabastecimento no mercado nacional.

“Parte relevante do abastecimento nacional também vem de refinarias privadas e de importadores, os quais, diferentemente da Petrobras, não atuam na extração de petróleo no Brasil e praticam preços sempre de acordo com as referências internacionais”, escreveram.

A Petrobras disse em nota na quinta que “continua entregando ao mercado todo o volume de combustíveis produzidos em suas refinarias, que estão operando em carga máxima” e que tem fornecido volumes “cerca de 15% superiores aos montantes acordados no início do mês”.

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