SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O aviso “Desculpe, indisponível no momento” tem sido cada vez mais usado em unidades do GPA (Grupo Pão de Açúcar) desde que o quinto maior grupo de varejo alimentício do país entrou em recuperação extrajudicial, no último dia 11, anunciando dívidas de R$ 4,5 bilhões. Segundo verificou a Folha, tem faltado produto em loja, o que o varejo chama de “ruptura em ponto de venda”.
Desde que as dificuldades financeiras da empresa vieram à tona, mais fornecedores estão receosos em fazer negócios com o grupo. Parte deles decidiu diminuir o volume vendido à rede. Há quem reclame que o pagamento deste mês atrasou e há quem já tenha desistido de vender no Pão de Açúcar, por causa dos altos descontos exigidos na negociação.
A reportagem entrevistou dez grandes fornecedores da rede, cada um com faturamento acima de R$ 300 milhões ao ano, e que pertencem a diferentes categorias –alimentos, bebidas, higiene e limpeza. Destes, quatro enfrentam problemas com a varejista.
O resultado são lojas com abastecimento abaixo do normal e diversas prateleiras esvaziadas, que envolvem fornecedores além dos ouvidos pela reportagem. A Folha visitou 11 lojas em São Paulo, dos formatos supermercado Pão de Açúcar, Minuto Pão de Açúcar, Mini Extra e Extra Mercado, em todas as regiões da cidade (zonas norte, leste, sul, oeste e centro).
Em seis das 11 lojas havia diversas frentes de gôndola vazias, especialmente no supermercado Pão de Açúcar, algo incomum para uma bandeira que se apresenta como voltada à classe A.
“Falta de produto em loja começa a abalar a confiança do consumidor, algo que pode se tornar crítico no mundo do varejo alimentar”, diz o consultor Eugênio Foganholo, da Mixxer Desenvolvimento Empresarial. “Tem algumas coisas que o consumidor substitui, mas na maioria dos casos ele deseja uma marca específica.”
Foganholo lembra que o público não costuma fazer a compra do mês no Pão de Açúcar, Minuto ou Mini Extra. “As pessoas vão com uma listinha de dez itens, talvez, para uma compra de reposição, do que está faltando em casa, uma compra de emergência. Nesses casos, o consumidor fica ainda mais sensível à ruptura no ponto de venda.”
Questionado, o GPA afirmou seguir “operando normalmente e realizando avaliações contínuas de seu mix de produtos, sem qualquer alteração que comprometa o abastecimento das lojas e o atendimento aos clientes”.
A empresa afirma manter “uma relação próxima e transparente com seus fornecedores, aliada a uma gestão rigorosa de pagamentos, sem registros de atrasos ou inadimplência”. Segundo o GPA, este diálogo foi intensificado desde o anúncio da recuperação extrajudicial, e estão sendo feitos ajustes pontuais, sem impacto no fluxo operacional ou no abastecimento estrutural das lojas.
A Folha apurou, no entanto, que a negociação com os fornecedores tem sido difícil. Segundo uma pessoa próxima do comando da companhia, especialmente as multinacionais têm determinado que as filiais diminuam os volumes vendidos à rede.
Isso porque uma recuperação extrajudicial –que no caso do GPA foi fechada apenas com uma parte dos credores, os bancos, e não envolve parceiros comerciais ou funcionários– é uma alternativa que no exterior acaba sendo confundida com a recuperação judicial, que gera maior temor de calote.
Mas o receio também parte de fornecedores locais, apurou a reportagem. Embora a maioria não tenha enfrentado atraso no pagamento, alguns preferem cancelar pedidos e diminuir o volume vendido para se certificar de que o Pão de Açúcar tenha capacidade de cumprir seus compromissos.
Um dos fornecedores ouvidos viu seu pagamento atrasar neste mês e, embora tenha sido pago na última quinta (19), decidiu só voltar a fornecer à empresa depois que ela fizer o próximo pagamento, no início de abril.
Algumas negociações com fornecedores de lácteos refrigerados têm sido mais duras -daí a falha no abastecimento desta categoria em várias lojas. A rede está buscando alternativas, mas não se trata de uma categoria fácil. Por ser perecível e necessitar de refrigeração constante, os próprios fornecedores levam o produto até as lojas (nos demais produtos, os fornecedores costumam entregar a carga no centro de distribuição). Com isso, se a negociação não avança, não há estoque e a loja fica desabastecida.
A necessidade de ter mais dinheiro em caixa para assumir os compromissos tem levado o GPA a abrir mão da curadoria da adega, um dos seus pontos fortes. Em vez de importar diretamente os vinhos e espumantes, a rede tem partido para fornecedores locais e distribuidores, a fim de não se comprometer com altos volumes e evitar o pagamento à vista.
Ao mesmo tempo, o grupo está reforçando a marca Qualitá, negócio no qual obtém maior margem. Com isso, os fornecedores da marca própria também são beneficiados com melhores condições: um deles terá metade do pagamento de abril adiantado, com desconto inferior a 2% do valor a receber, numa tentativa da empresa de valorizar a parceria.
“O desafio para o GPA é o quanto de pressão por descontos o grupo vai colocar na negociação. Alguns fornecedores não vão aceitar e vão sair, outros vão diminuir volumes e procurar alternativas”, diz Foganholo. “Ao mesmo tempo, a empresa pode, deliberadamente, deixar alguns fornecedores e aumentar seu poder de barganha com outros, da mesma categoria.”
As recentes mudanças na alta cúpula do GPA também causaram ruídos entre os fornecedores. Neste mês, o grupo destituiu a maior parte da diretoria, composta atualmente apenas pelo CEO, Alexandre Santoro, e pelo principal executivo de finanças e relações com investidores, Pedro Albuquerque.
Na reestruturação proposta por Santoro, que chegou à empresa em janeiro, foram dispensados Joaquim Souza, vice-presidente comercial, de marketing e logística, Geraldo Monteiro, diretor de operações, Erika Petri, diretora de recursos humanos e sustentabilidade, e Rodrigo Poço, chefe da área digital. O Pão de Açúcar informou que está em busca de novos quadros, mas não disse quando as vagas serão preenchidas.
RAIO-X | GRUPO PÃO DE AÇÚCAR
Fundação: 1959
Sede: São Paulo (SP)
Funcionários: 37 mil
Bandeiras: Pão de Açúcar Supermercados, Extra Mercado, Mini Extra, Minuto Pão de Açúcar
Lojas: 728, em 11 estados e no Distrito Federal
Concorrentes: Carrefour, Assaí, Grupo Mateus, Supermercados BH
Faturamento em 2025: R$ 20,6 bilhões