Duração da queda de juros será decidida com o tempo diante de incerteza com guerra, diz Copom

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Diante da incerteza provocada pela guerra no Irã, a duração e a intensidade do ciclo de queda de juros serão decididas pelo Copom (Comitê de Política Monetária) ao longo do tempo, mostra ata divulgada pelo Banco Central nesta terça-feira (24).

Sem sinalizar seus passos futuros, o colegiado do BC deixou a próxima decisão em aberto. A ideia do Copom é ter mais clareza da profundidade e da extensão do conflito no Oriente Médio antes de definir quais serão os movimentos seguintes. A próxima reunião está marcada para 28 e 29 de abril.

“O Comitê estabeleceu que a magnitude e a duração do ciclo de calibração serão determinadas ao longo do tempo, à medida que novas informações forem incorporadas às suas análises”, afirmou.

“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras”, acrescentou.

O Copom iniciou na última quarta-feira (18) o ciclo de queda de juros e reduziu a taxa básica (Selic) em 0,25 ponto percentual, de 15% para 14,75% ao ano. Em ata, ressaltou os efeitos dos juros altos sobre a atividade econômica e sobre a inflação para justificar o primeiro corte.

“O comitê analisou as opções para o ritmo de início do ciclo de calibração da taxa básica de juros, concluindo que nesse momento a redução de 0,25% é a mais adequada”, afirmou. Segundo o colegiado, essa “calibração” da política de juros manteria a Selic em um nível alto o suficiente para seguir contraindo a economia, de forma a manter o compromisso de levar a inflação em direção à meta.

Esse foi o primeiro corte da Selic em quase dois anos e o primeiro da gestão de Gabriel Galípolo no Banco Central. A última queda tinha sido registrada em maio de 2024, quando Roberto Campos Neto ainda era presidente da autoridade monetária.

Na ata, o Copom enfatizou que a incerteza com relação ao cenário externo se elevou consideravelmente. No dia da reunião, o barril do petróleo chegou a ultrapassar os US$ 110. “Além do agravamento das tensões geopolíticas, novas incertezas com relação à política econômica dos Estados Unidos colaboraram para tornar esse cenário ainda mais incerto”, complementou.

Ao analisar a trajetória da inflação, o colegiado observou que, até o início do conflito no Oriente Médio, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) mostrava “algum arrefecimento”.

O alívio no câmbio e nos preços das commodities contribuía para reduzir a inflação de bens industrializados e alimentos. Além disso, a inflação de serviços também perdia força, ainda que de forma mais lenta devido ao dinamismo do mercado de trabalho e da moderação gradual da atividade econômica.

Destacou que, no entanto, as expectativas de inflação voltaram a subir depois do início da guerra no Irã, permanecendo acima da meta de 3% no curto e no longo prazo. Os dias que antecederam a decisão do Copom foram marcados por mudanças nas projeções do mercado e forte estresse nos juros futuros.

No cenário de referência do próprio comitê, a estimativa de inflação para este ano saltou de 3,4% para 3,9%. Para o terceiro trimestre de 2027, a projeção subiu de 3,2% para 3,3%. Esse é o prazo na mira do comitê devido aos efeitos defasados da política de juros sobre a economia.

O alvo central do BC é 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No modelo de meta contínua, o objetivo é considerado descumprido quando a inflação acumulada permanece durante seis meses seguidos fora do intervalo, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto).

Para conter a alta de preços de combustíveis, diante do risco para inflação em ano eleitoral, o governo Lula zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano, ao custo de R$ 20 bilhões. Também autorizou um subsídio de até R$ 10 bilhões para bancar parte do preço do diesel.

Na ata, o Copom manteve o tom sobre a trajetória das contas públicas, repetindo ter convicção de que as políticas devem ser ” previsíveis” e “críveis”. “Uma política fiscal que […] contribua para a redução do prêmio de risco [rentabilidade adicional cobrada pelos investidores no Brasil] favorece a convergência da inflação à meta”, disse.

“O comitê manteve a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia [que não estimula nem desestimula a economia], com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade.”

Para Caio Megale, economista-chefe da XP e ex-assessor no Ministério da Economia, o Copom manteve aberta a possibilidade de uma aceleração no ritmo de corte de juros, caso o conflito no Oriente Médio perca intensidade.

“A pressão inflacionária, que provavelmente decorrerá de custos mais elevados de energia, não parece alterar de forma significativa o plano de voo do Copom, ao menos até o momento”, afirmou em nota.

Para as próximas reuniões, a XP projeta cortes de 0,5 ponto percentual, até levar a Selic a 12,75% ao ano. Na sequência, prevê uma pausa para avaliação mais detalhada do período eleitoral e da política fiscal à frente.

No entanto, não descarta uma piora no cenário inflacionário. “Assim, a calibragem monetária à frente pode acabar sendo menos intensa do que atualmente esperamos. O monitoramento dos preços do petróleo, da taxa de câmbio e, particularmente, das expectativas de inflação será fundamental nas próximas semanas”, disse Megale.

Em relação à economia doméstica, o comitê destacou que o resultado do PIB [Produto Interno Bruto] do último trimestre de 2025 evidenciou a desaceleração da atividade, conforme esperado. A economia brasileira fechou o acumulado do ano com crescimento de 2,3%, menor taxa em cinco anos.

Para o primeiro trimestre de 2026, afirmou que os indicadores sinalizam que haverá uma retomada da economia. “Este movimento é consistente com projeções e expectativas de uma variação positiva do PIB em 2026, ainda que menor que em 2025”, disse o Copom.

O mercado de trabalho continua sendo um ponto de atenção para os membros do colegiado. O Copom observa que a taxa de desemprego se mantém em patamares historicamente baixos, enquanto os rendimentos reais médios apresentam tendência de alta acima do crescimento da produtividade do trabalho.

A taxa de desemprego fechou 2025 com a menor média anual da série histórica em 19 estados e no Distrito Federal, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

“O Comitê segue atento ao debate sobre as dimensões corrente e estrutural do mercado de trabalho, enfatizando a necessidade do aprofundamento dessa análise para a avaliação dos padrões de transmissão dos níveis de ocupação para os rendimentos do trabalho e, finalmente, para os preços dos diversos setores da economia”, disse.

Para o Itaú, a ata sugere que apenas as opções de corte de 0,25 ponto percentual ou de 0,50 ponto percentual estavam sobre a mesa do Copom. Na visão do banco, apesar da turbulência global, as autoridades continuam confiantes na capacidade de ajustes nos juros.

“Embora destaque que o processo de desinflação perdeu tração nas leituras mais recentes, o Copom também afirma que uma possível (provável) reaceleração da atividade econômica no 1T26 [primeiro trimestre de 2026] não implicará em uma grande mudança em seu cenário atual”, afirma em relatório.

Para abril, o Itaú projeta um corte de 0,5 ponto percentual, o que reduziria a Selic a 14,25% ao ano. O banco espera a divulgação do relatório de política monetária, na próxima quinta (26), para decidir se vai revisar seu cenário de projeções. Hoje, estima que a taxa básica termine 2026 em 12,25% ao ano.

Voltar ao topo