Sem concorrência, Re.green leva primeiro leilão federal de reflorestamento com venda de créditos de carbono

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Re.green foi a única companhia desenvolvedora de crédito de carbono a participar do primeiro leilão federal de restauro florestal, realizado nesta quarta-feira (25) na B3, em São Paulo.

A empresa ficará responsável por restaurar cerca de 59 mil hectares da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho (RO), durante 40 anos. A área concedida representa apenas um dos dois lotes ofertados no certame -o outro, de 39,27 mil hectares, não recebeu ofertas.

Em troca, a empresa venderá cerca de 1,5 milhão de créditos de carbono -um crédito equivale a uma tonelada de carbono absorvida da atmosfera.

O lance proposto pela Re.green atingiu os valores máximos nos critérios técnicos do edital e, na outorga variável, ficou pouco acima do piso estipulado, em 0,7% -o mínimo era 0,69%. A outorga é a fatia da receita bruta da desenvolvedora que precisará ser repassada ao governo federal, que manterá a titularidade da terra.

A desenvolvedora ainda será criada, sob regime de Sociedade de Propósito Específico. Valores fixos não foram divulgados, mas a estimativa é que o total do investimento, somado com a área que não foi leiloada, fique em mais de R$ 2 milhões para cada um dos 40 anos de vigência da concessão.

A falta de concorrência frustra expectativas do governo federal em relação ao mercado de carbono voluntário.

No ano passado, a concessão da floresta de Bom Futuro para desenvolvedoras de crédito de carbono era vista dentro do setor como um dos eventos mais aguardados, já que contaria pela primeira vez com o respaldo da União.

Em março do ano passado, o governo do Pará também organizou um leilão para restauro da Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu (URTX), na cidade de Altamira. Assim como no certame organizado pelo governo federal, apenas uma empresa participou da disputa.

A ministra Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), presente no evento, elogiou o modelo de concessão e afirmou que considera o leilão um sucesso.

“É uma proposta inédita que está sendo implementada. Somos um país com uma cultura secular extrativista, e aqui estamos restaurando, e o fruto da restauração vai ser o retorno financeiro”, disse ela em entrevista coletiva.

O ineditismo é, na visão dela e de Garo Batmanian, diretor-geral do SFB (Serviço Florestal Brasileiro), a principal causa para a falta de concorrência. Marina ressaltou que o início das concessões florestais, em 2006, também foi marcado por baixo interesse e que agora, 20 anos depois, o modelo “já se firmou”.

Há ainda o que ela chama de “medo conjuntural”: por se tratar de um setor incipiente, o temor é que falte fôlego ou interesse público para sustentá-lo no longo prazo.

“O medo conjuntural é: isso vai continuar? Vai continuar tendo apoio financeiro? Vai continuar tendo segurança para a área não ser invadida? Ninguém quer fazer um investimento de 40 anos para que, daqui a oito meses, tudo vá por terra abaixo”, disse ela, em alusão às eleições para Presidência.

“Falta uma visão estratégica em relação a algo que é tão importante, que tem tantas sinergias com clima, biodiversidade, comunidade, recursos hídricos. Falta ver isso como um ponto pacífico que independe de ideologia. As pessoas têm inseguranças. Isso é um fator psicológico no processo, não uma insegurança objetiva”, complementou.

Para Batmanian, poucas empresas no país são especializadas em restauração e integram o mercado de crédito de carbono -o que também pode explicar a falta de concorrência. Ele afirma que “a maioria é startup”, inclusive a Re.green, e “não há nenhuma grande empresa no Brasil que trabalhe nisso”.

O CEO da Re.green, Thiago Picolo, afirma que, antes de disputar a concessão, a empresa se reuniu com grandes compradoras de créditos de carbono, acionistas e consultorias. O retorno desses contatos deu segurança para que a companhia seguisse com a operação.

“Além do ineditismo, tem a complexidade de um projeto como esse. É um investimento com muitas variáveis. Mas nós somos uma empresa bem capitalizada, então isso permite que nos dediquemos intensamente”, afirma ele.

Um dos desafios, por exemplo, é que parte da Floresta Nacional do Bom Futuro foi desmatada por ação ilegal. A recuperação desses trechos vai exigir mais esforços em infraestrutura do que a companhia está acostumada a lidar.

“Esperamos criar a receita de bolo para que outras empresas entrem nessas concessões com mais facilidade daqui para frente”, disse Picolo.

A Re.green tem o bilionário João Moreira Salles entre seus cofundadores e Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, no conselho. Picolo foi CEO do Hortifruti Natural da Terra e do Grupo Technos, da indústria de relógios.

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