[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Os bancos centrais mundo afora fazem o que podem, mas os sucessivos choques globais dificultam o controle da inflação e prejudicam a “percepção de bem-estar” da população, diz o presidente do BC brasileiro, Gabriel Galípolo. Ao divulgar o Relatório de Política Monetária do primeiro trimestre, ele afirmou que o país está em situação um pouco mais confortável devido ao conservadorismo praticado pelo BC ao longo do ano passado, elevando e mantendo os juros em 15%. “Porque nos permite ter uma gordura para analisar desdobramentos.” Segundo Galípolo, o cenário atual pede “tempo para entender”. Para ele, quem criticou o BC por não ter levado a Selic a 20% pode agora estar criticando por não cortar a taxa (agora em 14,75%) tão rápido. “A função de quem está do lado de cá é botar a bola no chão.”
Ele citou quatro choques de oferta: pandemia, guerra Rússia-Ucrânia, tarifaço norte-americano e o recente conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, de consequências ainda imprevisíveis. “A minha explicação favorita é passamos por esses quatro choques e nós somos focados em inflação”, afirmou. “Mas cidadão é nível de preço. Sabe pouco de IPCA, de núcleos, mas sabe quanto custa o leite, a carne.” Dessa forma, o orçamento familiar é seguidamente atingido pelos choques externos, ainda que a inflação esteja relativamente controlada. E o há o que o presidente do BC chama de desconforto econômico.
Além disso, como aponta o relatório divulgado nesta quinta-feira (26), as condições de crédito estão mais restritivas, “em linha com o aperto monetário implementado”. Após a apresentação do documento, em entrevista coletiva, Galípolo disse que a maioria da população acessa o mercado de crédito por linhas mais caras, emergenciais. Ele chamou de “punitivos” os juros do rotativo do cartão de crédito (acima de 400% ao ano). São 101 milhões de usuários de cartão, além de 30 milhões acessando o consignado e 49 milhões, o não consignado. “A grande maioria está pagando taxa acima de 100% [ao ano] nas linhas de crédito emergencial”, afirmou. Para o presidente do BC, isso exige “uma discussão estrutural desse arranjo”.
INADIMPLÊNCIA – O crédito mais caro, acrescentou, só deveria ser usado em situações emergenciais. Por outro lado, na visão de Galípolo, a maior parte das pessoas que acessa esse mercado só se considera endividada caso tenha alguma parcela em atraso. “A gente tem um arranjo que envolve o crédito emergencial e o rotativo que às vezes dá incentivos que não são os melhores”, afirmou. O presidente do BC disse ainda que a própria autoridade monetária teve essa preocupação quando lançou o Pix parcelado – sobre o uso com moderação. Agora, a preocupação é com uma possível utilização “excessiva e inadequada”. E um dilema: informar ou não a renda disponível?
No primeiro caso, o usuário pode achar que dispõe de toda aquela renda, sem ponderar os riscos. No segundo, pode ser pego de surpresa com uma dívida crescente. Para Galípolo, é preciso buscar alternativas “que vão garantir à população que tenha uma escolha que oferece mais vantagens, não cercear e retirar o que ela tem”. A inadimplência no Sistema Financeiro Nacional (SFN) cresceu 1,1 ponto percentual em 2025, atingindo 4%. Mas o BC estima que metade (51%) desse aumento venha de mudanças contábeis determinadas por uma resolução (4.966) do Conselho Monetário Nacional (CMN).
Na apresentação do relatório, o diretor de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, destacou como fator de atenção um mercado de trabalho ainda “resiliente”, com geração “robusta” de empregos formais, apesar da desaceleração. “Esse continua sendo um objeto de atenção bastante grande do comitê, que a gente vai acompanhando”, afirmou, referindo-se ao Comitê de Política Monetária (Copom). O desemprego se encontra no menor nível histórico, mas a produtividade está praticamente estagnada: 0,9% de 2019 a 2015, e 0,2% sem a agropecuária. A mistura de aumentos salariais com falta de produtividade resulta, segundo Picchetti, em “transmissão de preços”, principalmente no setor de serviços. Para este ano, o BC projeta PIB de 1,6% (2,3% em 2025) e IPCA de 3,9% (4,26%). “Existe uma melhoria na percepção do fiscal, mas a gente ainda tem uma trajetória de crescimento da dívida pública.”
Galípolo também falou sobre o episódio envolvendo o Banco Master, afirmando que o clima é de “consternação” dentro do BC. Existe uma “sensação de luto”, acrescentou. “A ética é um valor muito caro [na instituição].” A governança interna contribuiu para identificar problemas, mas o presidente do BC disse que também é importante atualizar a legislação. E voltou a defender a aprovação da chamada “PEC do BC”, a Proposta de Emenda à Constituição 65/2023, que amplia a autonomia financeira do banco. O projeto tramita no Senado.