No radar do Copom, mercado de trabalho mantém desemprego no menor nível e rendimento recorde

Uma image de notas de 20 reais
Emprego fica estável na indústria e no comércio. Setor de construção tem queda
(Andre Lessa/Agência DC News)
  • Taxa sobe a 5,8% no trimestre, por fatores sazonais. Mas continua abaixo de 2025, com 1,1 milhão de desempregados a menos em um ano
  • Direção do BC chama a atenção para a "resiliência" do mercado de trabalho. Dados do IBGE também mostram queda da informalidade
Por Vitor Nuzzi

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A taxa média de desemprego foi a 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, acima do anterior (5,2%) e perto do esperado pelos analistas (5,7%). Mas continua abaixo de igual período de 2025 (6,8%), mostrando que o mercado de trabalho segue aquecido. A informalidade voltou a cair e o rendimento se manteve em nível recorde, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. O resultado trimestral reflete sazonalidade: desde 2023, a taxa sobe nessa base de comparação. Ainda assim, os 5,8% representam o menor percentual para o período na série histórica da pesquisa, iniciada em 2012. E faz o Banco Central olhar com lupa esse desempenho. Na véspera da divulgação da Pnad, o BC apresentou o relatório de Política Monetária (RPM) do primeiro trimestre. Tanto o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, como o diretor Paulo Picchetti, destacaram a “resiliência” do mercado de trabalho. É um dos fatores que levam o Copom a pregar cautela na política de juros.

“Para o Copom, uma eventual desaceleração adicional do mercado de trabalho poderia reforçar o cenário de continuidade de ciclo de cortes da Selic”, afirmou Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP. “Especialmente via aumento do desemprego ou perda de dinamismo da renda.” Por enquanto, segundo Sara, “um mercado de trabalho mais aquecido tende a amplificar efeitos secundários de choques inflacionários”. Assim como o movimento recente – devido ao cenário externo – dos preços do petróleo, “que segue como ponto de atenção para o Banco Central”.

Na Pnad, a taxa de 5,8% corresponde a uma estimativa de 6,2 milhões de desempregados – 599 mil a mais no trimestre (+10,6%) e 1,1 milhão a menos na comparação anual (-14,8%). O total de ocupados, estimado em 102,1 milhões, cai 0,8% no trimestre e sobe 1,5% em 12 meses. Ainda em relação a fevereiro de 2025, o número de empregos com carteira (39,2 milhões) aumenta 1,1%, enquanto o total de sem carteira (13,3 milhões) fica estável (0,1%). Já os trabalhadores por conta própria somam 26,1 milhões, estável no trimestre e com crescimento anual de 3,2%, mostrando alta da formalidade: o total de trabalhadores com CNPJ (7,3 milhões) sobe 10% no ano, enquanto os sem CNPJ, embora majoritários (18,8 milhões), têm variação de 0,7%.

INFORMALIDADE – Segundo o IBGE, a taxa de informalidade caiu para 37,5% dos ocupados, ou 38,3 milhões de trabalhadores. Esse percentual era de 37,7% no trimestre anterior e de 381%, há um ano. A coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do instituto, Adriana Beringuy, disse que a retração trimestral teve influência da construção civil – “Que registra grande contingente de trabalhadores conta própria sem CNPJ” – e em segmento da indústria e da agricultura. Já a maior taxa de desemprego em relação ao trimestre imediatamente anterior tem explicação sazonal, disse a coordenadora.

o trimestre, houve forte redução de postos de trabalho no grupo Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (menos 696 mil pessoas). E, também, na Construção (menos 245 mil pessoas). “Sobretudo nos segmentos de educação e saúde, nos quais parte expressiva dos ocupados é provida por contratos temporários no setor público”, afirmou. “A construção também registra menor demanda das famílias por obras e reparos no início do ano.”

O grupo que inclui administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais teve 696 mil pessoas a menos no trimestre (-3,6%). Em 12 meses, cresce 4,5% (+808 mil). No total, são 18,8 milhões. Com 7,4 milhões, a construção perde 245 mil no trimestre (-3,2%) e fica estável no ano. Por sua vez, o setor de comércio (que abrange reparação de veículos) tem 19,4 milhões de ocupados – estável nas duas comparações. A indústria concentra 13 milhões (também com estabilidade, segundo o IBGE) e a agropecuária, 7,7 milhões (mais uma estabilidade).

“Os números seguem confirmando a nossa expectativa de que o mercado de trabalho seguirá bastante resiliente e robusto”, afirmou a Genial Investimentos. Para os analistas, ao longo de 2026 haverá “arrefecimento bastante gradual”. O que segundo eles, “reflete o descasamento entre as políticas monetária e fiscal”. Além disso, mudanças estruturais (“aplicativos e envelhecimento populacional, por exemplo”) devem manter a taxa do nível considerado neutro (7,7%). A consultoria prevê taxa de 6% no próximo trimestre móvel – e 6,1% na média anual. “Apesar dos dados confirmarem a robustez da ocupação, estes ainda seguem corroborando a continuidade do ciclo de afrouxamento monetário”, afirmaram os analistas da Genial. Eles estimam que o Copom fará novo corte de 0,25 ponto na próxima reunião (em 28 e 29 de abril), “enquanto o conflito no Oriente Médio não tiver uma desescalada mais significativa”.

Estimado em R$ 3.679, o rendimento médio mensal se mantém em nível recorde, de acordo com a Pnad Contínua. Cresce 2% no trimestre e 5,2% em um ano. Segundo Adriana Beringuy, além de grande demanda por mão de obra, a alta da renda segue “tendência de maior formalização em atividades de comercio e serviços”. No setor de comércio, o rendimento médio (R$ 2.976) aumentou 4,1% e 4,6%, respectivamente.

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