São Paulo, 10 de janeiro de 2025 – O mercado financeiro inicia o ano repleto de incertezas, tantodomésticas como no exterior, principalmente sobre o ritmo no corte dos juros nos Estados Unidos.Aqui, mesmo com um comportamento relativamente mais tranquilo, as preocupações fiscais descartamqualquer reação consistente do mercado.
A ata da última reunião do Comitê Geral do Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) – realizadanos dias 18 e 19 de dezembro – mostrou autoridades preocupadas com a persistência da inflação emsua reunião de dezembro, com opiniões variadas sobre onde as taxas de juros poderiam seestabilizar em 2025. Os membros do Fomc enfatizaram que a política de juros não está em umcaminho pré-determinado e precisará evoluir em resposta aos dados e às políticas implementadaspela nova administração.
Durante a semana, vários representantes do Fed se manifstaram. Há preocupação com a inflação,reforçada pelo resultado do payroll, que mostrou um mercado de trabalho aquecido. O mercado tambémdemonstra cautela com o novo governo Donald Trump e teme por uma política comercial protecionista etarifária. Há temor também sobre a inflação e a questão fiscal.
No Brasil, além de esperar um maior comprometimento fiscal do governo, o mercado viu o IPCAestourar a meta. O índice acumulou alta de 4,83%, acima da banda superior da meta de 4,50%. Aindaassim, o mercado não espera que a política sinalizada pelo Copom para a Selic se altere.
No âmbito político, a reforma ministerial teve início com a mudança na Comunicação. O governosinaliza que as mudanças na equipe deverão ser anunciadas e há a expectativa de uma virada maispara o centro, como forma de garantir ao governo apoio no Congresso para suas principais pautas,incluindo a econômica.
Às 13h05 da sexta, o Ibovespa marcava 118.801 pontos, com alta semanal de 0,21%. O dólar comercialapresentava desvalorização semanal de 1,14%, cotado a R$ 6,1117. As taxas DIs para janeiro de 2029abriu a semana remunerando 15,320% ao ano e vão encaminhando o fechamento a 15,245% ao ano.
Na agenda doméstica de indicadores, destaque para o boletim Focus na segunda-feira. Na terça,atenção para os números fechados da Anfavea para o setor automotivo. Na quarta, saem os númerosdo setor de serviços de novembro, às 9h, e o resultado de novembro do Tesouro Nacional, às 14h30.Na quinta-feira, o Banco Central vai divulgar, às 9h, o IBC-Br de novembro. Fechando a semana, nasexta, às 8h, será divulgado o IGP-10 de janeiro.
Política
Um dos pontos da pauta do governo neste início de ano teve início na semana que passou. A reformaministerial foi deflagrada com a mudança no comando da Comunicação: sai Paulo Pimenta e entra opublicitário Sidônio Palmeira. O desafio do novo secretário é mostrar um Executivo mais coeso etentar consertar a fissura entre a equipe econômica e a alta política do PT. Palmeira tem tambémentre suas prioridades procurar destacar os avanços do governo através de mensagens positivas.
O ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, concedeu entrevista à Globonews nesta quinta-feira, econfirmou que o presidente está avaliando mundanças nos ministérios, que devem contemplardeficiências, como a que foi anunciada na comunicação. As mudanças devem ser anunciadas ainda emjaneiro. Anteriormente, se falava em anunciar as alterações apenas depois das eleiçõeslegislativas, em fevereiro.
A intenção do governo é reforçar a sua base aliada e garantir avanços nas pautas junto aoCongresso. A relação terminou 2024 abalada devido às restrições as emendas parlamentares. Entreos desafios de Lula está contemplar o PSD de Kassab e também encaixar alguns ministros maisvoltados ao Centrão. Não se descarta a indicação do atual presidente do Senado, Rodrigo Pacheco,na nova composição dos ministros.
Ao ser questionado sobre a relação entre o governo e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),Flávio Dino, em relação às decisões sobre o pagamento de emendas ao Congresso, Rui Costa disseque não se deve personificar as decisões à pessoa física de Dino e que as mudanças foramnegociadas com as casas legislativas. “Tivemos reuniões para tratar sobre emendas e espero queCongresso atenda o que foi pactuado”, respondeu.
Um exemplo dos problemas que o governo vai ter em 2025 para ter maioria no Congresso foi explicitadonos atos do dia 8 de janeiro. Os presidentes da Câmara e do Senado não estiveram presentes e nemmesmo o presidente do STF. Há realmente um dissidência grande que pode dificultar o avanço deimportantes pontos pendentes, como o orçamento e medidas do pacote fiscal. A preocupação domercado está voltada para a pauta econômica.
A expectativa é de que a reforma avance e que as questões envolvendo as emendas sejam solucionadasaté o dia 21 de janeiro, data em que o presidente Lula deverá fazer a primeira reuniãoministerial do ano. Seria importante que o encontro já contemplasse os novos nomes da equipe.
Internacional
A primeira semana útil do ano trouxe incerteza, por parte do FED, com uma perspectiva maiscautelosa sobre a economia norte-americana. O FOMC vê incertezas sobre caminho dos juros, einflação e a futura presidência norte-americana de Donald Trump são preocupações.
“Dada a elevada incerteza sobre os detalhes relativos ao escopo e ao cronograma das possíveismudanças nas políticas comerciais, de imigração, fiscais e regulatórias, bem como seuspotenciais efeitos sobre a economia, a equipe destacou a dificuldade de selecionar e avaliar aimportância desses fatores para a projeção básica e apresentou uma série de cenáriosalternativos”, diz um trecho da ata do banco.
Trump fez um pronunciamento em sua mansão na Flórida, na qual repetiu propostas já faladasanteriormente, como a da anexação do Canadá, a compra da Groenlândia e a ocupação do canal doPanamá. Os efeitos das falas de Trump já são sentidos: o primeiro-ministro canadense, JustinTrudeau, renunciou ao cargo. Além disso, o país pretende impor tarifas retaliatórias em algunsprodutos importados dos Estados Unidos.
O payroll de dezembro surpreendeu o mercado, com uma criação de vagas de 255 mil, ante previsãode 153 mil. Isso sinaliza que o Fed não deverá reduzir os juros na reunião de janeiro, e que oscortes serão ainda mais espaçados.
Já a China trouxe dados inflacionários preocupantes, mas do ponto de vista da desaceleração. Oíndice de preços ao consumidor de dezembro subiu apenas 0,1% em base anual, o que mostra que oconsumo chinês precisa ser estimulado para que a economia do país volte a crescer como antes dapandemia.
Para a semana que entra, por parte dos EUA, teremos a leitura do Livro Bege, bem como dos índicesde preços ao consumidor e ao produtor, o orçamento do Tesouro, os estoques de petróleo, ospedidos de seguro-desemprego, a construção de novas residências, os preços de importação eexportação, os índices Empire State e do Fed Filadélfia de atividade industrial, vendas novarejo, a confiança das construtoras, a produção industrial e a capacidade instalada.
Do lado da zona do euro, teremos a produção industrial, a balança comercial, o saldo em contacorrente, e a leitura revisada do índice de preços ao consumidor. A Alemanha também traz aleitura revisada do índice de preços ao consumidor. O Reino Unido apresenta os índices de preçosao consumidor e ao produtor, a leitura mensal do PIB, a produção industrial, o saldo da balançacomercial e as vendas no varejo.
O Japão divulga o saldo em conta corrente e o índice de preços ao produtor. A China publica osaldo da balança comercial, o PIB do quarto trimestre, a produção industrial e as vendas novarejo.
Teremos os primeiros relatórios de petróleo do ano, da AIE e da OPEP. Além disso, a OCDE publicaseu documento mensal sobre taxa de desemprego. E começa a temporada de balanços do quartotrimestre, com os resultados da Rio Tinto, Wells Fargo, Goldman Sachs, JP Morgan Chase, Citigroup,UnitedHealth, Morgan Stanley e Bank of America.
Empresas
O ano novo começou para as empresas e investidores, com o mercado em pleno funcionamento e em buscade pistas favoráveis aos investimentos em ações. Nestes primeiros dias de 2025, o mercadofinanceiro divulgou suas apostas para as ações nas carteiras recomendadas e também sinalizoualgumas pistas sobre os pagamentos de dividendos.
Um bom exemplo é a ação da Vale (VALE3). Mesmo após cair 23% em 2024, o pior retorno desde 2015,analistas recomendam ter a ação na carteira em razão dos dividendos que a mineradora devedistribuir em 2025. A expectativa de rendimento de dividendos para este ano é de 9%, o que podefazer valer a pena ter a Vale [na carteira], mesmo com a China demandando pouco, disse DaianeGubert, head de assessoria de investimentos da Melver. “A Vale vai conseguir reverter essepessimismo, se ela conseguir acelerar a geração de caixa dela, é um desafio por causa da baixademanda”, disse a especialista.
Em relatório divulgado neste mês, o Santander Brasil também recomendou as ações da Vale por suasolidez e ser boa pagadora de dividendos. “As ações da empresa são pouco voláteis, com baixoendividamento e que oferecem dividendos como forma de pagamento aos acionistas”, escreveram osanalistas do Santander, que indicaram projeção de dividend yield de 9% e preços médios deminério de ferro de US$ 115 a tonelada para este ano. “Esperamos que a demanda da commodity de altaqualidade continue decente no curto prazo, beneficiando a empresa devido ao incremento do projetoS11D, localizado no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará”.
Na Carteira Dividendos, o Itaú BBA incluiu a Klabin, citando modelo de negócios “resiliente”,relação “marginalmente positiva” com a depreciação do real e valuation “atrativo” (cerca de 7,0xEV/EBITDA)”. Os analistas estão confiantes de que os segmentos de kraftliner e embalagens “devemcontinuar apresentando desempenhos interessantes ao longo de 2025, garantindo uma dinâmica positivade demanda para a empresa” e enxergam um dividend yield para a companhia em torno de 5% em 2025.Para janeiro, as ações recomendadas nesta carteira são Klabin, Marcopolo, ISA Energia, AuraMinerals e Direcional.
O BTG Pactual divulgou as ações que compõem sua Carteira Recomendada de Dividendos de janeiro coma troca de quatro ativos. As ações que deixaram a carteira foram BB Seguridade, Caixa Seguridade,Ambev e CPFL, e as novidades são Banco do Brasil, Tim, Direcional e Marcopolo. A corretora tambémalterou para cima o peso do Itaú (+5%), Eletrobras (+5%) e Klabin (+5%), e para baixo as ações daVale (-5%), Gerdau (-5%) e JBS (-5%).
O Bank of America (BofA) divulgou um relatório sobre as perspectivas de resultados da Cemig para ospróximos trimestres, em que elevou o preço-alvo de R$ 11 para R$ 13, mantendo a classificaçãoneutra para a ação. O banco cita, entre outras projeções, a de rendimento de dividendos deaproximadamente 5,6% neste ano e perspectiva de alta, refletindo resultados recentes de lucros,vendas de ativos e desenvolvimentos regulatórios.
Ainda em relação aos dividendos, a Elos Ayta divulgou um levantamento preliminar que aponta asações que poderão oferecer o melhor dividend yield (DY) em 2025. Por setores, o financeiro lideraa lista, com oito ações, incluindo Bradesco (BBDC3 e BBDC4), Banco do Brasil (BBAS3) e ItaúUnibanco (ITUB3 e ITUB4). O setor elétrico, por sua vez, se destaca pela estabilidade, com ativoscomo Eletrobras (ELET6) e Engie Brasil (EGIE3). Entre os papéis, oito ações projetam DY superiora 10%. A liderança pertence à Log Commercial Properties (LOGG3), com 13,41%, seguida por Copasa(CSMG3) e Odontoprev (ODPV3), ambas acima de 13%.
“O destaque da LOGG3 reflete sua robustez operacional: a empresa, focada em propriedades logísticase comerciais, apresentou crescimento de 26,97% no lucro nos primeiros nove meses de 2024, apesar daqueda de 11,38% no preço de suas ações no ano. Essa desvalorização elevou o potencial do DYprojetado, um reflexo direto do cálculo que usa o preço do papel no último pregão de 2024 comodenominador”, comenta Einar Rivero, CEO da Elos Ayta.
“Além disso, empresas como Cemig (CMIG4), com DY projetado de 11,96%, e Taesa (TAEE11), com 10,75%,reforçam a força do setor elétrico, tradicionalmente um porto seguro para investidores focados emdividendos.
Um ponto central do estudo é o impacto das quedas expressivas nas ações em 2024 sobre o DYprojetado. Com 19 das 28 ações analisadas apresentando desvalorização no ano, o efeito de basemais baixa eleva o retorno potencial, desde que o nível de distribuição de proventos sejamantido. “Essa relação evidencia como o DY pode ser um indicador atraente, mas nem sempre refletea saúde financeira de uma empresa. Investidores devem estar atentos para distinguir oportunidadesgenuínas de armadilhas de dividendos, onde a alta do indicador é causada mais peladesvalorização do papel do que pela lucratividade”, diz o estudo.
O levantamento segue uma metodologia 100% quantitativa e foi projetado para minimizar distorçõesno indicador de dividend yield, segundo a consultoria. As premissas adotadas são: dividend yield(DY) projetado para 2025 igual ou superior a 6%; o cálculo do DY projetado considera o preço daação no último dia de 2024 e o mesmo volume de dividendos e juros sobre capital próprio (JCP)distribuídos em 2024; considera que a política de distribuição de dividendos e JCP em 2025 seráequivalente ou superior à de 2024; somente ações com volume financeiro médio diário superior aR$ 5 milhões em 2024 foram incluídas; apenas empresas que registraram lucro em 2023 e nosprimeiros nove meses de 2024 (com resultados acumulados até o 3o. trimestre equivalentes a pelomenos 75% do lucro total de 2023); ações que distribuíram dividendos ou JCP em 2024 foramconsideradas.
O levantamento exclui empresas que não apresentem projeções de lucro para 2024 iguais ousuperiores às de 2023, e assume que as políticas de distribuição de proventos de 2024 serãomantidas em 2025.
A consultoria ressalta que o levantamento não deve ser interpretado como indicação ourecomendação de investimento. “Apesar da metodologia rigorosa, ele não substitui análisesdetalhadas das empresas. Para que o DY projetado se confirme, todas as condições mencionadasprecisam ser atendidas, e fatores externos como mudanças na economia ou na política dedistribuição podem alterar significativamente os resultados”, explica.
Quais as oportunidades diante de perspectivas negativas?
Diante dos desafios do cenário econômico brasileiro, a Genial Investimentos optou por manter umaestratégia conservadora para o seu portfólio de ações recomendadas em janeiro, priorizandoresiliência e liquidez. Apesar disso, a identificação de uma assimetria positiva nos valuationslevou a corretora a aumentar marginalmente sua exposição ao risco, buscando capturar possíveisoportunidades de valorização no curto prazo. “Nosso foco principal permanece em empresas de grandecapitalização, com alta liquidez. Essas características conferem menor volatilidade e maiorcapacidade de resistir às incertezas do mercado, alinhando-se à nossa abordagem de preservaçãode capital. Contudo, incluímos também exposições moderadas a ativos de maior risco, em setorescom ciclos microeconômicos mais favoráveis e perspectivas de resultados positivos nos próximostrimestres. Essa estratégia reflete nosso compromisso em equilibrar segurança com potencial deretorno, mesmo em um contexto desafiador”, comentou a corretora ao divulgar suas carteirasrecomendadas para este início de ano.
O Itaú BBA acredita que o humor do mercado deve seguir pesado neste 2025 em relação aoinvestimento em ações no Brasil, com os investidores à espera de respostas para uma série deperguntas. “Em que patamar os juros americanos irão se estabilizar? A economia chinesa vaifinalmente reagir aos pacotes de estímulo do governo local? Aqui no Brasil, teremos sinalizaçõesde compromisso com o fiscal e controle da trajetória da dívida pública? Quais serão asconsequências para a nossa economia de um governo Trump mais protecionista? Até onde irá a Selic?Com juros altos, as empresas conseguirão entregar crescimento de lucros aos acionistas?”, lista.
“Diante de tanta incerteza pela frente, resta ao investidor optar pela racionalidade e pragmatismo.Respeito ao perfil de risco, diversificação e seleção criteriosa de ativos devem ser os mantraspara atravessar um ambiente macroeconômico que, potencialmente, deve melhorar apenas em 2026”,estimam os especialistas do banco de investimentos.
Cynara Escobar, Dylan Della Pasqua e Vanessa Zampronho / Safras News
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