[AGÊNCIA DC NEWS]. Vitória Saddi é country manager no Brasil da VT Markets – corretora multiativos sediada na Austrália, fundada em 2015, e que tem mais de 600 mil clientes ativos. Saddi, colunista da Agência de Notícias DC News, é das maiores conhecedoras de economia e finanças globais. Em 2010-2011, participou do grupo que aconselhou a reestruturação da dívida grega. Em Nova York, foi a principal responsável pelos produtos estruturados e derivativos na JP Morgan Alternative Asset Management e trabalhou como economista-sênior para a América Latina na Roubini Global Economics. Foi economista-chefe para a América Latina no Citibank, Salomon Brothers e Queluz Asset Management em Nova York, Londres e São Paulo. Como professora, lecionou na Cal State Long Beach e na University of Southern California. Tem mestrado em economia pela FGV-SP e doutorado em Economia pela University of Southern California. Esse longo currículo a credencia a olhar momentos de crise com pragmatismo. E é nesse contexto que Saddi traz suas avaliações sobre o cenário brasileiro quatro semanas após o tarifaço trumpista.
AGÊNCIA DC NEWS – Passado praticamente o primeiro mês do tarifaço anunciado por Donald Trump contra o Brasil, como você avalia o cenário e a temperatura atuais?
VITÓRIA SADDI – O tema já está mais acomodado, no Brasil e no mundo. Também pelo fato de o próprio Trump mostrar que nem tudo que ele fala acontece, né? Então, era o medo, e a gente não tem muito medo de fantasma, essas coisas. Porque ele fala, fala, fala, e aí ele percebe que a realidade, no âmbito dos Estados Unidos, é diferente e ele tem que voltar atrás. Em resumo, aqui o tarifaço foi precificado corretamente. Foi overpriced no início e agora está no preço. O Focus já está refletindo um crescimento moderado, uma inflação cadente. Penso que está precificado corretamente.
AGÊNCIA DC NEWS – No dia 19 de agosto, depois da decisão de Flavio Dino de afirmar que decisões jurídicas americanas teriam reflexo restrito no Brasil, ações de grandes bancos caíram – os cinco maiores recuaram R$ 42 bilhões. Hoje, todas elas já estão no mesmo patamar ou mesmo acima do que estavam. Houve exagero da mídia?
VITÓRIA SADDI – Houve um impacto muito pequeno no preço. Mas essa decisão é uma decisão controversa, porque se for levada ao pé da letra [Lei Magnitsky] e aplicada ao extremo, é possível que o Banco do Brasil e outros bancos tenham de sair dos Estados Unidos. Mas até aqui o impacto é pequeno no preço dessas instituições. Porque são dos bancos mais rentáveis, não apenas do Brasil, mas do mundo.
AGÊNCIA DC NEWS – Independentemente dos bancos, o tarifaço traz uma suposta ajuda nos preços internos, mas preocupações profundas a inúmeros setores, incluindo risco de desemprego. Como você avalia?
VITÓRIA SADDI – Se há inflação nos Estados Unidos por causa da tarifa, tem deflação ou queda de preço doméstico aqui no Brasil pela mesma tarifa. Isso dado, aí vem o teu ponto: causar destruição de empregos. Sem dúvida pode ser que sim, porque os Estados Unidos não são a Finlândia, são um parceiro comercial relevante.
AGÊNCIA DC NEWS – O pacote de ajuda anunciado pelo governo está bem desenhado? E que riscos ele pode embutir?
VITÓRIA SADDI – Por mais que eu seja contra, foi importante esse pacote, para amenizar esse eventual aumento no desemprego devido às tarifas. Se eu trabalhasse no governo também seria a favor. Agora, tem todo um impacto fiscal, impacto de gastos, que é nefasto. Mas mesmo assim, se você perguntar precisaria ter isso [o pacote de ajuda]? Precisaria. Porque pode ter aumento, sim, no desemprego.
AGÊNCIA DC NEWS – No Brasil, quase sistematicamente esses pacotes acabam virando desoneração, porque extrapolam as estimativas de ajuda e de calendário, muitas vezes sem manutenção de empregos, não?
VITÓRIA SADDI – É uma ajuda para as empresas? Sim, é um subsídio para as empresas. A questão é se é certo ou errado em termos de política pública. Mas ninguém pediu nem previu o Trump fazendo o que ele está fazendo. Então, para a empresa que já tinha programado as vendas para o mercado americano, sem essa ajuda, fica difícil que possa remanejar o produto a outro país. Nesse sentido, eu acho correto o pacote.
AGÊNCIA DC NEWS – Será capaz, então, de conter desemprego (pelo menos nos setores mais afetados) e ajudar na performance de crescimento prevista?
VITÓRIA SADDI – O pacote oferecido pelo governo vai dar conta e, nesse sentido, não vai ter impacto ou o impacto vai ser muito pequeno no desemprego. O impacto no PIB, não só eu, mas o FMI está vendo uma queda do PIB no mundo. No Brasil e no mundo. Lógico que não é uma recessão nem nada, mas é um arrefecimento do ritmo de crescimento do PIB de Brasil, China, Estados Unidos, Zona do Euro…
AGÊNCIA DC NEWS – Sem pegar a motivação política do tarifaço: há algum sentido prático, na teoria econômica, do que Trump tem feito?
VITÓRIA SADDI – Não conheço ninguém que concorde com o que ele está fazendo. Independentemente do viés político, esquerda ou direita.
AGÊNCIA DC NEWS – O que o move, então?
VITÓRIA SADDI – Acho que ele está fazendo isso por ganho próprio, para ganhar dinheiro. Tem muita gente dizendo que ele está ganhando muito dinheiro, está lançando criptomoeda… Ele parece político de terceiro mundo, de país pobre igual ao Brasil, não presidente dos Estados Unidos. Penso que esse tarifaço vai ter um impacto muito mais no campo das expectativas.
AGÊNCIA DC NEWS – Nem os Estados Unidos vão ganhar alguma coisa?
VITÓRIA SADDI – A economia americana e os Estados Unidos vão perder. Estão perdendo muito com esse presidente.
AGÊNCIA DC NEWS – Você tem uma relação muito próxima com os Estados Unidos. Deu aula em grandes universidades americanas, atuou na sede de corporações americanas. Como reagem seus colegas americanos sobre isso tudo?
VITÓRIA SADDI – As pessoas que estão lá, não só brasileiros, mas estudantes, amigos meus, professores, pessoas que trabalham em mercado… Todo mundo está descontente, está com medo. Não pode falar nada sobre o presidente. Não é a América em que morei, conheci e admiro.