SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Pouco mais de um mês antes de autorizar uma operação para prender o agora ditador deposto da Venezuela Nicolás Maduro em Caracas e levá-lo a Nova York para ser julgado sob acusação de crimes ligados ao tráfico de drogas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, perdoou o ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández, que havia sido condenado por crimes semelhantes e estava preso nos EUA.
Hernández deixou um presídio na Virgínia Ocidental no dia 1º de dezembro do ano passado, poucos dias após o perdão.
O hondurenho, que comandou o país da América Central de 2014 a 2022, cumpria uma pena de 45 anos de prisão por associação ao narcotráfico. A condenação foi em 2024.
Questionado no sábado sobre o perdão a Hernández, Trump disse que o caso é diferente do de Maduro, porque o hondurenho teria sido vítima de perseguição. Ele foi condenado durante o mandato do democrata Joe Biden.
O Departamento de Justiça acusa Maduro, sua mulher -Cilia Flores, capturada com ele-, seu filho e integrantes do alto escalão do regime de crimes como narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e porte ilegal de armas.
O venezuelano comparecerá diante de um juiz de Nova York nesta segunda-feira (5), às 12h no horário local (14h em Brasília), anunciou neste domingo (4) um tribunal federal, que notificará formalmente as acusações apresentadas contra ele.
Em setembro, ao anunciar a campanha militar que resultaria nos ataques a embarcações no Caribe e no sequestro do líder venezuelano, o presidente Donald Trump afirmou que a operação mirava diretamente o tráfico responsável por overdoses nos EUA.
Os dados oficiais, no entanto, contam outra história. Informações reunidas por agências internacionais e pelo próprio governo americano indicam que a Venezuela não é um produtor relevante de cocaína nem figura entre as principais rotas de escoamento da droga para a América do Norte.
Segundo o Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (Unodc), os fluxos marítimos mais importantes de cocaína com destino aos EUA passam por Colômbia, Panamá, México e El Salvador. A Venezuela aparece, sobretudo, como país de passagem da droga destinada à Europa.
Relatórios da própria DEA reforçam esse quadro. Um documento da agência sobre apreensões de cocaína nos EUA aponta que mais de 80% das amostras analisadas tinham origem na Colômbia. A Venezuela sequer é mencionada. O relatório também destaca que, entre as duas principais rotas de entrada da droga -pelo Caribe e pelo oceano Pacífico-, é esta última que concentra a cocaína mais pura e em maior volume.
A acusação formal contra Maduro sustenta que ele liderava o chamado Cartel de los Soles, cuja existência é contestada, e que atuaria em cooperação com o Tren de Aragua -uma gangue que Trump designou como organização terrorista em 2025.
Especialistas, no entanto, descrevem o Tren de Araque como uma facção criminosa de atuação predominantemente local, restrita à Venezuela e a países andinos.
Documentos das agências de inteligência dos EUA contradizem a narrativa oficial. Eles indicam que integrantes do regime de Maduro podem ter tolerado ou mantido relações pontuais com o Tren de Aragua, mas afirmam que não há evidências de uma política organizada de cooperação liderada pelo ditador venezuelano.