SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Ano após ano, a Imetame levou seu projeto de porto para a Intermodal, a mais prestigiosa feira de logística no país. Apresentou a ideia em reuniões com diferentes armadores. Ninguém se interessou. Um dos argumentos é que se tratava apenas de um arquivo de PowerPoint. Um sonho. Não havia nada de concreto.
Sentindo-se desafiado, o fundador da empresa voltada para fabricação e manutenção de equipamentos para a indústria pesada, Etore Selvatici Cavallieri, resolveu iniciar a obra com seu próprio dinheiro, em 2021. Usou o espaço comprado pela empresa em Aracruz, no Espírito Santo.
“Quando a obra avançou, começamos a notar o interesse no projeto”, diz Anderson Carvalho, diretor de operações do Grupo Imetame.
Em dezembro do ano passado, a empresa assinou uma joint venture com a HGT (Hanseatic Global Terminals), braço de contêineres da multinacional alemã Hapag-Lloyd. O armador está presente em 140 países, é dono de cerca de 300 navios e explora 130 serviços de linhas entre 600 portos.
O valor do acordo não foi divulgado. A Folha de S.Paulo apurou que foi de cerca de R$ 1,1 bilhão. O investimento total para operacionalizar o porto é avaliado em R$ 2,5 bilhões. O complexo poderá começar a movimentar carga entre o final deste ano e início de 2027, mas deverá estar 100% operacional apenas em 2028. Serão embarcados blocos de granito, cargas a granel e veículos na primeira fase.
Imagem da área onde é construído o porto de Aracruz, no Espírito Santo Divulgação/Imetame Área em construção próxima ao mar com estruturas e equipamentos, cercada por vegetação densa e estrada. Céu parcialmente nublado. Imagem pequena **** Quando estiver 100% em funcionamento, a projeção é que a movimentação estará em cerca de 1,2 milhão de TEUs por ano. TEU é unidade de medida para o contêiner de 20 pés. O terminal, um dos cinco projetados para o porto em Aracruz, será administrado e operado pela HGT. A Imetame ficará com as demais cargas, com um ramal ferroviário próprio.
“A gente estima que entre 35% e 40% do café brasileiro vai passar por esse porto”, afirma o presidente do Cecafe (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), Márcio Cândido.
O projeto é ser uma alternativa a Santos, especialmente em cargas de menor valor agregado. Empresários desses setores costumam reclamar da demora para embarcar cargas no principal porto da América Latina.
“O nosso é o único projeto desta envergadura no país que está em implantação e que será entregue daqui a dois anos”, completa Carvalho.
O momento da apresentação da joint venture, que aconteceu nas duas últimas semanas em eventos em Vitória e São Paulo, é relevante porque armadores começam a buscar alternativas para expandir a movimentação de cargas. Isso se tornou mais urgente após a possível restrição à participação de donos de navios no leilão do Tecon 10, o megaterminal do porto de Santos.
O projeto inicial, em 2008, quando a Imetame adquiriu o terreno, era crescer o negócio de metal e mecânica da Imetame, com uma unidade offshore para expandir os serviços nesse mercado.
Os anos em que tudo era apenas um PowerPoint jogaram a favor. O cenário econômico e a legislação nacional mudaram e tornaram viável chegar à estrutura que despertou o interesse da Hapag-Lloyd.
A crise do petróleo em 2013 mostrou a Cavallieri que era preciso não ficar restrito a apenas uma indústria. A lei de modernização dos portos, no mesmo ano, possibilitou a terminais privados operarem carga de terceiros, abrindo um leque de opções.
“Um outro fator é a limitação física do terminal de contêineres do porto de Vitória por causa do calado”, diz o diretor de operações.
Este é um dos aspectos que mais chamou a atenção de armadores: a profundidade do canal do porto de Aracruz. São 17 metros. Isso o torna capaz de receber navios de grande porte em seus 750 metros de cais. Segundo executivos da Imetame, é possível atingir 25 metros. Santos opera com calado de 15 metros.
Por causa do projeto de porto, a Imetame criou sua própria empresa de dragagem.
“Nós sabemos que muitos portos no Brasil estão cheios agora, com congestionamento [de cargas], o que significa custos elevados de logística. Então, se olharmos para este projeto, é uma enorme oportunidade. Há tempos temos enorme interesse em um investimento no Brasil”, afirma Rodrigo Galleguillos, vice-presidente comercial e de negócios da HGT.
O investimento faz parte de um projeto global da Hapag-Lloyd. O braço de contêineres da multinacional tem 22 terminais portuários e possui o projeto de chegar a 30 até 2030. O investimento na joint venture com a Imetame foi uma das primeiras decisões comerciais dentro dessa estratégia.