CARACAS, VENEZUELA (FOLHAPRESS) – Apoiadores de Nicolás Maduro e de seu regime têm ocupado as ruas de Caracas, a capital da Venezuela, após a captura do ditador e da primeira-dama, Cilia Flores, pelas forças dos Estados Unidos, no sábado (3).
Policiais e grupos paramilitares alinhados ao regime, conhecidos como “colectivos”, participam dos atos, segundo o jornal Financial Times. Nas imediações do Palácio Presidencial de Miraflores, no centro da capital, telões foram instalados com mensagens de apoio a Maduro.
Ainda de acordo com a publicação, manifestações pró-Maduro ocorreram nas proximidades do palácio presidencial. Os ativistas gritavam “devolvam Maduro” e exibiam cartazes defendendo que as lideranças do regime não façam qualquer acordo com Washington até que o ditador seja libertado. “Nenhuma gota de petróleo venezuelano para os EUA até que Maduro volte ao poder”, dizia uma das mensagens.
A Telesur divulgou que os protestos ocorrem no país desde sábado. Segundo a rede, ligada ao regime venezuelano, as mobilizações expressam rejeição popular ao que os manifestantes classificam de agressão direta à soberania nacional e um ataque ao ordenamento democrático do país.
Os manifestantes afirmam também que a ação militar dos EUA não representa um fato isolado, mas parte de uma política prolongada de hostilidade de Washington contra o país e outras nações da região.
Entre as ações denunciadas por ativistas estão as controversas operações militares de Washington no Caribe, execuções extrajudiciais durante supostos combates ao narcotráfico, a imposição de um bloqueio naval e a apreensão de carregamentos de petróleo venezuelano sem autorização ou respaldo internacional.
Os ativistas dizem que essas iniciativas violam princípios centrais do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, que proíbem o uso da força, a ingerência em assuntos internos e ataques à integridade territorial e à independência política dos Estados. Na avaliação deles, tais medidas teriam como objetivo a apropriação de recursos naturais da Venezuela, argumento que tem sido utilizado por lideranças do regime desde que a tensão com os EUA aumentou, em agosto passado.
“É preciso esperar os próximos dias, não existe justiça nos EUA porque os juízes são nomeados pelo próprio presidente. Eles são assassinos”, disse Ursula Ortiz, 78, dona de casa. Ela afirmou que apoiará a proposta dos líderes de coletar assinaturas e levá-las a instâncias internacionais para exigir a libertação de Maduro.
As manifestações ganharam força ao longo do fim de semana, segundo o Financial Times. No sábado havia um clima de calma e grande incerteza após o ataque aéreo do governo dos EUA ao país.
Neste domingo, o ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, pediu que a população de seu país retome a rotina e não se curve ao medo. “Peço ao povo da Venezuela que retome suas atividades econômicas, profissionais e de qualquer natureza, bem como suas atividades educacionais nos próximos dias, e à pátria que volte aos seus trilhos constitucionais”, disse ele, encorajando a população “a não ceder às tentações da guerra psicológica, à ameaça e ao medo que querem nos impor”.
Após a ofensiva dos EUA, os centros de poder em Caracas se reorganizaram ao redor da vice, Delcy Rodríguez -que obteve o crucial respaldo das Forças Armadas do país para seguir no poder.
Em reação, o governo Donald Trump demonstra ter aceitado, por ora, a permanência de Delcy no Palácio de Miraflores. O secretário de Estado americano e principal voz a favor de uma intervenção na Venezuela, Marco Rubio, se disse aberto a negociar com a vice de Maduro e outros líderes chavistas desde que tomem “boas decisões”.
Trump, por sua vez, ameaçou Delcy. “Se ela não fizer o que é certo, pagará um preço muito caro, provavelmente maior do que Maduro”, disse o republicano no domingo à revista The Atlantic. “Reconstruir o país e mudar o regime, como quiser chamar, é bem melhor do que acontece agora, porque [a situação na Venezuela] não tem como piorar.”
Venezuelanos contrários ao regime, por sua vez, se perguntam o que acontecerá agora que o chavismo continua no poder nas mãos de Delcy. “Queremos que essa situação seja resolvida logo. Não queremos mais os chavistas porque levaram o país à ruína e foram responsáveis pela separação de muitas famílias devido à migração”, disse Yaneth Domínguez, 41.
Por enquanto, moradores de Caracas, onde ocorreram a maioria dos bombardeios, tentam retomar a rotina. Neste domingo, algumas pessoas foram vistas correndo e outras passeando em shopping centers, apesar das lojas estarem fechadas.
Outros tiveram de fazer fila nos supermercados para comprar alimentos e abastecer seus veículos com gasolina, temendo uma escassez. Durante o dia, muitos caminhões foram vistos circulando pela cidade para levar combustível aos postos de gasolina, algo incomum para um domingo.
“A situação se acalmou, mas ainda estamos nervosos por causa dos bombardeios”, disse Gustavo Segura, 72, comerciante.
Moradores das áreas onde as bombas caíram observavam com espanto os estragos causados pelos ataques. O clima ainda é de tensão, e muitos querem comemorar a captura de Maduro, mas se contêm por medo de represálias.
“Minha cidade está mais bonita sem o ditador. Não sinto pena deles”, disse Zenaida Campos, que por enquanto se contenta com a permanência de Delcy no poder. Ela espera, porém, que seja por pouco tempo, até que haja uma transição pacífica.