Após crise do metanol em 2025, SecureTrace atualiza selos para autenticar bebidas, perfumes e remédios

Uma image de notas de 20 reais
Crise sanitária ocasionada por metanol em bebidas provocou 22 mortes no ano passado
(Danilo Verpa / Folhapress)
  • Com investimento de 50 milhões de euros (R$ 303 milhões), nova autenticação tem 150 milhões de selos previstos para este o início de ano
  • Empresa é responsável pelo holograma das cédulas da moeda brasileira e por elementos de segurança de passaportes nacionais
Por Bruno Cirillo

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Decorrente do mercado de falsificações e pirataria no Brasil, a crise sanitária do metanol provocou 73 ocorrências de intoxicação e 22 mortes no ano passado, decorrentes da ingestão de bebidas alcoólicas de origem criminosa. Perdem-se vidas e também dinheiro. Segundo dados da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), foram registrados R$ 471 bilhões em perdas de arrecadação tributária e de faturamento das indústrias legalmente estabelecidas em 2024. São motivos que explicam a importância da rastreabilidade e autenticação dos produtos. Para garantir a qualidade dos bens de consumo, que muitas vezes é uma questão de saúde pública, a atuação é de órgãos como o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No setor privado, em que globalmente o mercado de autenticação e proteção de marcas foi avaliado em US$ 2,99 bilhões (R$ 15,6 bilhões) em 2024 e projeta-se que cresça para US$ 7,64 bilhões (R$ 39,8 bilhões) em 2032, segundo a consultoria Fortune Business Insight, uma das referências é a SecureTrace, empresa com mais de 100 anos de atuação e que investiu 50 milhões de euros (R$ 311,5 milhões) no lançamento de um novo selo de autenticação este ano. “Já identificamos mais de 3 bilhões de falsificações”, afirmou o CEO, Mario Netto. “Salvamos mais de 75 mil vidas ao redor do mundo”, disse o executivo da companhia com sede em São Paulo e atuação global.

O know-how da SecureTrace tem ligação histórica com o Brasil, com a identificação do número das residências desde 1911 e a produção de placas automotivas até a década de 1990, além de ser a responsável por elementos de segurança de importantes documentos. A empresa produz a banda holográfica presente nas notas de R$ 100 e a proteção holográfica dos dados variáveis do passaporte brasileiro. Mais recentemente foi contratada pelo governo chinês durante a pandemia do Covid-19, em 2020, para autenticar os medicamentos que estavam sendo distribuídos no país asiático. Já o novo projeto da SecureTrace consiste em certificar produtos dos segmentos de bebidas, farmacêutico e perfumaria. “De onde veio? Como foi produzido? Onde foi parar? Por qual distribuidor passou? Chegou no consumidor com autenticidade 100% garantida?”, disse o empresário, sobre alguns dos passos da trajetória dos itens em que os selos serão fundamentais. “Passa pelo nosso crivo, aprovamos e mandamos para o mercado.”

No caso da rastreabilidade (monitorar a origem, percursos e entrega do produto), o agronegócio é um dos segmentos endereçados. Empresas de pecuária, por exemplo, fazem investimentos vultosos para garantir a procedência da carne bovina. No ano passado, a JBS sozinha investiu R$ 35 milhões para rastrear o rebanho no Pará. O protocolo, no caso rural, é o embrionário Embrapa Trace, financiado pelo Ministério da Agricultura (Mapa) em parceria com o Banco Mundial e que servirá ao atendimento das exigências ambientais previstas pela União Europeia em sete culturas agrícolas. Só poderão ser exportados produtos agropecuários que não acarretaram desmatamento ilegal após dezembro de 2020.

“Vamos entrar no setor de cosméticos e atender marcas de perfumes gigantescas. Há perfumes árabes com problema grande de falsificação.” Segundo Netto, por uma questão de segurança ele não pode revelar quem são os clientes na indústria de bebidas. Mas o fato é que essas empresas estão ainda mais preocupadas com a qualidade e a reputação após a crise do metanol. “O mínimo que as fabricantes podem fazer é demonstrar ao consumidor que o produto que saiu da fábrica é autêntico”, disse.

PRÊMIOS E GOLPES – Segundo o CEO da SecureTrace, a autenticação dos produtos vai além disso. Para o executivo, quem compra produtos autenticados pode, inclusive, acumular pontos para participar de premiações e promoções. Para a indústria e o varejo, a importância do selo é garantir a denominação de origem (DO) e a qualidade dos produtos finais, evitando episódios como os casos de envenenamento pela ingestão de bebidas clandestinas nos últimos meses. Netto citou o exemplo de um golpe que estava sendo feito em larga escala contra uma famosa marca de roupas, alvo frequente de pirataria no universo da indústria têxtil. “As pessoas compravam as roupas pela internet e faziam devoluções com roupas falsas”, disse ele. “A fabricante estava recebendo essas roupas e devolvendo para o próprio estoque.” A autenticação, segundo o empresário, ajudou a grife a identificar e solucionar o problema.

Na atual etapa do negócio, com cerca de 40 programadores na equipe brasileira e parcerias técnicas espalhadas pelo mundo, em países como a França, Índia e Espanha, a SecureTrace levou sete anos para desenvolver o selo que começou a ser impresso em janeiro. “Toda a estrutura para desenvolver as etiquetas, como fábricas, Inteligência Artificial, clouds, parcerias ultrapassam 50 milhões de euros”, disse o CEO. No curto prazo, 150 milhões de mercadorias devem ser autenticadas.

Entre as demais soluções da SecureTrace que já fazem parte do portfólio há algum tempo está uma nanotecnologia que ajuda na prevenção ao roubo de veículos. No ID Antifurto, cada automóvel recebe 11 mil micropontos, com 0,5 milímetro de espessura, que permitem a identificação e rastreamento do veículo. O ex-CEO da Renault e da Nissan Carlos Ghosn é sócio da empresa nesse segmento. “Identificamos todas as peças do carro e vinculamos ao número do chassi”, disse Netto. “Esse número é cadastrado numa base de dados, que pode ser consultado a qualquer hora.” A solução foi originalmente desenvolvida pela companhia na África do Sul e faz parte da evolução dos sistemas de rastreamento, que começaram com o código de barras e passaram pela criação do QR Code. “Identificamos as casas, os carros e bilhões de produtos”, afirmou o executivo.

EMPRESA CENTENÁRIA – A SecureTrace tem uma longa história familiar. Fundada em 1909 como Indústrias Petracco-Nicoli, foi rebatizada com o nome atual somente em 2011. “Surgiu tudo com o meu bisavô, quando ele veio da Itália para o Brasil”, disse Netto, lembrando que naquela época as casas já eram numeradas na Itália, mas no Brasil ainda não. “Ele montou uma fábrica de placas e participou da identificação de todas as casas”, afirmou o empresário. Somente em 1915 a capital paulista criou uma regulamentação específica para a numeração das residências — e a companhia surfou a onda da nova legislação. “Primeiro em São Paulo, e foi expandindo para todo o Brasil”, disse o CEO, que é sobrinho-neto de Delfim Netto, ministro da Fazenda entre 1967 e 1974.

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