ARTIGO, por Joel Risso: "Waze e a era em que aprender superou construir"

Uma image de notas de 20 reais
Waze tem um sistema aprende com a realidade vivenciada pelo motorista e por isso é disruptivo
(Imagem gerada por IA)
  • "Mapear" vai muito além de delimitar áreas. Envolve entender a dinâmica dos territórios e construir em cima dos dados captados
  • O Waze representa, de forma criativa, como é possível construir vantagem competitiva a partir do efeito de rede, sem custos
Por Joel Risso

Mapas e dados geoespaciais sempre me fascinaram e seguem parte relevante do meu cotidiano profissional. Passei bons anos da minha vida trabalhando com dados geoespaciais, imagens de satélite, elaborando e analisando mapas e monitorando lavouras, florestas e tantas outros sistemas complexos. Quem já esteve ou conhece esse universo sabe que “mapear” vai muito além de delimitar áreas ou traçar rotas. Envolve entender a dinâmica dos territórios, avaliar impactos sociais, ambientais e econômicos, acompanhar fluxos, mensurar riscos. É transformar movimento em informação, independentemente da velocidade do fenômeno observado. Portanto, a dinâmica a que me refiro vai desde acompanhar o crescimento de uma planta ou lavoura ao longo de meses até o deslocamento de um veículo em uma rodovia ao longo de poucos minutos.

Talvez por isso o caso do Waze sempre tenha me chamado a atenção. E aqui o dado mais valioso não vem do satélite, mas do coletivo. O Waze representa, de forma criativa e visionária, como é possível transformar um setor e construir vantagem competitiva a partir do efeito de rede, com custo marginal próximo de zero. Durante muito tempo, especialmente nesse setor, inovar significava construir. Mais ativos, mais controle, mais infraestrutura. No mundo da mobilidade, isso se traduzia em sensores, frotas, centros de monitoramento e investimentos pesados em tecnologia física. Foi dentro dessa lógica que, em 2007, a Nokia adquiriu a Navteq por mais de US$ 8 bilhões. A aposta era de que os mapas digitais seriam estratégicos (correto!), e quem os controlasse teria uma posição privilegiada no futuro da mobilidade (aqui começam alguns “poréns”…).

O Waze surgiu fora desse modelo mental. Sem sensores próprios, sem frotas, sem infraestrutura física própria. A aposta foi outra, ou seja, usar algo que já existia em escala: pessoas se deslocando com um smartphone no bolso ou no painel de seus veículos. Cada trajeto gerava (e continua gerando) dados. Cada motorista alimentava o sistema e, quanto maior o uso, mais ricas e precisas se tornavam as informações.

O sistema aprendia com a própria realidade vivenciada pelo motorista ou usuário. O valor passou a ser criado pela capacidade de transformar dados em inteligência dentro de um verdadeiro efeito de rede. Enquanto modelos tradicionais dependiam de ciclos longos de investimento e atualização, o Waze evoluía continuamente. Ele aprendia com o comportamento real, de forma colaborativa e sem exigir esforço demasiado dos usuários, o que atraía cada vez mais adeptos.

De um lado, sistemas pesados, caros e lentos para se adaptar, como a própria Navteq, já citada. Do outro, um modelo leve, distribuído, que melhorava a cada interação e resolvia problemas reais dos usuários, especialmente nas grandes cidades. Essa diferença explica por que, poucos anos depois, uma empresa sem infraestrutura física conseguiu redefinir um mercado inteiro.

Um pouco mais sobre o contraste com a Navteq / Nokia
Algum tempo depois da compra da Navteq, a própria Nokia venderia sua divisão de celulares por um valor inferior ao que havia pago apenas pela empresa de mapas, o que foi um péssimo negócio para a Microsoft (assunto para outro artigo). A decadência da Nokia, contudo, está associada a esse e a diversos outros erros estratégicos ou apostas excessivamente tradicionais. A Navteq foi apenas mais um deles.

A empresa entendeu corretamente a importância da mobilidade, mas apostou no lugar errado da cadeia de valor. Investiu em controle quando o diferencial já estava na capacidade de aprender, no efeito colaborativo da sua rede de usuários. Apostou em ativos pesados e intensivos em CAPEX quando o jogo já começava a mudar.

Enquanto isso, o Waze crescia sem carregar o peso da infraestrutura, sem depender de contratos complexos e sem exigir análises de longo prazo para recuperar investimentos. Bastava observar o presente, aprender com ele e explorar um modelo ainda nascente à época, associado ao uso massivo de dispositivos móveis e ao efeito de rede já conhecido nas redes sociais.

Vale reforçar um ponto nevrálgico de plataformas tecnológicas de grande sucesso que contrastam com esse modelo da Navteq e que transformam mercados inteiros: resolver um problema real dos usuários de forma simples e criativa com foco no mobile e na infra existente. A Waze fez isso.

Contudo, o Waze não é um caso isolado. Trata-se de uma lógica que revolucionou diversos setores ao dar utilidade a investimentos já existentes: smartphones amplamente difundidos com GPS integrado, veículos ociosos (Uber), imóveis disponíveis (Airbnb), entre muitos outros exemplos. Entramos definitivamente em uma era em que os modelos de negócio se fortalecem quanto mais são utilizados. Sistemas que escalam pela coordenação, e não pelo controle. A vantagem competitiva deixou de estar na posse e passou a residir na capacidade de adaptação e engajamento dos usuários.

VISÃO SISTÊMICA –A infraestrutura continua sendo habilitadora Infraestrutura continua e continuará sendo importante. Isso não está em discussão. Ela sempre será a base para muitas disrupções tecnológicas. Sem constelações de satélites de posicionamento, sem infraestrutura de internet e sem smartphones, não haveria Waze nem tantos outros aplicativos. A infra tecnológica segue essencial, mas nenhuma delas garante vantagem por si só. Ela precisa ser bem planejada e utilizada para habilitar aplicações, viabilizar novos modelos de negócio e potencializar os efeitos de rede.

O que realmente separa quem avança de quem fica para trás é a capacidade de resolver problemas reais de forma simples, transformando uso em aprendizado e aprendizado em decisão. O Waze entendeu isso cedo. E é por isso que esse case continua tão atual e serve como uma lição ou minimamente carrega muitos aprendizados, tanto para startups quanto para as big techs.

JOEL RISSO
Graduado em engenharia agrícola e mestrado em Sensoriamento Remoto pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Consultor em tecnologia e diretor da vertical de Agronegócios da Serasa Experian

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