“Eu nunca fui assediada!”. Ouvi essa resposta de algumas mulheres num projeto onde eu seria o escritor a narrar a história de carreira no mundo comercial de 20 executivas. De algumas ouvia o complemento: “É uma questão de postura!”.
O tema central não era o assédio, aliás, os temas foram votados e eu seria apenas o ghostwriter. Mas em projeto com tanta gente sem alguma hierarquia, alguém tinha que propor algo, e propus. Propus traçar um panorama geral do patriarcado e do machismo imperante no universo empresarial e também empreendedor, afinal, um empresário consolidado, ou é herdeiro ou foi empreendedor um dia.
Sabia que o tema do machismo e do assédio não seria fácil, principalmente num processo onde eu passava apenas algumas horas com as mulheres. Tive enorme preocupação em criar uma atmosfera de abertura e segurança. Algumas me contaram experiências lamentáveis, uma narrou um caso muito grave com consequências não menos para a saúde dela, mas sem maiores consequências para o agressor porque inclusive, ela acabou não fazendo uma denúncia formal, por choque, por falta de forças e por medo de retaliações. Sentiu-se impotente.
Mas o pior foi sentir no corpo o trauma, transformado em dores generalizadas, numa dificuldade de andar e no sentir mais frio do que antes. Isso sem contar com o tradicional sentimento de inadequação e vergonha. Para a psicanálise o sintoma é formação de compromisso entre o que nos provoca de forma inconsciente e nossas forças de repressão. Freud dizia que de nada adiantava eliminar um sintoma sem entender suas causas, ele voltaria de outra forma. Se a psicologia e a psiquiatria miram em eliminar o sintoma, a psicanálise acha importante entender sua origem e extensão. Cuidado com o apelo da resolução fácil, a objetividade nem sempre combina com a espécie, e o inconsciente é mais profundo, se as rachaduras são na estrutura, não adianta massear as paredes e passar uma demão de tinta.
Se para Freud o sintoma é uma manifestação de desejo reprimido, Lacan coloca que ele é estruturado como linguagem, e depois que é a forma que a pessoa encontra para lidar com o real. Importante lembrar que Lacan faz uma diferença significativa entre real e realidade.
Talvez o conceito dos três registros de Lacan seja importante para discutirmos o patriarcado, o machismo e a luta das mulheres, tão necessária, em 2026, e que já não deveria ser uma pauta, deveria ter sido resolvida muito antes, no mínimo no século XX quando movimentos feministas ganharam força e escancararam o ridículo da maioria das diferenças.
Em termos muito resumidos, o imaginário compreende as imagens e as identificações, claro que é preciso um tempo para que possamos parear imagens mais ligadas ao feminino como também dignas de poder, ou seja, tanto a bola como a boneca, tanto o forte-apache quanto a casinha podem e são locais de poder. Exercer poder é uma atividade complexa e que demanda múltiplas habilidades, inclusive acolhimento, pobre de quem se subordina a um macho-alfa querendo encobrir suas fraquezas. No universo feminino, a destruição é muito menos presente, quem tem algumas décadas no RG já destruiu muitos índios imaginários, sem entender que os invasores éramos nós.
No imaginário entra o nosso ego e se para montar uma empresa e fazê-la crescer é necessário um ego forte, encontrar uma maneira desse ego não querer ganhar a comparação com todos os outros é dos maiores desafios.
No simbólico entra a linguagem, as regras, as estruturas sociais. Aqui se criam os cargos, a hierarquia e alguns objetos são transformados em emblema de poder. O simbólico é um prato cheio para a propaganda e a necessidade do sistema de girar a economia. O que hoje me dá vontade de ter, tido, passa a ser candidato a entulho, a ficar no armário, a posse como sinal de posição diante de alguém.
E então se tem o real, o que não consegue ser explicado, que escapa à linguagem, que dificulta o encontrar um símbolo. O choque do inesperado, um trauma que rompe o sentido. No caso da executiva que falei acima, o real foi a incapacidade de denunciar, foi o adoecimento, foi a perda da próxima posição idealizada, sonhada e discutida, mas que o ocupante do poder condicionou a atitudes distintas do trabalho.
Mulheres que dizem que nunca sofreram assédio ou são muito ingênuas ou ligaram um modo defensivo, envergonhado, sentem culpa de algo que não é delas. Como defende Gisèle Pelicot no recém-lançado Um hino à vida: a vergonha precisa mudar de lado, subtítulo do livro e título necessário de um movimento que está apenas começando ou precisa se iniciar.
Na coluna passada falei do zagueiro de um time que foi misógino com a árbitra. A punição foi de 12 jogos, nem o mais machista dos torcedores acredita que foi suficiente, e que algo irá mudar. O coro de “bicha” para o goleiro adversário é fora de época, mas vai continuar.
Reproduzir o passado pode ser visto como algo natural até que alguém se disponha a avaliar que seu tempo é outro. Sigmund Freud viveu em duas cidades onde o homossexualismo era proibido. Na sua Viena, onde chegou com quatro anos e viveu até 1938, apenas em 1971 foram revogadas leis que descriminalizavam relações homossexuais, ainda tentando impor um limite mínimo de idade. Já na Londres, para onde se exilou da perseguição nazista, e viveu pouco mais de um ano, o homossexualismo deixou de ser crime em 1967, também com limite de idade.
Mesmo vivendo tempos muito distintos e podendo ser acusado de machista em alguns pontos, Freud tinha clareza de que homossexualismo não era nem doença nem perversão. Se vivesse hoje, não tenho dúvidas que teria muito a contribuir no debate. Traria uma nova visão sobre o ressentimento que toma conta de muitos homens e os fazem canalizar na ação e reação contra mulheres. No volume de Índices e Bibliografia das obras completas de Freud da Companhia das Letras, temos a seguinte diferença para os vocábulos em linhas: Neurose, 156, Homem, 107, Mulher 99. Para um mundo vitoriano, Freud foi sim um precursor.
Possivelmente o ressentimento está na base de toda a resistência à mudança. O conceito pode ser visto como uma fixação de um afeto a uma ofensa, injustiça ou perda que não foi elaborada psiquicamente. Ou seja, resta aos homens aceitarem que não tem nada garantido de partida, nem mesmo o direito de impor sua voz mais grave e associada à dominância.
Por um mundo onde o conteúdo prevaleça sobre a forma. Por ambientes de trabalho onde se acolham diferenças e as ideias mais contributivas ganhem destaque, independente do tom em que foram proferidas. Isso sem abrir a discussão que deveria ser absurda e desnecessária, mas que infelizmente não é, da violência contra as mulheres. Chega! O que você tem a ver com isso? A obrigação, sendo homem ou mulher, de colocar em pauta a discussão de quais medidas devem ser implementadas para um ambiente mais construtivo e igualitário, boas ideias, boas lideranças e uma atmosfera mental mais saudável. Que as mulheres não sejam assediadas! Que as que forem não tenham medo de delatar! A todos o divã! Aos ressentidos, urgentemente!
MARCELO CANDIDO DE MELO
Escritor e psicanalista, é graduado e pós-graduado em administração pela EAESP-SP da FGV. Atuou na área de marketing de grandes empresas nacionais e multinacionais antes de empreender no mercado editorial. Sua editora alcançou bastante sucesso e foi adquirida por uma multinacional. Já escreveu 18 livros em seu nome ou como ghost-writer. Dá atenção especial à produção ficcional. Também já fez roteiro de documentário. Nos últimos anos mergulhou numa formação em psicanálise e desenvolve atividade clínica.