ARTIGO, por Rafael Cortez: "Caixa de pandora aberta – Trump reforça risco internacional com ação no Oriente Médio"

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(Agência EFE / Folhapress)
  • "A ambição da agenda americana deve manter a cena internacional como foco de risco, mesmo com as eleições presidenciais no Brasil"
  • "Desafio é criar uma percepção de vitória para Trump. Cenário mais otimista: construir bases para um acordo nuclear EUA-Irã"
Por Rafael Cortez | colunista

Jean-Paul Sartre na peça Entre Quatro Paredes (Huis Clos, 1944) cunhou a frase que atravessaria os tempos: “O inferno são os outros”. Na peça, três personagens estão trancados em um quarto que descobrem ser o inferno. Não há tortura física. Não há demônios. Há apenas a convivência. Garcin, Inês e Estelle teriam o fardo da companhia eterna uns dos outros e teriam de conviver com o fato de que cada um não mais é soberano. A convivência seria suficientemente angustiante justamente por explicitar a falta de autonomia do sujeito.

O analista de risco político, em alguma medida, poderia ser um observador dessa cena. Seus personagens seriam os diferentes atores cujo comportamento define o grau de risco político para o desempenho da economia e o comportamento dos mercados. Fatores domésticos e internacionais impactam de maneira umbilical.

Empresto essa passagem clássica da literatura à luz do conflito no Oriente Médio, mais um capítulo na novela dos impactos da cena internacional no destino da economia brasileira. Se tomarmos a alegoria “inferno” para pensar o que seria um cenário pessimista para Brasil, os fatores geopolíticos apareceriam como a figura do “diabo”. Quem quer antecipar a direção dos ativos brasileiros, precisa entender para qual direção o mundo está indo.

A guerra do consórcio EUA-Israel contra o Irã não é apenas mais uma disputa territorial com o uso de forma militar. Trata-se de uma disputa quase que civilizatória entre inimigos declarados, especialmente depois da justificativa americana para o conflito de que se trataria de uma mudança de regime, a partir da técnica de decapitação das suas lideranças, resultado na morte do aiatolá Ali Khamenei.

A resposta iraniana tornou o conflito regional. Os iranianos descentralizam sua resposta à ação norte-americana ao atingir alvos nos diferentes países do golfo pérsico. O resultado desse processo pode mudar a geopolítica da região.

Na verdade, o conflito coloca em xeque a ordem internacional ancorada nos acordos de Abraão, que pode ser pensada como uma ação estratégica dos EUA em promover aproximação dos países árabes, o que permitiria o foco na modernização econômica desses países. Na prática, tal visão tentou isolar a questão palestina como agenda central da região. O ataque do Hamas à Israel em 2023 foi justamente uma ação para travar essa cooperação.

Desde, então, a região assiste a diversas ações de Israel para se contrapor às ameaças a sua segurança nacional, o que na prática significou uso de inteligência em executar diversas lideranças do “eixo da resistência”, bem como reduzir o poder dessas organizações.

Faltava o Irã, país que liderou os esforços da resistência a agenda Israel-EUA. A guerra dos doze dias em 2025 representou o primeiro conflito direto na história de Irã e Israel. A leitura que ficou da brevidade e da baixa intensidade é que o Irã não representaria uma ameaça efetiva. A atual conjuntura dá sinais de que tal interpretação menosprezou os desafios estratégicos gerados pelo país persa. A saída “a Venezuela” não é mais crível.

A leitura de que a morte do principal líder geraria queda do regime não se manifestou. A História sugere que bombardeios aéreos tem pouca efetividade para gerar mudança de regime. Na verdade, o efeito desse tipo de ação é mais aumentar o poder das forças mais extremas e o sentimento nacionalista. A força militar pode gerar desestruturação da infraestrutura e falência das instituições estatais, mas não necessariamente apoio a uma elite política pró-americana e Israel.

Assim, a mudança de regime demandaria ação militar em solo iraniano, algo pouco provável em ano de eleições legislativas nos EUA. Trump arriscou seu capital político com tal operação que faz mais sentido à luz dos dilemas de Israel do que do próprio EUA.  A resposta iraniana busca justamente aumentar os custos econômicos do conflito para a economia internacional, cenário que resultaria na perda de cadeiras do partido republicano no final do ano.

O desafio, então, é criar uma “percepção de vitória” para Trump. Algo que parece ser inviável no curto prazo. Esse cenário mais otimista passaria por um período em que as partes buscam aumentar o custo do conflito para, posteriormente, construir as bases de um acordo nuclear entre EUA e Irã.

De todo modo, a ambição da agenda de política externa norte-americana, que vai de ação militar na Venezuela à ameaça de conflito na Groenlândia, deve manter a cena internacional como foco principal de risco, mesmo com as eleições presidenciais no Brasil.

RAFAEL CORTEZ
Doutor em Ciência Política (USP), professor do IDP-SP e sócio da Tendências Consultoria.

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