Nos últimos anos, tenho acompanhado de perto, como advogada e conselheira, o crescimento dos pedidos de Recuperação Judicial no Brasil. Sempre que uma empresa anuncia o pedido, o mercado reage com espanto. Mas, para quem está nos bastidores, nem sempre é surpresa. Muitas vezes, os sinais já estavam ali: margens comprimidas, renegociações recorrentes, fornecedores inquietos e decisões difíceis sendo adiadas.
A Recuperação Judicial é um instrumento legítimo previsto em lei. Ela permite que empresas viáveis reorganizem dívidas e preservem empregos. Não é sinônimo de má gestão. Mas também não é estratégia. É reação. Quando o pedido é protocolado, a empresa já perdeu tempo precioso e, por vezes, houve até mesmo um otimismo excessivo com o mercado em que atua, na expectativa de que o cenário melhoraria naturalmente.
O que raramente aparece na manchete é o que aconteceu antes. A operação financiada com dívida de curto prazo. O crescimento acelerado sem estrutura adequada. A decisão de não rever/espremer custos esperando que “o mercado reaja”. A resistência em rever modelos de negócio ou trazer visões externas. A crise quase nunca começa grande. Ela começa silenciosa, administrada com improvisos. E improviso financeiro cobra juros altos.
Tenho visto empresas tecnicamente competentes entrarem em dificuldade não por falta de mercado, mas por ausência de disciplina de governança. E governança não é burocracia. É clareza de papéis, transparência nos números, acompanhamento do endividamento e coragem para agir enquanto ainda há tempo.
TERMÔMETRO – Um dos primeiros termômetros costuma ser a relação com fornecedores. Fornecedor percebe antes do banco. Ele identifica quando o atraso deixa de ser pontual e vira padrão.
Quando a confiança da cadeia se abala, o custo operacional sobe. Prazos encurtam, exigências aumentam, margens encolhem. É um ciclo que pressiona o caixa e reduz a capacidade de reação.
Muitas vezes, bastaria planejamento e diálogo antecipado. Negociar enquanto ainda há credibilidade é diferente de negociar sob pressão. A diferença entre uma reestruturação privada bem conduzida e um pedido de Recuperação Judicial costuma estar no tempo de reação.
CONSELHO – É nesse ponto que o Conselho se torna determinante. Conselho que apenas valida números não protege empresa. Conselho precisa questionar premissas, acompanhar indicadores críticos, analisar cenários menos otimistas e monitorar estrutura de capital com disciplina.
Conselheiros experientes com vivência prática em negócios são cada vez mais valorizados, pois ajudam na mitigação de riscos, nas decisões estratégicas alinhadas ao longo prazo, na antecipação de desafios regulatórios e operacionais em mercados em expansão ou reestruturação.
A experiência prática traz maturidade para a tomada de decisão. Ajuda a enxergar riscos antes que eles se materializem.
Especialmente em empresas familiares, onde patrimônio e emoção podem eventualmente caminhar juntos, a governança não é luxo. É necessidade. Quando não há estrutura clara de decisão e transparência nas informações, a empresa perde agilidade justamente quando mais precisa dela.
SOBREVIVER – Recuperação Judicial não deve ser tratada como vergonha. É instrumento legítimo e, em alguns casos, necessário. Mas o desgaste reputacional e operacional é real. A prioridade deixa de ser crescer e passa a ser sobreviver.
Por isso insisto: prevenção é sempre menos traumática do que reação. Revisão periódica da estrutura de capital. Limites claros de endividamento. Planejamento com cenários conservadores. Relação estruturada com fornecedores. Conselho ativo e independente.
Empresas não quebram de um dia para o outro. Elas vão perdendo a capacidade de reagir. E essa perda começa quando decisões passam a ser tomadas apenas sob o olhar do curto e do médio prazo.
Recuperação Judicial é ferramenta jurídica. Governança é ferramenta de proteção. E empresas que medem, acompanham e ajustam sua rota com antecedência dificilmente serão surpreendidas por crises que já vinham dando sinais.
Peter Drucker já alertava que “o que pode ser medido pode ser melhorado”. E governança nada mais é do que medir, acompanhar e agir antes que o problema se torne incontrolável.
SANDRA COMODARO
Advogada, administradora e conselheira de empresas. Fundadora do Grupo Conselheiras. Colunista da Agência de Notícias DC News.