ARTIGO, por Sérgio Wasserstein  "O futuro não será definido por uma vitória real, mas pela resiliência estratégica"

Uma image de notas de 20 reais
Quem entender antes as regras do novo jogo (governos, sociedades ou mercados) sofrerá menos
(Freepik)
  • China, Rússia e Irã testam limites, exploram assimetrias e geraram atrito contínuo com as democracias ocidentais
  • Zonas prolongadas de tensão, cadeias produtivas redesenhadas, fronteiras ambíguas e regras negociadas no atrito, esse é jogo geopolítico
Por Sérgio Wasserstein | colunista

A mudança de status — de guerra de atrito para mobilização militar contra o regime do Irã — começou enquanto eu fechava um livro sobre a ascensão de Atenas. Era março de 2024. As manchetes falavam em ataques cirúrgicos, dissuasão, escalada controlada. No meu colo, porém, as páginas me levavam a outro março — o de 490 a.C., quando os persas desembarcaram em Maratona acreditando que a superioridade imperial dispensava explicações.

Não foi a primeira vez que procurei refúgio em livros fora do eixo principal. Há anos desconfio de narrativas lineares demais. Gosto de desmontar o encadeamento oficial dos fatos, observar os eventos não como progressão inevitável, mas como escolhas feitas sob pressão. O risco existe: reescrever o passado à imagem do presente, ou moldá-lo às próprias preferências. Mas há risco maior em aceitar que o passado não tem nada a dizer quando o mundo começa a ranger.

E ele está rangendo.

Os conflitos na Ucrânia (desde 2014, e em guerra aberta desde 24 de fevereiro de 2022) e no Irã não são episódios isolados. São manifestações de um deslocamento estrutural. Viajar 2.500 anos no passado ajuda a entender por quê. Além da surpreendente constância da lógica profunda do sistema internacional, é possível identificar, nos eventos passados, os sinais da emergência de uma nova ordem. Essa é a proposta do texto abaixo.

Entre 499 e 449 a.C., as Guerras Greco-Pérsicas colocaram frente a frente cidades-Estado e um império continental. Em 490 a.C., Maratona. Em 480 a.C., Termópilas e Salamina. Em 479 a.C., Plateia encerra a campanha terrestre persa na Grécia. Não se tratava apenas de territórios, mas de quem definiria as regras do comércio no Egeu, a liberdade de navegação e a autonomia política — além, claro, de um dos momentos fundadores do que mais tarde seria chamado de civilização ocidental.

Naquele mesmo período, a China caminhava para sua primeira unificação, que se consumaria em 221 a.C., sob a dinastia Qin. Dois mundos, duas respostas para o mesmo dilema: como organizar poder em larga escala sem implodir por dentro.

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"Quem insistir em tratar o mundo como estático descobrirá, tarde demais, que a História não avisa quando muda de marcha"

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Sérgio Wasserstein | Colunista

Os objetivos dessas disputas — controle de rotas, acesso a riquezas, projeção de poder — atravessaram séculos quase intactos. Os métodos mudam, mas os dilemas retornam: quem sustenta o tempo, quem aceita perdas, quem confunde superioridade material com vitória garantida.

Roma herdou o mundo grego e, entre 146 a.C. e 117 d.C., construiu um império que conectava o Atlântico à Mesopotâmia. Pela Rota da Seda, ativa desde o século II a.C., mercadorias, ideias e doenças cruzavam continentes. A globalização é antiga; apenas mudou de velocidade.

Com a queda de Roma em 476, o equilíbrio migrou. Bizâncio sobreviveria até 1453. A Pérsia ressurgiria sob os sassânidas (224–651). Esse sistema foi progressivamente transformado a partir de 622, com a expansão islâmica, que redirecionou fluxos comerciais e redes de poder por séculos — contribuindo também para a preservação e circulação de conhecimentos clássicos que, mais tarde, influenciariam o renascimento intelectual europeu.

O Irã nunca deixou de ser um ponto de fricção. Do rival otomano ao “Grande Jogo” do século XIX (1813–1907). Do golpe de 1953 à Revolução Islâmica de 1979. Do trauma da guerra Irã-Iraque (1980–1988) à condição atual de potência regional ideológica.

Mas é entre 2001 e 2022 que o pano de fundo do mundo contemporâneo se forma — e, silenciosamente, se distorce. Os parágrafos seguintes explicam a presença de um ‘pacto implícito’ entre Russia, China e Irã.

A entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, foi tratada como um ponto de convergência histórica. A premissa era clara: integrar Pequim às regras do comércio global produziria, no tempo, convergência institucional. Cadeias de produção seriam distribuídas, interdependentes, eficientes — e, por isso mesmo, estabilizadoras.

O que se construiu foi algo diferente.

Ao longo de duas décadas, a China consolidou posições dominantes — em alguns casos, quase monopólios funcionais — em segmentos críticos: terras raras, refino de minerais estratégicos, painéis solares, insumos farmacêuticos, componentes eletrônicos e etapas centrais da manufatura em larga escala. A lógica da eficiência empurrou o mundo para uma concentração produtiva sem precedentes recentes.

As cadeias globais não se tornaram verdadeiramente “compartilhadas”. Tornaram-se, em muitos pontos, dependentes.

Essa dependência permaneceu relativamente invisível enquanto o sistema funcionava sem fricção. Mas crises começaram a expô-la: a crise financeira de 2008 revelou vulnerabilidades sistêmicas; a pandemia de 2020 escancarou gargalos logísticos e industriais; e, progressivamente, a geopolítica voltou a interferir onde antes prevalecia a economia.

O erro de leitura foi assumir que interdependência econômica neutraliza rivalidade estratégica. A história sugere o oposto: ela frequentemente a reorganiza.

Esse pano de fundo ajuda a entender por que 2022 não é apenas mais um episódio — é uma ruptura.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, não é apenas uma guerra regional. Ela rompe explicitamente a premissa de estabilidade territorial que sustentava a ordem pós-1991 e força uma reconfiguração das cadeias de energia, alimentos e segurança na Europa e além.

Quase em paralelo, o ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023 — conduzido por um ator não estatal, mas profundamente conectado ao eixo de influência iraniano — recoloca o Oriente Médio no centro de uma disputa que nunca foi apenas regional.

Esses eventos não são independentes. Eles revelam um padrão emergente de alinhamento.

China, Rússia e Irã não formam uma aliança formal nos moldes clássicos. Mas operam em um vetor convergente: testar limites, explorar assimetrias e gerar atrito contínuo com as democracias ocidentais.

Pequim não precisa replicar as ações de Moscou ou Teerã para se beneficiar delas. Basta manter o sistema em estado de tensão: cadeias produtivas pressionadas, rotas energéticas instáveis, instituições multilaterais tensionadas. Nesse ambiente, escala industrial, controle de insumos críticos e centralização decisória tornam-se vantagens estratégicas — não apenas econômicas.

É um tipo novo de equilíbrio: não baseado em estabilidade, mas em fricção administrada.

Esse é o ponto em que a história volta a fazer sentido.

Assim como Atenas não lutava apenas por território, mas por um modelo de ordem no Egeu, e como Roma não expandia apenas por glória, mas por controle de fluxos e previsibilidade, o mundo atual não disputa apenas fronteiras — disputa a arquitetura que define como fluxos de energia, bens, capital e informação serão organizados.

E essa arquitetura está em disputa aberta. O noticiário trata tais combates como isolados, mas a lógica internacional é clara e estabelece interligações claras. 

O erro mais recorrente deste momento é insistir em analisar essa realidade com categorias de um mundo que já terminou. Cadeias “globais” que não admitem ruptura, interdependência como garantia de paz, instituições como árbitros neutros — tudo isso pertence a um arranjo que funcionou por um período específico. 

Esse período acabou. 

E quanto ao futuro? Ao nosso ver, o vetor convergente entre China, Rússia e Irã deveriam influir e ajudar a moldar a nova ordem internacional.

Se a história ensina algo, é que transições de ordem raramente são administradas com clareza ou consenso. Elas se impõem. O que chamamos hoje de instabilidade é, muitas vezes, o processo pelo qual um novo equilíbrio tenta nascer.

Mas há uma diferença relevante desta vez: o grau de interdependência acumulado torna o custo da ruptura mais alto — e, paradoxalmente, mais provável. É neste contexto que poderemos observar novas ‘guerras’ onde de um lado teremos o ‘ocidente’ e de outro os novos parceiros (China, Russia e Irã).

O futuro provavelmente não será definido por uma vitória final, mas por zonas prolongadas de tensão, cadeias produtivas redesenhadas, fronteiras ambíguas e regras negociadas no atrito. Não mais eficiência máxima — mas resiliência estratégica.

Quem entender isso antes — governos, sociedades, mercados — sofrerá menos. Quem insistir em tratar o mundo como estático descobrirá, tarde demais, que a História não avisa quando muda de marcha.

Ela apenas segue.

E cobra.

SÉRGIO WASSERSTEIN
É empresário, investidor de capital de risco (angelinvestor) e filantropo brasileiro. Após sua graduação e pós em Ciências da Computação pela USP teve uma bem-sucedida carreira no Banco Garantia em São Paulo. Entre outras posições foi head trader da mesa de juros do banco. Co-Fundou em seguida a Coomex energia, uma importante comercializadora de energia no Brasil que foi adquirida pelo BTG Pactual em 2010. Possui vasta experiência em mercado financeiro, com interesse especial em derivativos. É membro fundador do Astra e escreve sobre geopolítica, derivativos, mercados e macro.

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