Ataque a privilégios, 'A Riqueza das Nações', de Adam Smith, completa 250 anos

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Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Lançado há 250 anos, em 9 de março de 1776, “A Riqueza das Nações” foi um best-seller imediato. Esgotou rapidamente, e a segunda edição saiu pouco tempo depois. O autor, Adam Smith, já era famoso pelo seu primeiro trabalho, “Teoria dos Sentimentos Morais”, e, no Reino Unido, as pessoas queriam saber o que ele pensava sobre as colônias e o império. Naquela época, os Estados Unidos estavam em guerra pela própria independência (o que, de fato, ocorreu, em julho de 1776).

Segundo Maria Pia Paganelli, da Trinity University, no estado do Texas, Smith define seu livro como um ataque violento ao sistema mercantil de seu próprio país e diz que o Império Britânico é um produto dos grupos de interesses, uma máquina de guerra que gera mortes, dívidas, preços artificialmente altos e restrições de mercado e que deve ser desmantelado.

Para ele, o ideal seria incorporar as colônias, dar a elas o direito ao voto e cobrar impostos, mas Smith reconhece que isso seria politicamente inviável. O império iria colapsar de qualquer forma, argumentava.

Passados dois séculos e meio, o livro continua sendo lido, estudado e interpretado (muitas vezes de forma errada, de acordo com alguns especialistas), e Adam Smith é tema de diversas agremiações intelectuais pelo mundo. O que mantém vivo o interesse por “A Riqueza das Nações” não mais é o domínio britânico do mundo.

Paganelli diz que o livro continua relevante porque faz perguntas grandes, abrangentes, que são feitas ainda na contemporaneidade. “O título já diz: qual é a natureza e a causa da riqueza. Isso não é algo que devemos considerar óbvio, hoje ou naquela época, dependendo de onde você está no mundo, há diferentes respostas para as perguntas qual é a natureza da riqueza, as suas causas e como nos tornamos mais prósperos”

Para o autor, a riqueza permite que as pessoas vivam (no século 18, a mortalidade infantil era um problema grande) e vivam bem. A forma mais nítida de saber se um país é próspero, ele afirma, é pelo crescimento populacional.

“A Riqueza das Nações” tem cinco volumes e quase mil páginas. Logo no segundo capítulo aparece um dos trechos mais famosos: “Não é da benevolência do açougueiro, ou do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar. Nós não falamos à humanidade deles, mas ao amor próprio, e nunca conversamos com eles sobre nossas próprias necessidades, mas sobre as vantagens para eles.”

Ou seja, há uma força que impulsiona a riqueza de todos, que é a busca pelo bem próprio, e o mercado seria uma espécie de nivelador.

Aqui, diz Paganelli, aparece uma das confusões de interpretação. Smith usa a expressão “own interest”, que, de acordo com ela, implicava, no século 18, uma busca de uma forma moral, que permite que a economia como um todo cresça.

Um livro americano de 1953, “The Worldly Philosophers”, de Robert Heilbroner, teria popularizado a ideia equivocada de que o autor do século 18 promovia o “self interest”, que seria algo mais próximo de cobiça desenfreada ou busca por privilégios à custa dos outros -para o autor, diz Paganelli, isso atrapalha o crescimento da economia.

Além disso, afirma ela, Adam Smith defendia os mercados e, por isso, os que são contrários aos mercados eventualmente construíram uma caricatura do escritor que não é condizente com o que escreveu.

Por exemplo, ele faz uma grande defesa da remuneração do trabalhador. Na época, havia leis de salário máximo, e a ideia por trás delas era que os pobres são naturalmente preguiçosos e, por isso, era preciso que eles ganhassem pouco para que tivessem necessidade de trabalhar. Smith diz que o argumento é uma fraude conveniente para manter salários baixos e lucros altos, segundo a professora. “Sua visão é que os pobres não são diferentes de ninguém: respondem a incentivos como qualquer pessoa. Salários maiores geram mais trabalho e mais produtividade.”

Ele dividia a sociedade em três partes: os que vivem dos rendimentos da terra, os que vivem do trabalho e os que vivem do lucro.

Os últimos, afirma Smith bem no fim do primeiro tomo de “A Riqueza das Nações”, conseguem convencer os demais que seus interesses são equivalentes aos do público, mas frequentemente são diferentes (e até opostos) ao do público.

A EXTERNALIDADE DO MERCADO

Como o livro foi escrito no século 18, conceitos que hoje são banais em economia não existiam. É relativamente simples encontrar o crescimento real do PIB, mas na época a ideia não era tão disseminada. Há contas com vários parâmetros, como cereais, para tentar mostrar como os preços variam (até mesmo para mostrar que, diferentemente de uma corrente de pensamento dominante na época, a riqueza não é acúmulo de ouro e prata).

A questão de como um país se torna próspero aparece de forma recorrente. Logo no início, ele explica por que a especialização gera aumentos de produtividade (apesar de ele não usar essa palavra).

Para Smith, outra forma de gerar riqueza era por um mercado acessível a todos. Uma das expressões famosas do livro é a metáfora da mão invisível. Ao buscar seus interesses, as pessoas acabam tornando a sociedade com um todo mais eficiente, ainda que não seja essa a intenção do indivíduo.

A ideia da mão invisível não é a de que seja possível prescindir da organização do governo.

Os governos fazem parte da estrutura da sociedade, mas a mensagem é que é preciso tomar cuidado, pois o poder pode ser capturado por grupos que vão restringir o mercado e, por consequência, a eficiência e capacidade de promover o bem-estar.

Uma parte longa do livro é dedicada a descrever de que formas os empresários britânicos ligados ao sistema mercantil faziam isso. É um trecho comprido, porque ele acreditava que os mercadores conseguiram emplacar regras que somente os beneficiavam, mas tinham conseguido convencer a nação toda que eram boas para todos.

“Smith é muito metódico ao distinguir o tipo de intervenções que são criticáveis (aquelas que são criadas por iniciativa de grupos de interesse especial) das que são bem-vindas e nas quais a mão invisível (essa espécie de externalidade) funciona”, segundo Paganelli.

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