[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Durante a edição de 2026 da NRF – evento de que participa há 40 anos –, o brasileiro Marcos Gouvêa de Souza foi indicado como vice-chairman da Federação Internacional das Associações do Varejo (Fira, na sigla em inglês) para a América do Sul. Ele será um dos integrantes do comitê executivo global, responsável pela definição de uma “agenda estratégica”. A entidade presidida pelo francês Jacques Creyssel – com 37 filiadas em 23 países, pelos dados disponíveis – passa por um “período de reconfiguração de governança”, observa o consultor, para quem a diversidade brasileira torna o varejo um exemplo para o mundo. “Temos muita coisa a ensinar”, afirmou Gouvêa.
Como exemplo ele cita o varejo norte-americano, que sofre com o custo da transação por meio de cartões. Enquanto por aqui “somos benchmark do mundo em termos de reforma digital”. Segundo ele, uma operação via Pix custa em torno de 10% em comparação com cartões de crédito. Somente nos Estados Unidos, segundo dados da NRF citados por Gouvêa, o total de despesas com intermediação pelos cartões chegou a US$ 187 bilhões. Em média, de acordo com Gouvêa, o custo do Pix para o varejo – quando o vendedor gera um QR Code por meio de maquininhas de pagamentos – oscila entre 0,22% e 0,33% por transação, subindo para 1% a 1,13% no cartão de débito e 2,2% a 2,34% no de crédito.
Isso explica, por exemplo, a inserção por parte do governo Trump da questão do Pix como “tema sensível aos interesses norte-americanos.” Em um artigo, o CEO da Gouvêa Ecosystem afirmou ainda que outros mercados globais, como a Índia, também desenvolvem suas formas de pagamento próprias e também ganham participação nas vendas totais do varejo.
BANCOS – Com essa transformação digital em curso, disse Gouvêa, o varejo brasileiro também se consolida como benchmark na incorporação de serviços financeiros, inclusive no próprio varejo – mais de 50% do resultado do Carrefour no Brasil vem daí. “De 30% a 40% de uma Magalu, uma Renner, uma Riachuelo”, afirmou. O setor passou pela hiperinflação e por períodos sequenciais de estabilidade. “Aquela história de que, no Brasil, até o passado é incerto.”
Países como Argentina e Chile são mais homogêneos, enquanto aqui é necessário conviver com realidades diversas. “Esse é um dos elementos que tornaram o varejo resiliente, criativo e inovador”, disse Gouvêa, que usa a expressão “quase estoico” para definir o comportamento do setor.
“Por aspectos estruturais, pela diversidade socioeconômica, geográfica e comportamento, a empresa que opera no Brasil tem que ser mais criativa.” Até por questão de sobrevivência, os varejistas tiveram de desenvolver seus próprios mecanismos de crédito. Do carnê vieram as financeiras, e algumas se transformaram em bancos, como no caso do Carrefour.
DESEMPENHO NEGATIVO – Mas ele se mostra apreensivo com o atual momento econômico. “O último dado do comportamento do varejo no Brasil traz comportamento negativo em relação a 2024”, afirmou, dizendo levar em consideração a inflação média por setor. “A maioria dos segmentos do comércio, quando deflacionados, mostra desempenho real negativo. O que deve se repetir em 2026”, disse, excluindo da conta o e-commerce.
“Como isso acontece, se você tem uma combinação aparentemente virtuosa?” Ele responde em seguida: “Parte do comportamento está nas bets, que estão esterilizando renda, nesse processo que foi travestido de entretenimento”. E com tratamento que o consultor considera inadequado. “A taxação das bets é inferior à do varejo. Significa desestímulo à contratação de gente e à expansão dos negócios.”
Gouvêa também critica o formato dos benefícios sociais, que, embora importantes, desestimulam a procura por emprego formal. Para ele, falta iniciativa para mudar essa estrutura, que exclui visão mais abrangente e menos imediatista. “Que Executivo e Legislativo estejam comprometidos apenas com a próxima eleição, não temos o que fazer”, afirmou. “O que não é compreensível é que o setor empresarial deixe de se preocupar com um projeto de longo prazo.”
OMNICONSUMIDOR – Sobre os debates da NRF – na terça-feira que vem (27), sua consultoria, a Gouvêa Ecosystem, fará um evento para avaliar o que foi discutido em Nova York –, ele afirma que o processo pelo qual passa o varejo, e não pela tecnologia em si, transforma a atividade e o que ele chama de omniconsumidor, que trafega por todos os canais, que tem acesso a tudo ao mesmo tempo.
Ele afirma que tudo tem de ser usado para tornar a operação mais eficaz. “Sem perder de vista que isso se faz através de pessoas”, afirmou. “O cenário está desenhado: constante aumento de competitividade.” Isso inclui gestão do negócio e monitoramento do comportamento do consumidor. Que, no Brasil, vive período de endividamento elevado, devido, principalmente, aos juros, mas não só. “E voltamos ao fenômeno bet. Em contrapartida, o segmento de maior poder aquisitivo tem uma renda incremental.”
O executivo espera por um ano de baixo crescimento econômico. “Ainda assim, artificialmente sustentado”, afirmou, se referindo a políticas como estímulos fiscais, crédito direcionado, programas de renda e auxílio, além de investimentos públicos “com forte viés eleitoral”. Isso manterá a atividade em funcionamento, mas com possível desempenho real negativo em segmentos de varejo e consumo.