BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – O então presidente do BRB (Banco de Brasília), Paulo Henrique Costa, e o então diretor jurídico da instituição, Jacques Veloso de Melo, pediram em um ofício que o MPF (Ministério Público Federal) reconsiderasse uma recomendação feita ao BC (Banco Central) para barrar a compra do Master pelo BRB.
Costa e Melo agiram para tentar garantir a aquisição da maior parte do Master pelo banco estatal, controlado pelo governo do Distrito Federal.
Naquele momento, a Procuradoria apontava suspeitas de fraudes, manipulações de preços e operações fictícias envolvendo o banco de Daniel Vorcaro, além de incertezas quanto à existência de ativos.
Procurada no fim da tarde desta terça-feira (24), por email e WhatsApp, a assessoria do BRB não respondeu aos questionamentos da reportagem. A defesa do ex-presidente da instituição e o ex-diretor jurídico, procurados por WhatsApp na noite de terça, também não responderam até a publicação deste texto.
Numa recomendação sigilosa, emitida em 20 de agosto de 2025, o MPF sugeriu que o BRB comprovasse a existência de ativos e fizesse a valoração correta “de todos os ativos, passivos e operações” incluídos no negócio. A recomendação foi direcionada também ao governo do DF.
O órgão recomendou que o BC não aprovasse a operação “sem o integral cumprimento das medidas elencadas”.
Em 26 de agosto, o então presidente e o então diretor jurídico do BRB pediram que o MPF reformulasse essa recomendação ao Banco Central para assegurar a continuidade do negócio.
No ofício direcionado aos procuradores Anselmo Lopes e Paulo Galvão, do MPF no DF, os gestores do banco público afirmaram que “diligências adicionais” já haviam sido contratadas pelo banco público, e que isso ocorreria “antes do fechamento da transação”.
“Considerando que a execução plena dessas diligências depende de autorização do BC, e considerando que o fechamento da operação não poderá ocorrer sem a prévia conclusão dessas etapas, o BRB respeitosamente requer a reconsideração quanto ao envio de recomendação ao BC para não aprovar a operação sem o integral cumprimento das medidas elencadas”, afirmaram no ofício.
Uma autorização do BC seria “condição antecedente” para que o BRB atendesse à recomendação do MPF, como a detecção de passivos ocultos ou ativos sobreavaliados, conforme os gestores do banco.
Uma segunda etapa de auditoria permitiria “avaliação pormenorizada dos ativos e passivos”, e para isso seriam necessários 45 dias, após eventual aprovação do negócio pelo Banco Central, segundo a argumentação de Costa e Melo.
Uma semana depois do envio do documento, em 3 de setembro, o BC rejeitou a compra do Master pelo BRB. O Master foi liquidado pelo BC em 18 de novembro, dia seguinte à prisão de Vorcaro em operação da Polícia Federal quando embarcava de jatinho para o exterior. Solto dias depois, Vorcaro usa tornozeleira eletrônica.
Reportagem publicada pela Folha de S. Paulo nesta segunda-feira (23) mostrou que o governo de Ibaneis Rocha (MDB) no DF admitiu que havia riscos na aquisição do Master pelo BRB e defendeu que uma auditoria para avaliar ativos do banco à venda só deveria ocorrer após eventual validação do negócio.
O parecer foi assinado pelo procurador-geral do Distrito Federal, Márcio Wanderley de Azevedo, na mesma data do documento elaborado pelo então presidente e pelo então diretor jurídico do BRB, 26 de agosto.
Costa chegou a ser afastado do cargo de presidente do BRB por 60 dias no âmbito da investigação que levou à prisão de Vorcaro.
Ibaneis, então, indicou Nelson Souza, ex-presidente da Caixa, para a presidência do banco, no mesmo dia do afastamento de Costa. Já o diretor jurídico do BRB renunciou ao cargo neste mês; a saída do executivo passou a ser efetiva a partir do dia 14.
Costa disse na semana passada que colabora integralmente com as investigações e que está à disposição das instituições para que tudo seja esclarecido.
O ex-presidente do BRB nega irregularidades. “Tenho convicção de que sempre atuei no estrito papel que me cabia como presidente do BRB e na defesa dos interesses do BRB, com base em decisões colegiadas, boas práticas e cumprindo o planejamento estratégico do banco”, afirmou Costa, no último dia 17.
Já o ex-diretor jurídico do BRB fez recomendação formal para que fosse dada atenção aos índices de liquidez do conglomerado de Vorcaro, no âmbito da aprovação, pelo conselho de administração do BRB, da operação de compra de 58% do capital do Master. Isso se deu em março de 2025, como revelou a Folha de S. Paulo.