Christiane Cruz, da Neogrid: “Supermercados têm R$ 6 bilhões imobilizados em itens de baixo giro”

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Christiane Cruz, da Neogrid, diz que uso da tecnologia é chave para evitar alta ruptura nas lojas
(Divulgação)
  • Supermercados operam, em média, com 36 dias de estoque (acima da referência de 23), o que mantém capital imobilizado e pressiona margens
  • Em 2026, calendário irregular e oscilações de preços tendem a elevar a volatilidade do consumo e elevar o risco de erro na gestão das redes
Por Bruno Cirillo

[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
Mesmo com estoques elevados, os supermercados brasileiros iniciam 2026 com cerca de R$ 6 bilhões (ou 6% do estoque) imobilizados em produtos de baixo giro (itens que não encontram o consumidor certo, o canal, o preço ou o momento adequados), ao mesmo tempo em que seguem enfrentando rupturas em itens de necessidade básica. O diagnóstico é da plataforma de dados Neogrid. “Quando pedido, entrega e reposição não acompanham o consumo real, a ruptura surge mesmo com estoques elevados no fornecedor”, afirma à AGÊNCIA DC NEWS a executiva de supply chain da empresa, Christiane Cruz.

Em 2025, até novembro, o índice médio de ruptura nos supermercados fechou em torno de 11,2%, abaixo do registrado um ano antes (12,6%), e 0,2 ponto percentual acima de outubro, segundo a Neogrid. Em média, segundo a executiva, a ruptura fica sempre em torno de 13% no Brasil. O resultado, ainda que melhor, indica estabilidade das perdas em um patamar ainda elevado, já que o nível considerado saudável para o setor é sempre um dígito. Para reduzir esse índice, a executiva cita a necessidade de antecipar decisões de compra e reposição, com maior integração da cadeia, e não apenas agir quando a ruptura é detectada. “Quando há integração, é possível reduzir excessos e faltas ao mesmo tempo e proteger margem e capital investido”, disse Christiane Cruz.

Além do impacto direto na venda, a ruptura também está associada a falhas de execução na loja, como divergências entre o estoque registrado no sistema e o disponível na gôndola, além de problemas de reposição interna. Esses desalinhamentos ajudam a explicar por que os supermercados operam, em média, com 36 dias de estoque, acima do benchmark de 23 dias, mantendo capital imobilizado e pressionando a margem. Dados da Neogrid indicam que 81% do retorno do capital investido no varejo (ROI) é explicado pela velocidade com que o estoque se transforma em venda, e que cada volta adicional pode elevar esse retorno em cerca de 10%. Para este ano, com a expectativa de uma economia mais volátil e um amplo calendário de feriados, o assunto volta ao debate. Confira a entrevista.

AGÊNCIA DC NEWS – Quer dizer que, nesse momento, faltam produtos em 11,2% das gôndolas?
CHRISTIANE CRUZ – O índice de ruptura de 11,2% indica que, em média, esse percentual de itens do mix total de uma loja estavam indisponíveis no período analisado. Não significa que 11,2% das gôndolas estavam vazias, mas que parte das marcas, versões ou apresentações cadastradas não estava disponível para o consumidor naquele momento.

AGÊNCIA DC NEWS – Como a Neogrid faz esse cálculo?
CHRISTIANE CRUZ – Esse indicador é calculado sobre o sortimento efetivo de cada loja e considera todo o estoque físico, incluindo gôndola e retaguarda, medindo indisponibilidade operacional. Ou seja, se o item não está disponível para venda, ele entra no cálculo, independentemente de haver produtos similares na categoria. 

AGÊNCIA DC NEWS – Em que períodos do ano há mais ruptura nas gôndolas?
CHRISTIANE CRUZ – Os maiores níveis de ruptura tendem a ocorrer em períodos de aceleração do consumo e maior intensidade comercial. Datas promocionais, como Black Friday, Natal e ações concentradas de preço, aumentam o giro em um intervalo curto de tempo e pressionam a reposição.

AGÊNCIA DC NEWS – É somente nesses períodos que o índice aumenta?
CHRISTIANE CRUZ – Também é comum observar elevação da ruptura em momentos de revisão de sortimento, negociações comerciais e ajustes de mix. Nesses cenários, o consumo segue acontecendo, mas a cadeia pode ter sofrido impactos no abastecimento. Neste caso, o ritmo de venda e as mudanças operacionais exigem um nível maior de sincronização entre previsão, pedido e execução em loja.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais são os principais motivos para a falta de produtos?
CHRISTIANE CRUZ – Na maior parte dos casos, a ruptura não está ligada somente à falta de produção ou de oferta na indústria, mas a desalinhamentos ao longo da cadeia. A aceleração do giro acima do previsto, especialmente em períodos promocionais, é um fator relevante. Além disso, ajustes de mix, substituição de marcas e falhas na execução em loja — como divergências entre estoque sistêmico e físico — contribuem para a indisponibilidade. Quando pedido, entrega e reposição não acompanham o consumo real, a ruptura surge mesmo em um cenário de estoques elevados na cadeia.

AGÊNCIA DC NEWS – Isso varia muito conforme a categoria de produto?
CHRISTIANE CRUZ – Em alguns mercados específicos, soma-se ainda o redirecionamento da produção para o mercado externo. No caso dos ovos, por exemplo, a escassez nas gôndolas avançou 22,3% entre janeiro e novembro de 2025, enquanto as exportações brasileiras cresceram 135,4% no comparativo com 2024, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Esse aumento na destinação para exportação, aliado a uma demanda doméstica mais aquecida, reduz a disponibilidade do produto para o varejo e pressiona a reposição – intensificando a percepção de falta, mesmo quando a capacidade produtiva continua elevada.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o índice médio de ruptura no varejo brasileiro?
CHRISTIANE CRUZ – De forma geral, cerca de 6% de todo o estoque é composto por produtos que não vendem, o que representa aproximadamente R$ 6 bilhões imobilizados, enquanto a ruptura média permanece próxima de 13%. Esses números mostram que excesso e falta ainda coexistem na operação, reforçando a importância de uma alocação mais precisa do estoque ao longo da cadeia.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais são os prejuízos para o varejista nesses casos?
CHRISTIANE CRUZ – O impacto mais imediato da ruptura é a perda de venda. Parte do consumidor substitui o item, mas outra parte adia ou abandona a compra. Isso afeta o giro e reduz a eficiência do estoque, já que o capital investido não retorna na velocidade esperada. No médio prazo, a recorrência de ruptura compromete a experiência de compra e a previsibilidade da operação. A loja passa a operar de forma mais reativa, com ajustes menos precisos, o que pressiona a margem e dificulta o equilíbrio entre disponibilidade e capital investido. Além disto, os consumidores estão cada vez mais atentos e exigentes. Uma experiência de compra ruim pode trazer prejuízos de fidelidade à marca, pois atualmente há uma variedade de lojas e formatos muito grande. A recorrência de ruptura pode fazer com que a marca não volte a ser frequentada e recomendada. 

AGÊNCIA DC NEWS – Como os supermercados devem lidar com esse cenário?
CHRISTIANE CRUZ – Para lidar com esse cenário, é preciso uma estratégia sólida que permita comprar com mais precisão. Monitorar continuamente o que acontece no ponto de venda, reduzir a distância entre o estoque registrado e o disponível na gôndola e orientar o abastecimento pelo giro real de cada loja e SKU são movimentos essenciais. O diferencial competitivo está na gestão inteligente do estoque.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o nível de estoque ideal para se manter?
CHRISTIANE CRUZ – O desalinhamento aparece também nos níveis de cobertura. Em média, o varejo opera com 36 dias de estoque, quando o benchmark é de 23. Há itens de alto giro que poderiam trabalhar com cerca de 12 dias, mas seguem estocados por mais do que o dobro desse tempo. O efeito é capital parado, pressão sobre a margem e menor capacidade de crescimento. Dados do Painel Neogrid mostram que 81% do ROI do varejo é explicado pelo giro e que aumentar uma volta no estoque pode elevar o retorno em cerca de 10%.

AGÊNCIA DC NEWS – Por que produtos básicos, como arroz, feijão e ovos, estão faltando agora? E por que o café teve maior disponibilidade?
CHRISTIANE CRUZ – No caso de arroz, feijão e leite, o aumento da ruptura está relacionado principalmente à aceleração do consumo. Em novembro, essas categorias registraram queda de preços, o que estimulou compras maiores e antecipação de consumo, especialmente em um contexto de promoções e preparação para o fim do ano. Os ovos tiveram ainda um fator adicional: como dito anteriormente, parte da produção foi direcionada ao mercado externo, ao mesmo tempo em que a demanda doméstica permaneceu aquecida, pressionando a reposição no varejo. O café seguiu uma dinâmica diferente. Apesar da volatilidade ao longo do ano, houve maior equilíbrio entre oferta, preço e consumo no período analisado. Isso permitiu uma reposição mais estável e resultou em redução da ruptura, mesmo com oscilações de preço entre os tipos de produto.

AGÊNCIA DC NEWS – Quais são as previsões para o primeiro trimestre?
CHRISTIANE CRUZ – Olhando para 2026 como um todo, será um ano que tende a impor um nível maior de complexidade à gestão de estoque e ao abastecimento. O calendário reúne datas comemorativas, feriados prolongados e eventos de grande impacto no consumo, como Copa do Mundo e Eleições, o que deve gerar picos mais frequentes e menos previsíveis de demanda ao longo do ano.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é a melhor estratégia para evitar o desfalque nos estoques?
CHRISTIANE CRUZ – O caminho passa por deixar de atuar apenas de forma corretiva e avançar para decisões orientadas por dados, com previsibilidade e colaboração entre indústria, varejo e distribuidores. Quando a cadeia opera de forma integrada, é possível reduzir excessos e faltas ao mesmo tempo, além de garantir que o consumidor encontre o produto certo, no momento certo e canal certo.

AGÊNCIA DC NEWS – Quanto maior a eficiência operacional, menor o índice de ruptura?
CHRISTIANE CRUZ – Esse contexto amplia a pressão por eficiência operacional, gestão rigorosa do capital investido e proteção de margens, em um ambiente de canais cada vez mais dispersos. Para lidar com esse cenário, varejo e indústria precisarão operar com mais precisão, apoiados por processos integrados, dados confiáveis e tecnologia capaz de transformar sinais de consumo em decisões rápidas e coordenadas. Quem conseguir estruturar essa operação desde o início do ano tende a reduzir distorções de estoque, equilibrar giro e disponibilidade e atravessar 2026 com mais previsibilidade, mesmo diante de um consumo mais volátil.

AGÊNCIA DC NEWS – Qual é o papel da tecnologia nisso tudo?
CHRISTIANE CRUZ – A tecnologia tem um papel fundamental nesta frente. Trocar pedidos eletronicamente (EDI), monitorar o nível de serviço de fornecedores (Neolog da Neogrid é uma dessas tecnologias). Ter um ótimo sistema de abastecimento (DRP) e utilizar VMI com base na real demanda.

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