Colapso do Master assombra BeFly, holding de turismo turbinada por Vorcaro

Uma image de notas de 20 reais

Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O crescimento meteórico da BeFly -gigante do mercado de turismo que nasceu durante a quebradeira geral das empresas do setor na pandemia e agregou 36 marcas do ramo- está sob a sombra do escândalo do Banco Master.

Especialmente porque seu modelo agressivo de aquisições foi impulsionado por fundos ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, entre eles o B10 e o TT.

A BeFly surge em 2021, quando Marcelo Cohen, dono de uma empresa mineira chamada Belvitur, cujo faturamento girava em torno dos R$ 800 milhões antes da pandemia, anunciou a compra da Flytour. Trata-se de uma das agências de turismo corporativo mais tradicionais do país, que chegou a faturar acima de R$ 6 bilhões, mas sofria um forte endividamento em meio à crise da Covid-19.

Cohen, depois, partiu para a compra de outras empresas, como a Queensberry, referência no turismo de luxo, e a STB, líder no segmento de intercâmbios. A lista de negócios em série do mineiro incluía o hotel de luxo Botanique, em Campos do Jordão, numa associação com Vorcaro.

Já em 2022, Cohen era celebrado como um dos grandes nomes do setor. Nas entrevistas que concedia para explicar o sucesso, projetava faturamento da BeFly acima de R$ 10 bilhões no ano seguinte.

Hoje, enquanto a liquidação do Master e as investigações que levaram à prisão de Vorcaro avançam, o empresário atravessa uma disputa extrajudicial em torno justamente da joia da coroa, a Flytour.

A aquisição da empresa fundada por Eloi D’Avila de Oliveira, figura icônica do mercado de turismo, está em discussão na Câmara de Arbitragem de São Paulo desde dezembro de 2025, após o estouro do escândalo do Master. A primeira sessão arbitral ocorreu na quinta-feira (26).

Para os 2.300 funcionários e 8.000 clientes corporativos da BeFly e os milhares de passageiros que a holding embarca mensalmente, a pergunta é se a operação turística consegue se descolar das fraudes do banco liquidado.

Por meio de sua assessoria, Cohen informa que o Master “não detinha participação societária na BeFly”. “Sua atuação se deu como parceiro financeiro, por meio de linhas de crédito contratadas para apoiar parte das aquisições realizadas entre 2021 e 2022, em conjunto com recursos próprios gerados pela operação”, diz.

Segundo a nota, a BeFly segue honrando regularmente seus compromissos.

Enquanto Cohen tenta blindar a operação da BeFly da contaminação do escândalo do Master, Oliveira acompanha de Portugal, onde passa uma temporada para tratar questão de saúde em família, o desenrolar do passivo da Flytour, que passou por um processo de recuperação extrajudicial.

A disputa acontece no momento em que as investigações do caso Master passam um pente-fino nos negócios impulsionados pelo capital de Vorcaro, que estendeu seus tentáculos em setores como saúde e mineração.

Há cerca de cinco anos, quando a pandemia devastava o mercado de turismo, a relação entre Oliveira e os novos controladores da Flytour era de gratidão diante da situação pré-falimentar causada pelos prejuízos das viagens canceladas.

Com dívidas de R$ 350 milhões, o fundador da Flytour e gestor do negócio ao longo de cinco décadas viu em Marcelo Cohen e no braço financeiro do Master anjos salvadores.

Na época, Oliveira -o ex-engraxate que ergueu um império com 220 pontos de venda e 3.000 colaboradores- se emocionou publicamente ao dizer que a venda havia salvado seu legado.

Um texto publicado no site da Titan, uma das empresas do grupo de Vorcaro, apresenta a BeFly como um “case de sucesso” e relembra como a holding nasceu.

“Num período de aeroportos fechados e falência de centenas de agências pelo país, Cohen contou com o apoio do Banco Master para manter a Belvitur capitalizada e para empreender uma estratégia de aquisições de agências em dificuldade. Foram cerca de 30 negócios realizados a partir de 2020”, diz o site.

Enquanto todas as empresas do mercado de turismo sofriam na pandemia, Cohen, com a ajuda do Master, engoliu parte importante do mercado.

De acordo com executivos que pediram para não ter seus nomes divulgados na reportagem, desde que o noticiário sobre os desvios do Master veio à tona, a consolidação do setor promovida por Cohen passou a ser vista como uma estratégia injusta com os concorrentes, porque parte dos recursos que impulsionaram a BeFly veio de Vorcaro.

Antes do colapso da instituição financeira, Cohen exaltava o parceiro e financiador, descrevendo sua trajetória com a confiança de quem havia decifrado o código do mercado pós-pandemia.

Em entrevista a Sandra Chayo, no programa “Papo Íntimo” em outubro de 2024, ele revelou a estratégia por trás do crescimento exponencial: “Peguei o capital que tinha e minhas economias de fora, vou para o tudo ou nada neste projeto. Trouxe o Banco Master, que é um parceiro meu hoje, para fazer investimento junto comigo. Compramos 36 empresas em 30 meses.”

Sobre o movimento ousado, declarou: “Eu sempre entendi que depois da tempestade vem a bonança. Não seria diferente depois da Covid.”

O cenário mudou quando a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, prendeu preventivamente Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel sob acusação de fraude bilionária, emissão de títulos sem lastro e até a manutenção de um sistema de monitoramento para intimidar adversários.

O uso de uma estrutura de fundos em camadas, que hoje está na mira das investigações, aparece no ecossistema BeFly.

É o caso de um fundo chamado B10, administrado pela Trustee, que atuava como prestadora de serviços para o Master e entrou em diferentes investigações ligadas ao ex-banqueiro, além de ser alvo da operação Carbono Oculto, por suspeita de operar com recursos de alvos ligados ao PCC.

No contrato de compra e venda da Flytour, a B10 aparece como Otisu, como o fundo era então denominado em 2021.

Questionado sobre os detalhes que o levaram ao atual imbróglio com a BeFly, Eloi de Oliveira diz que não pode se pronunciar.

“Temos cláusula de confidencialidade. Não posso disponibilizar qualquer informação sobre a venda do Grupo Flytour e o fundo B10”, afirma o empresário por WhatsApp.

“De imóveis à minha poupança para a aposentadoria, tudo foi para dentro da empresa para não ter de mandar funcionários embora”, diz Oliveira, sobre a decisão de se desfazer do negócio.

Com a liquidação do Master, surgem dúvidas sobre o cumprimento das garantias da transação. O mercado especula que o litígio na arbitragem trate de ajustes de preço, ativos não provisionados ou, o que é mais grave, a validade das garantias oferecidas por fundos agora sob suspeita de fraude e inflação artificial de ativos.

A Queensberry ainda tem o B10 em seu quadro de sócios. De acordo com dados da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o B10 fazia parte da carteira de um outro fundo, o Leal, ao lado de outros fundos como o Arleen, nomes que ficaram conhecidos no noticiário sobre as ligações do ministro Dias Toffoli do STF (Supremo Tribunal Federal) com Zettel e o resort paranaense Tayayá.

Conforme a Folha revelou, o Arleen Fundo de Investimentos teve, até 2025, ações da Tayayá Administração e Participações, responsável pelo resort. Reportagem do jornal O Estado S.Paulo mostrou que Zettel era o cotista do Arleen por meio do Leal.

O telefone registrado pelo B10 em seu cadastro na Receita Federal é o mesmo apresentado em documentos do Master. Endereços também se repetem.

Ainda conforme os dados apresentados no site da CVM, o TT Fundo de Investimento em Participações -que tinha na carteira ações da BeFly Travel Part- está contido na carteira do Astralo 95, que por sua vez é um dos fundos identificados pelo Banco Central como suspeitos de fazerem parte do esquema de fraude capitaneado por Vorcaro e que ao mesmo tempo aparecem nas investigações que miram infiltração do PCC no mercado financeiro.

Atuando em todos os segmentos do turismo e se apresentando como um dos maiores do Brasil, Cohen é próximo da família de Vorcaro. Na juventude, ambos trabalharam como guias turísticos na Disney.

Dados da Receita Federal também apontam laços entre Cohen e Zettel. Ambos aparecem como administradores da empresa FSW, que tem como sócias a Belvitur e a Moriah, holding que reúne os negócios do cunhado de Vorcaro. A FSW tem um jatinho Falcon 2000, avaliado em cerca de R$ 30 milhões, segundo dados da Anac.

“Trata-se de um ativo estruturado em cotas, modelo usual nesse mercado. Uma de nossas empresas é detentora de uma cota, por meio de uma SPE, e essa participação não está à venda”, declarou Cohen, por meio de nota, na qual também nega que Vorcaro e Zettel tenham sido ou sejam seus sócios.

“Ressaltamos que as pessoas mencionadas não mantiveram qualquer vínculo societário com a BeFly, não tendo também exercido quaisquer funções de gerência ou administração na companhia.”

E conclui na nota que a empresa “mantém padrões rigorosos de governança e compliance, além de seguir adimplente com seus compromissos financeiros”.

LINHA DO TEMPO

– Abril 2021: Assinatura do contrato entre Eloi Oliveira e o Fundo Otisu (atual B10)

– Outubro 2021: Marcelo Cohen assume como CEO; Flytour inicia recuperação extrajudicial

– 2022-2025: BeFly expande agressivamente, adquirindo mais de 30 empresas

– 2025: Prisão de Daniel Vorcaro e liquidação do Banco Master

– 2026: Disputa Befly com Eloi D’Avila de Oliveira escala para a Câmara de Arbitragem

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